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Milton Cunha

Terça-feira, 29 Setembro, 2009

O Macho deformado....


Contrariado, o macho deformado ameaça estuprar a vítima em praça pública, demonstrando seu raciocínio de que a violência poderá ser boa arma para valer seus objetivos. Nada de argumentar, apresentar saídas possíveis, nada disso: fazer sangrar é boa opção, ainda que no átimo de segundo da ira reveladora (depois descrito como "brincadeirinha"). Mas está tudo aí. Na semana da condenação do político da moto-serra, a soberba de quem manda e acha que os outros tem que obedecer sem questionar; a certeza de que, sob o olhar curioso e aprovador dos correligionários puxa-saco, é lícito penetrar à força um corpo discordante. Fazem com o povo, com as mulheres, com o Brasil. Por que não fariam com o "veado maconheiro que usa colete"? Estuprar é exercício de poder não autorizado, governar pode ser algo muito parecido, pois o bom senso e a regra democrática, a voz e a permissão do outro, não serão levados em conta. Um dos atos mais reveladores do senso comum que a modernidade Brasileira poderia produzir: em vez da coisa pública, a coisa privada, em público. Não é no campo das idéias, tudo é uma questão de orifício. E mais uma vez, quem penetra, manda; o que condena os penetrados ao simples papel de obedecedores de ordens. É assim com as mulheres, porque não seria com veados? E quando vem a nota de desculpas da assessoria, deparamos com mais pérolas totalitárias: "qualquer outra interpretação será inadequada". Risível, pois inadequado é um ocupante de cargo público materializar diante de uma Nação a lógica assassina de botar de quatro à força, e mandar vara em quem ousar ter outra opção, outro desejo, outra pulsão. Enfim, um deles assumiu toda a desgraça do preconceito, todo o sistema de raciocínio da intolerância: impalem os veados, detetizem a sociedade, arreganhem e humilhem a coisa diferente, doente, inferior. Não somos humanos, somos condição: todo negro é suspeito, toda gorda não é sexi, todo pobre é incompetente para gerir a própria vida, todo gay é inferior, todo índio é burro. Branco, católico, com saldo na conta bancária, diplomado em curso universitário, casado e com filhos, respeitador da propriedade, família e tradição: é chegada a hora do Elogio da Loucura.

São Luís do Paraitinga....


Estive costurando no coreto da praça Oswaldo Cruz, na pequenina cidade do interior de São Paulo, chamada São Luís do Paraitinga, ajudado pelas queridas mulheres locais, que querem participar pelo prazer da festa, em chita e fuxico. Recortando os estandartes, colorindo o local onde nasceu o grande sanitarista brasileiro. Pregando adereços, com o conservado casario centenário que circunda a praça, por testemunha do encantamento da vida caipira. Colando fitas e flores de crepon, vendo passar carros de boi e garbosos tropeiros rumo às roças. Este maior conjunto arquitetônico histórico Paulista, tombado, é uma estância turística, emoldurada por janelas lindas que vêem a vida lenta e gostosa passar. Onde a TV Bandeirantes gravou seu primeiro programa Musical Especial, sobre o Centenário de nascimento do mestre Eupídio dos Santos, autor de "Casinha Branca" e das trilhas dos filmes de Mazaroppi, estrelado por Fafá de Belém, Zeca Baleiro e Zé Renato, entre tantos. Terra de gente humilde, maravilhosa, fazendo o que de melhor os brasileiros têm: sendo generosos, fraternos. Do nada, surge um senhor, admirando as guirlandas do Divino, que elegi como peça principal do cenário, todo pesquisado na imagética local. Ele me diz: "sabia que o Divino tem sete cores, cada uma representando um dom?". Querendo ouvir mais, digo não, e ele, orgulhoso, enumera: azul é a sabedoria, prata o entendimento, verde o conselho, vermelho a fortaleza, amarelo a ciência, azul escuro a piedade e roxo, o temor de Deus". E desaparece na praça, pois cumpriu o destino de ser gente, de ser amigo, de ser orientador. O que mais se espera dos humanos? Deus salve os Jecas Tatus deste Brasil sertanejo, opulento de sabedoria e bem viver.

Ao mestre, com carinho....


