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Milton Cunha

Terça-feira, 25 Agosto, 2009

Retorno ao negro!


Na boa, um festival sobre a África, no Rio de Janeiro, não pode se chamar Back two Black, né não? Muita pretensão, muita cafonice de achar que título em ingrês é mais bacana, chic, antenado. Sobretudo porque os de língua inglesa não se misturam facilmente com os negros, não. Quando é que essa gente vai deixar o anglo-saxão só para fashion week, que é mais a praia deles? Será que este festival "de volta ao negro" vai ter tradução simultânea, ou a coisa ta mais prá henê marú do que pichain? Aliás, viram o Miss Universo? Quatro das cinco finalistas obraram solenemente para a língua inglesa, três respondendo as perguntas cretinas dos jurados em espanhol, e uma na língua de Kosovo, cuja tradutora era gordinha e apertada num tubo preto, mostrando que o mundo aqui fora é muito diferente das passarelas. Minha preferida, aliás, era a pescoçuda Miss Kosovo, com um cagalhão de cabelos no cocoruto da cabeça, homenageando a Bonequinha de Luxo de Audrey Hapburn. Adoro mulher que vai na contra-mão, adoro estilo único. Acho marcante, inesquecível. E elas não têm mais coragem de ser diferente, todas tem cabelão, decotão, todas são genéricos da Gisele Bündchen. Só uma era belamente diferente, classuda e estilosa. Pelo menos ficou em terceiro lugar, pelo menos ficou entre as cinco. Miss Brasil não foi bem, errou num traje típico de baiana cuja cabeça era um pano gigante, embolado de maneira grosseira, escondendo seu rosto. Neste quesito, China e Tailândia eram deslumbrantes. Fora isto, o que eram as atrações musicais deste concurso? Esquisitíssimas e risíveis. Primeiro, uma loura desengonçada, apresentada como celebridade, e que dançava como uma pata. Depois um negão de hip-hop que usava um colar de ouro com um medalhão que parecia um gongo chinês, e-nor-me. Ele pulava entre as candidatas e segurava a chulapa para não estapear a cara das moças com o balangandã. Na transmissão disseram que o cantor Latino está pensando seriamente em convidá-lo para gravar uma música. Então ta! E por fim, uma mulata bombada, que já cantou com a Byoncé (?), atarracada, de coxas grossas, mini-saia e botas que eram de doer. Sem dúvida, o problema do Miss Universo é de escalação, basta olhar o júri. Mas o que podemos esperar de algo cujo dono é o sarcófago Donald Trump?

Gente Tóxica!


Gente tóxica é o último grito em denominações para babacas. Adorei ouvir o publicitário Lula Vieira discorrendo sobre o assunto, a propósito de um livro escrito por um psicanalista argentino. Todos nós conhecemos gente tóxica: invejosos, mal amados, rancorosos, incapazes de se alegrarem com os triunfos alheios, sempre contando para nós uma notícia que nos diminua, enfim, gente uó. Tem gente tóxica em todas as família, tem em todos os condomínios, e tem em todas as.... universidades. O que são estes veteranos da UFF, separando calouras bonitas das calouras barangas, trancando-as numa sala com brutamontes na porta, para que elas fizessem, coagidas e humilhadas, sexo oral nos tóxicos? Cá prá nós, homem que precisa de veado prá pegar mulher, homem que precisa de bens materiais para seduzir mulher, e homem que precisa de trote prá fazer isso, além de tóxico, é homem sem bilau. Se o tivessem, não aceitariam a força como única forma de fazer uma mulher deles se aproximarem. É homem que não beija na boca. Falta peru nesta proposta de não saber da importância do remelexo. É homem sem ginga, é homem debilitado, e merecem todo o nosso desprezo. Não é que sejam feios, é que são tóxicos. Não pegam mulher na boa, não têm noção de que o bacana da mamada é a não obrigação. Mama porque quer, porque tá a fim. E como são tóxicos, não percebem que ser mamado por obrigação diminui a mamada. Como são solitários e infelizes, e só encontram alguma graça na companhia de outros tóxicos (eles deveriam casar um com outro, mamar uns aos outros) está tudo certo violentar a vítima, pois elas não interessam, quem conta são eles e a brincadeirinha tóxica deles. Por isso eles inventam a babaquice de que, no fundo, no fundo, elas gostam de serem mal-tratadas. Muito me admira uma universidade que deveria formar espíritos superiores permitir tal comportamento tóxico. Reitor, comunidade acadêmica, pelo amor de Deus tomem uma providência, senão vocês serão apontados como uma universidade tóxica.