Na fila para pagar o Buffet do almoço, em Copacabana, mortificado, avistei o velho mestre que tanta alegria nos deu. Indeciso no vou não vou, pois me avisaram que a doença degenerativa já o estava levando para longe de nós, ainda assim não resisti e, devagarzinho, cheguei do lado, dei um tchau demente, e ele me sorriu docemente como só quem não mais me reconhecesse faria. Onde foi parar a exclamação: "caríssimo do carnaval!", que ele sempre bradava ao me encontrar? Quando foi que o destino tão rapidamente levou o velho e amado mestre? Quanta inteligência, quanta libertação de pensamento, e quão finito, Deus meu, somos nós, humanos. Como pode alguém tão precioso, e cabedal tão gigantesco de cultura acumulada, simplesmente ruir como castelo de areia ao vento? Inconformado, retribuí o sorriso, e passando o cartão na máquina, chorei um pouquinho, abandonado ali pelo professor que tanto amei. Lágrimas de recordação do amor pela erudição e bem viver; mas agora sei que só devo amar as lembranças, e tentar ajudá-lo no que eu puder. Passa rápido, ele foi intenso demais, e celebro, de coração partido, a fila que anda e a catraca que roda. Maldito ônibus que não nos permite ficar por aqui para sempre, pois tanta inteligência, se nunca morresse, um dia iria desvendar o mistério de existir em nascimento, apogeu e glória, esperando a hora do apagão.

Bolinha e Luluzinha....


Os homens presidentes discutem finanças e os destinos do mundo. Suas mulheres, reunidas em fotos, visitam exposições e entendem que o discurso artístico é um discurso revolucionário. Clubes modernos de Bolinha e Luluzinha, ainda cabendo às mulheres o chá com frivolidades, agora mais cultas. Elas até entendem de bombas nucleares, programas de economia e matemáticas do aquecimento global, mas ainda ganham aparelhos de chá feitos à mão, e vão ao museu Andy Wharol. Uma hora isto vai ter fim; e nós, homens, poderemos enfim descansar e ir ao museu, enquanto elas administrarão melhor este globo terrestre, tão precisado de um pouco de sensibilidade mais intuitiva e menos pragmatismo.


Sexta-feira , 25 Setembro, 2009

O Outro Mundo...


"É um outro mundo, senhor", disse-me em tom sonhador, o porteiro nordestino, meio afrescalhado, do hotel da Faria Lima, naquela estanha cidade ao sul do país chamada São Paulo (adoro este definição de Mestre Xexeo). Naquele fascínio, o menino que provavelmente pegou o pau de arara como eu, e veio para o sul maravilha tentar a vida e escrever o próprio destino, traduzia todo o seu encantamento pelo consumo de luxo. Indicando o famosão, onde dizem que os "artistas" compram, numa qualificação cafona de doer, o rapaz tentava me preparar para a experiência única que eu viveria. Rodei, vi sapatos femininos cravejados de cristais que exibiam a plaqueta de preço cuja escrita era 12 mil reais; depois vi bonecos manequins na magnífica vitrine da Dolce e Gabbana, que são a cara do Alexandre Pires com aquela sobrancelha tirada no copo, gloss nos lábios e um pouco de pancake emoldurando o cavanhaque minuciosamente tratado, o que indica que este é o protótipo do metrosexual, homem que se enfeita tanto que parece mesmo manequim de vitrine. Vi uma coisas exageradas, misturadas, tipo paetê mais tricô, mais renda, mais superposições, numa composição que a carioca jamais usaria pois é um jeito meio texano, meio Dallas de exibir ou ostentar riqueza. Tem a loja da amiga da Hebe, que sempre apresenta desfiles no programa da loura, o que me indicou que Hebe é a mais perfeita tradução deste poder árvore de natal, que este outro mundo do porteiro querido é. Olhei Prada, Luis Vuitton, Armani, e pensei no salário do menino e da graça que talvez tenha, em você usar algo que custa o que aquele pobre mortal levará a vida toda para juntar. Isso deve dar uma sensação de exclusividade, de "eu consegui", que é trágico e expõe a miséria de nós, humanos. Mas o porteiro não sofria, ao contrário, ele vibrava com aquele outro mundo inatingível, mas que não o oprimia. Deve ser seu passeio favorito, grátis, observar o que ele nunca terá. Uma outra coisa que me chamou a atenção foi um casal gay de mãos dadas, cabelos repicados e azul, cheio de piercings, que chamavam a atenção não por serem gays ou estarem passeando juntinhos: eles eram estranhos seres e bem diferentes dos outros consumistas. No dia seguinte, um ladrão assaltou o tal outro mundo do porteiro, rasgando com a crueldade real aquele mundo fictício do qual se gabava ele. O que deve significar alguma coisa, tipo não existem outros mundos, pois estes serão sempre invadidos pela incontrolável fúria da vida. Milionário que morre de câncer, e vai feder como todos os pobrezinhos paraíbas que construíram suas mansões. O paradoxo parece não imobilizar os pobrezinhos, ao contrário, os impulsiona a tentar ser um em um milhãos que conseguirá ascender socialmente e sentir este gostinho de pisar em algo tão caro.


Terça-feira, 15 Setembro, 2009

Samba na veia!


Durante uma aula da querida mestra Beatriz Resende, diretora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, perguntei-lhe, depois que ela traçou um panorama sombrio e pessimista das perspectivas da cultura carioca, de onde ela achava que viria alguma solução em médio prazo. Ela me respondeu que talvez dos artistas, e da capacidade deles se articularem e sensibilizar a população, e cobrar dos dirigentes. Ela falou também que achava que pessoas como eu, um carnavalesco fazendo o doutorado, pudessem trazer um sopro de frescor à inteligência constituída e ao cânone. Passou, mas registrei a dica. Este domingo, estava eu fazendo a maquete de um cenário para a Band, quando fui impactado, atravessado mesmo sem querer, por um sambista que na rádio FM cantava algo mais ou menos assim: "somos carentes mas não somos idiotas, se algum candidato ladrão vier pedir voto vai levar um pau, etc. e tal". De imediato eu adorei, achei claro, direto, fácil e então, voltou na memória a resposta da doutora, e o mundo se revelou em clareza quanto à capacidade artística de não pedir licença e sair matando a pau dentro da gente. Larguei a tarefa e fui prá cima do rádio gravar no celular o que restava da canção. Depois foi pro Google, digitei o título Comunidade Carente, vieram os autores, Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Mauro Diniz, vieram as gravações, uma do Deus Zeca Pagodinho e outra do Leandro Sapucahy e as frases basilares do malandro popular: "Nós somos carentes, não somos otários/pra ouvir blá-blá-blá em cada eleição/Nós já preparamos vara de marmelo e arame farpado/Cipó camarão para dar no safado". Oh Glória, nada pode ser mais típico da pilantragem maravilhosa destes artesãos da sabedoria popular. Primeiro que se chamar Barbeirinho do Jacarezinho não é prá qualquer um; segundo que cipó camarão é o que há em termos de coça bem dada, não sei, nunca vi, mas é di-vi-no (viva o cipó camarão!); e terceiro é que tudo isso me levou até a frase do advogado do Palocci que, defendendo o colarinho branco, soltou a seguinte pérola sobre o caseiro Francenildo que peitou o poder e, mais fraco, viu a corda arrebentar pro seu lado: "Singelo, quase indigente"- assim o advogado de defesa de Antonio Palocci se referiu ao caseiro Francenildo, perante o Supremo Tribunal Federal. Guardei a qualificação indignado, e agora completo: doutor, nós somos indigentes, quase singelos, mas não somos otários não. Um dia a casa cai.
Fui ver o Musical "É samba na veia, é Candeia!", que reestreou pela milésima vez em um teatro da cidade. Desta vez era no querido Teatro Rival, em temporada relâmpago. Amei a simplicidade, alegria e força da encenação, despretensiosa e cheia de qualidades. Entre elas, a carpintaria do texto, que mistura as fases da vida, explodindo a linearidade biográfica. Fica emocionante e ágil. Fora isto, o que significa dizer que vocês dever ir correndo ver a milésima e uma reestréia de tão pungente espetáculo, como era brabo o Candeia, minha Nossa! Cada discurso inflamado sobre negritude, samba de raiz e.... escola de samba. Ui! Foiu aí que o bicho (ou a bicha, sei lá!) pegou: convidado de Kassu, sentei no gargarejo, quase no colo do Candeia. Iluminado pela luz que sobrava da ribalta e me iluminava, fui concordando com algumas coisas que candeia bradava, como o horror que ele tinha a gente bêbada em cima de carro alegórico, ou gente famosa que usurpa o lugar das passistas da comunidade. Só que aí a platéia, animada e participativa, começou a ecoar o texto do ator, e algumas pessoas até falar alto comigo: "é isso aí Milton Cunha, não pode ser do jeito que está, tem que voltar a ser como antes". Confesso que me perguntei se eu iria apanhar ali mesmo ou se a saia-justa ficaria só daquele tamanho. De qualquer forma, um dos atores me ajudou, falou meu nome e pediu aplausos, e eu suspirei aliviado pois não seria daquela vez que eu seria crucificado em praça pública. Fica prá próxima. Acho que não dá para voltar no tempo e ser como no tempo do Candeia. Mas acho que dá para nós, sambistas de hoje, lutarmos pelo respeito e dignidade das comunidades. E adorei ficar sabendo que a filha do Candeia está reativando a Escola de Samba Quilombo, fundada por seu memorável pai. Quando eu souber dos ensaios aviso, e deus salve a negritude!
Ainda no mundo do samba, que como vocês estão vendo é a grande estrela da coluna de hoje, aproveito o anúncio de que a poderosa, a divina, a gloriosa salve, salve, Elza Deusa Soares, será a madrinha de Bateria da grande Mocidade Independente de Padre Miguel. Que decisão mais acertada, meu Deus do Paulo Viana, do Cida Carvalho e de todos: além de um pedaço de bom caminho, a Black é puro glamour e tem lastro emocional com a Vila Vintém. A bela Tatiana Pagung deve estar se sentindo toda prosa, pois, do alto de sua beleza física e juventude, com certeza, a perspicácia desta rainha sabe que quando a sirene tocar e o portão abrir, todos, absolutamente todos os sambistas estarão aplaudindo a grande dama. Nua ou vestida, ser Elza Soares já basta para reinar em nossos corações! Elza é o impávido colosso do hino nacional Brasileiro!