Segunda-feira, 24 Agosto, 2009

Corra, Lola, corra!


Sempre mais exigências de resultados a curto prazo,
fazer mais no menor tempo possível,
agir sem demora:
a corrida da competição faz priorizar
o urgente à custa do importante,
a ação imediata à custa da reflexão,
o acessório à custa do essencial.


Quarta-feira, 19 Agosto, 2009

Esfinge!


Antes de começar o espetáculo, no belo teatro Maison de France, a sistema de som dá voz, cheia de ginga franco/brasileira ao locutor que diz, cheio de sotaque em tom brabo, duas vezes:" por favor, respeitem os artistas, e desliguem seus celulares!" Caí na gargalhada pois reconheci a voz do querido Cedrick, o mais carioca dos franceses (ele é destaque em escola de samba e tudo!) dando um pito na platéia. Após o espetáculo, no coquetel, procurei ele que é diretor da casa, e perguntei por que o tom tão ríspido. "Porque não adianta de nada. Ninguém me ouve. Mesmo assim vive tocando celular no meio de cenas importantes". Conversa vai, conversa vem,ele dispara: "não agüento mais responder por que coloquei a escultura de Jesus no saguão do teatro. Ninguém reconhece Moliére, meu Deus!".
A peça que está em cartaz é A Música Segunda, de Marguerite Youcenar, dirigida pelo craque Zé Possi Netio e estrelada pela belíssima Helena Ranaldi, madura e segura num papel nada fácil. O encontro denso, longo, ressentido e maltratante de um casal, que de tanto se amar e se precisar, não pode tolerar a vida a dois. Sabe quando é tanto amor que resvala para a doença, a obsessão e a maluquice? Tipo : "tenho ciúmes de você até comigo mesmo". Muito pinel, né não? Pois é possível e eles se agridem e se admiram e se desejam por duas horas defronte da platéia, num espetáculo nada fácil. Mas necessário, para os que amam o teatro e as artes. Mas não é entretenimento, não. É prá cortar os pulsos. E como tem uma frase sobre amar tanto que chega a doer, fiquei pensando que tal é a beleza da esfinge da Ranaldi, em cena, que de tão bela, a criatura dói. E tamanho deslumbre e mistério faz a obsessão do ex-marido ser plausível e até compreendida e desculpada. Vai ser bonita assim lá no inferno. E boa atriz, utiliza-se da personagem para expor um perfil egípcio em pescoção, que é uma coisa. Por vários momentos, abandonei a ação e fiquei ali, só babando a deusa, inacreditável de tão forte. Quanto à montagem, melhor seria apostar só nos dois atures e na força da palavra. Não havia necessidade dos bailarinos reforçando em expressão corporal, o desencontro, ao fundo da cena. Acaba desviando a atenção, dividindo, mesmo. Uma interpretação muda que não acontece, e que só fez me lembrar de Juliana Carneiro da Cunha, a empregada que não dá um pio e é apaixonada pela patroa, nas Lágrimas amargas de Petra Von Kant, na lendária encenação de Celso Nunes com a perfeita Fernanda Montenegro. Entrar muda, sair calada, e trinta anos depois ser lembrada como um marco, não é prá qualquer um, não. Luxo e ousadia para poucos.


Terça-feira, 18 Agosto, 2009


Menino, adorei saber que a lei que proíbe fumo em locais públicos fez um ressalva para terreiros de macumba e candomblé. Laroiê, Exu! Nem a entidade pode dar os seus traguinhos? O consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de derivados do tabaco é preceito indispensável do elo cavalo/entidade. Não tinha nem cabimento o preto velho fumar cachimbo cenográfico, nem o pilintra não poder, nas sessões, dar uma pitada no fumo. Tempos modernos, tudo politicamente correto, chato e padronizado, mas maior é o poder dos Orixás. No altar, imaginem condições de isolamento, ventilação ou exaustão! Palhetas de ventilador ao lado da palha da costa, era só o que faltava. Temo que chegará o dia em que a pomba-gira não vai mais poder ser feminina e coquete exibindo sua piteira longa, pois ela será um acinte à libertação da mulher. Se bem que ela nunca baixaria numa Luiza Erundina, por exemplo, se é que vocês me entendem. Bem fez o deputado Átila que explicou na bancada da Assembléia: Gente, lá no roncó tem que haver fumo, é sagrado, e quem vai à uma gira quer sentir o cheiro do tabaco das entidades. Só falta o patrocínio de uma marca de cachaça para que o pós-moderno adentre de vez a sessão de descarrego. Será que seremos o último reduto do tabagismo? Tome um passe do bem!


Quinta-feira, 13 Agosto, 2009

Protestos!


E já que todos adoraríamos que este tipo de protesto pegasse por aqui, vocês já viram o clipe musical que um cantor americano postou no You Tube , onde ele sacaneia e protesta contra a companhia de aviação United Airlines, que quebrou sua guitarra Taylor e depois de meses simplesmente o ignorou? O clipe já foi acessado quarenta milhões de vezes e a companhia está se rasgando com o sucesso do protesto, hilário. Já que os yankees fizeram com música sertaneja, sugiro que o pagodeiro e meu amigo Dudu Nobre faça um clipe nos mesmos moldes, só que em samba-enredo, detonando a comissária e a companhia que chamou-o de macaco sem-vergonha durante um vôo. Imagina o sucesso? Com muito humor, este protesto pós moderno parece ser uma poderosa arma de boca-a-boca que causará sérios prejuízos a quem muito lucra com serviços, e anda se lixando para o consumidor.


Quarta-feira, 12 Agosto, 2009

Empossados!


O GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, no uso de suas atribuições constitucionais e legais, e tendo em vista o que consta do Processo nº E-23/1344/2008,

RESOLVE:

COMPOR, nos termos do Decreto nº 41.798, de 02 de abril de 2009, o CONSELHO DOS DIREITOS DA POPULAÇÃO DE LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO - CELGBT/RJ, da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, com mandato de 02 (dois) anos, a contar da data de sua instalação e posse de seus membros em 18 de maio de 2009, como

segue:

REPRESENTANTES DA SOCIEDADE CIVIL

Escritora, do Rio de Janeiro - Ruddy Pinho

Carnavalesco, do Rio de Janeiro - Milton Reis Cunha Júnior

Cantora, do Rio de Janeiro - Leila Maria da Costa Pinto

Estilista, do Rio de Janeiro - Carlos Alberto Tufvesson

Organizações de Direitos Humanos

Conselho Regional de Psicologia - CRP, do Rio de Janeiro - Pedro Paulo Gastalho de Bicalho

Grupo Criola, do Rio de Janeiro - Lúcia Maria Xavier de Castro

Conselho Regional de Serviço Social - CRESS, do Rio de Janeiro - Maria Elizabeth Freire Salvador


Especialistas

Fundação Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ - Sérgio Luís Carrara - Pesquisador

Universidade Candido Mendes - Rio de Janeiro - Sílvia Ramos de Souza - Professora do Centro de Estudos da Segurança e da Cidadania


Organizações LGBT

Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, do Rio de Janeiro - Júlio Cesar Carneiro Moreira

Movimento D'ELLAS, do Rio de Janeiro- Yone Baptista Lindgren

Associação dos Transgêneros do Rio de Janeiro - ASTRA-RIO - Majorie Machi

Grupo de Mulheres Felipa de Souza, do Rio de Janeiro- Maria Fátima Pinheiro de Magalhães da Silva

Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher - CEDOICOM,

do Rio de Janeiro - Neusa das Dores Pereira

Grupo Diversidade Niterói - José Manoel Oliveira Antiqueira

Grupo 28 de Junho-Movimento de Emancipação Homossexual, de Nova

Iguaçu - Eugenio Ibiapino dos Santos

Associação de Gays e Amigos de Nova Iguaçu e Mesquita - AGANIM

- Jucyara Itibiryciara Albuquerque dos Santos

Grupo Triângulo Rosa de Emancipação e Conscientização Homossexual,

de Belford Roxo - Ana Cristina Costa

Grupo da Diversidade Sexual - GDS, de São João de Meriti - Kakau Ferreira

Grupo Cabo Free de Conscientização Homossexual e Combate à Homofobia, de Cabo Frio - Cláudio Lemos Madureira

Grupo Iguais de Conscientização Contra o Preconceito e Inclusão Social,

de Cabo Frio - Renata Cristiane de Oliveira

Grupo Cores da Vida, de Rio das Ostras - Jonathan Craveiro da Silva

Movimento da Diversidade Sexual - MDS, de Macaé - Fábio de Oliveira Fernandes

REPRESENTANTES DO PODER PÚBLICO

Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos -

SEASDH - Cláudio Nascimento Silva

Secretaria de Estado de Segurança - SESEG - Jéssica Oliveira de Almeida

Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil - SESDEC - Adriana Maria Shaad Balthazar

Secretaria de Estado de Trabalho e Renda - SETRAB - Maria Christina Rodrigues Menezes

Secretaria de Estado de Educação - SEEDUC - Rita de Cássia Rodrigues da Silva

Secretaria de Estado de Cultura - SEC - Marcos André Rodrigues de Carvalho

Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Lazer - SETE - Luiz Renato Rezende Quintanilha

Secretaria de Estado da Casa Civil - CASA CIVIL - Cláudia Carneiro da Cunha

Secretaria de Estado de Administração Penitenciária - SEAP - Adriana Ribeiro Martins

Secretaria de Estado de Governo - SEGOV - Fabiano Garcia de Oliveira Faraco

Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão - SEPLAG - Diego Gil Figueiredo Carral

Secretaria de Estado do Ambiente - SEA - Carlos Frederico Castello Branco

Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro - ALERJ - - Gilberto Silva Palmares

Defensoria Pública Geral do Estado - DPGE - Denis Andrade Sampaio Júnior

Ordem dos Advogados do Brasil - OAB Seccional Rio - Roberto Augusto Lopes Gonçale


Terça-feira, 11 Agosto, 2009

Salve o premio TDB!


Na impecável noite do premio TDB, daqui do Dia, no Vivo Rio, para os melhores de 2009, muitas são as coisas a destacar: primeiro que festa sem comida e bebida da boa, não bomba. Pois tinha, de sobra. Barriga cheia, espírito inebriado, tudo o que se quer é um espetáculo ágil e leve: pois tinha, de sobra, de novo. Os apresentadores eram jovens humoristas, antenados, engraçadésimos. Além dos premiados, eles eram esperados com expectativa, e a intervenção deles sempre era uma comoção de gargalhadas. O máximo. Aliás, não era gag e pegou, com a platéia gritando "fora Sarney", de vez em quando. Foi um dos premiados quem primeiro bradou isto. Depois, pipocava o enxotamento do bigodudo de vez em quando, autêntico e sincero. A musa Letícia Sabatella, escolhida, estava numa roupa esquisitíssima, meia preta e saiote bailarina, tipo Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo. Tudo bem que muito homem queria ser a Cuca desta boneca de pano, mas que estava borocochô, estava. Isabel Fillardis, premiada na categoria ação social por seu trabalho com crianças, a partir do próprio filho, era a imagem da serenidade, da segurança, e do bem viver. A deusa negra estava lindíssima e foi, sem dúvida, o discurso, sério, mais contundente da noite. Derramando-se de amor pela humanidade e pela consideração ao semelhante, Bel fechou com chave de ouro a lista dos premiados.
Mas foi lá pelo meio da entraga dos premios, que uma imagem me impactou, talvez percebida por pouquíssimos: chamada ao palco como melhor atriz, a competente Cássia Kiss, arrebatadora na sua beata fundamentalista e louca, na novela Paraíso, subiu os degraus com a força e a beleza das mulheres bem-amadas. Num olhar transbordando de felicidade e certeza, a grande atriz falou da equipe, da família, e no final, depois de um suspiro e pausa, ela falou do encontro do amor com seu homem. Foi aí que veio a cena: ele baixou a cabeça, perdido num mundo só deles, por preciosos minutos. Homens apaixonados e apaixonantes baixam a cabeça diante da mulher amada. Redemoinho de sensações, quantidade abissal de sonhos e sussurros. Olhar para o palco, para ela, já era pouco, após a citação. Ele tinha que se recolher à grandeza do que está vivendo, felicíssimo, sozinho naquela multidão. Que o amor nunca morra, que cada vez, mais e mais, humanos baixem a cabeça de forma decisiva, quando convocados pela declaração de amor de uma grande mulher.
O show de Lulu Santos foi um acerto de escolha, pois ele é o sessentão mais jovial e celebrado do dançante nacional. Além de ter longo caminho percorrido, com um montão de músicas que marcaram nossas idas e vindas, ele é o jovem de espírito, sempre capaz de levantar a galera. Pois foi isso que aconteceu, e todos suados e satisfeitos, depararam-se com o abrir de negras cortinas de veludo que revelaram um altar pop de pai de santo (tal era o número de quinquilharias que enfeitavam o balcão), bem no centro da platéia da casa de espetáculos. Admiradíssimos, todos avançamos para explorar a quantidade de detalhes do fascinante lugar do DJ, que atacou com luzes e sons e foi um Deus nos acuda. Olhei prum lado, a bela Luana Piovane de coroa de Barbie, deleitava a audiência com sua presença. Olhei pro outro lado e dei de cara com Ângelo Paes Leme, o mais belo homem da noite. Virei e vi Viviane Araújo exibindo seus coxões mais que deliciosos. Pensei que ela é mais gostosa que um tender, daqueles poderosos de ceia de natal. Rodopiei e adorando tudo e todos, parti, satisfeitíssimo com a glória do premio deste jornal, de volta prá casa.


Terça-feira, 4 Agosto, 2009

Sessentonas poderosas...


Nas festas de ricos, sempre uma loura afrancesada chegava perto de mim e dizia: "como vai, xuxuzinho...". Pois eu adorava o xuxuzinho cordial da loura peruíssima, sempre pra cima e com algo que os outros convidados não tinham. Era uma louca perambulando, descolada, por salões que, sinceramente, não são muito a minha praia não, porque não admiro nem me identifico com a maioria por ali. Mas a doida afrancesada era o máximo, e ponto final. De que planeta, ou de que enfermaria, nossas almas passadas já se conheciam? Guardei-a nos arquivos da memória emotiva, e taquei a vida em frente. Depois vi a senhora dentro do ônibus em Goiânia, abandonada pelo mundo, sentadinha numa janela, tipo "daqui não saio, daqui ninguém me tira". Ela só queria ter o direito ao seu direito constitucional de andar de graça no transporte coletivo, pois é da terceira idade e a lei diz que ela pode. A cobradora e o motorista disseram que ela não podia não, e então a dama digna chutou o pau da barraca: "chamem a polícia para me tirar daqui". Quiprocó armado, câmeras filmando e fotografando, a adorável anônima ficou ali, sentadinha, pelo vidro olhando o mundo. De se apaixonar pelo destemor e discurso, na hora: "eles tem que aprender a respeitar nós que tanto contribuímos para a história deste país". Pode? Uma cena que vale mil discursos. As autoridades chegaram, deram a maluca senhorinha como campeã da luta travada; multaram e passaram um pito público na companhia de ônibus, e lá se foi ela para meu arquivo emotivo. Foi aí que me lembrei de Rosa Parks, a negra empregada doméstica, também sessentona que, nos anos 50, na cidade de Montgomery, Estados Unidos, ao ouvir um passageiro branco mandando-a levantar, pois aquele era um lugar para brancos, simplesmente se recusou a sair, e a partir deste prosaico fato, a luta pelos direitos negros tomou força, veio Martin Luther King, e deu no que deu: a melhoria (ainda falta muito, mas melhorou) do tratamento igualitário entre todos os humanos.
E o que Rosa Parks, a louca de Goiânia e a maluquete socialite teriam em comum? Sessentonas e poderosas (será que sabiam que, sozinhas poderiam tanto?), são grandes mulheres que, do nada, num ato, conseguem nos dizer da grandeza da fraternidade, do respeito, e de como podemos ser surpreendentemente animadores, em simples gestos cotidianos. Ah, as mulheres são fenomenais e se reinventam, sempre, pois louras, morenas e negras, muitas tem um alerta que diz "agora!". Fora isto, quão fascinante é a nossa memória emotiva, não é mesmo? Vejam este caso: fui guardando a vida inteira fêmeas que me impressionaram, distantes entre si geográfica e culturalmente, até que a última me traz as anteriores, e triangulo o que sempre se impressionou, nelas. De Goiânia para o Aterro do Flamengo, pensando nestas duas surge a velha negra dizendo "não dou meu lugar para branco, nem para ninguém" e quero aplaudir todas tres. Um novelo que se re-enrola, que depois de décadas desenrolando faz o maior sentido: um fio dourado de três admiráveis mulheres fortes que, do nada, fizeram a diferença por seus solitários atos.
A chiqérrima do começo é a nascida no Thaiti (que coisa exótica, meu Deus) Marie Annick Mercier, mulher que fez do fato de ser rica de dinheiro um segundo plano, pois é rica de espírito ao extremo, parando seu carro e indo socorrer duas crianças presas nas cadeirinhas dentro de um carro capotado, das quais a mãe, ao volante, desmaiou na batida. Palhaça de si mesma, Marie, no gramado central das pistas, deve ter usado com os infantes a mesma estratégia que usou comigo, chamando-os de xuxuzinhos e distraindo-os. Mulheres podem ser encantadoras, podem ser tiranas, mas são sempre, maravilhosas. Percorrida a quilometragem dos cinquenta, então, são nitroglicerina pura. Gratíssimo pelo bom exemplo, por incentivarem a gente a continuar lutando por um planeta melhor, e na hora que a nave vier buscá-las desta para melhor, saibam que valeu a pena vossas vidas, porque vocês marcaram consciências.