Terça-feira, 8 Setembro, 2009

Cabo Frio com muita farofa.....


"Não se preocupe, todos adoram sentar na banana do He-Man, e ainda pagam por isso". Foi o que me respondeu a simpática louruda, nas cintilantes areias da praia do Forte, quando eu lhe disse, baixinho, que estava morrendo de vergonha de andar na banana. "Vista este colete GG, e vá sentir o que a banana tem". Investido pelo espírito de She-Ra, eu, a visão do inferno (pois além do pneu que carrego naturalmente abaixo da cintura, ainda botei a boia sobressalente), quicando nas águas turquesas de Cabo-Frio, e só aí entendendo as complicações engraçadíssimas do Castelo de Gracekull (ui!): muita água respingando na cara, as pernas arreganhadas que nem um girino, e quando a lancha guia avisa que vai virar, meu amor, vira e todos os embananados, sem elegância, sem tempo de fazer pose, são arremessados ao oceano delicioso. Depois, todos nós arreganhados e desengonçados, tentando subir de volta, e talvez seja esta a praga do vilão Esqueleto. Nota mil, vale um ano de terapia. E quem reclama da farofa, relaxa criatura, aquela gente feliz empanada na areia, tomando cervejinha e comendo salsichão é tão feliz quanto a canga Saint-Laurent que passa ao lado, e depois vai tomar vinho caríssimo. É que felicidade é uma questão de ponto de vista, e Deus salve as diferenças: uns sonham com as bananas dos resortes do Caribe, e outros, acham a maior graça na banana tupiniquim.
Vim a convite da fervilhante Secretaria de Cultura, ver o Festival de Curta Metragem, o Festival Nacional e da Dança, e a Parada gay, ufa!. Um balneário que bomba, para todos os gostos, bem ao feitio da indústria cultural da pós modernidade: grupo de Dança Portuguesa, festival do camarão, gente colorida com plumas e paetês e garotões musculosos: tudo produto a ser consumido vorazmente pelos amantes de cada espaço. E como "gente em primeiro lugar" é o slogan municipal, um mundo de diversidade é o leque democrático, proposto por esta terra que é a do pau Brasil.
Na abertura do "Curta Cabo-Frio", o apresentador anunciou a execução do Hino Nacional Brasileiro. A pesada cortina de veludo preto do Teatro Municipal do balneário abriu, e revelou um grupo de adolescentes negros, estudantes do projeto Tambores Urbanos. Os acordes de uma guitarra elétrica puxaram o "ouviram do Ipiranga", o batuque ensurdecedor e energético da percussão subiu, e ficamos todos emocionados. Estávamos defronte de algo que, sempre careta e batido, ouvido mil vezes no automático, desta feita estava numa roupagem patriótica do esforço de uma ONG, tentando dar direção a vidas sem norte, abandonadas pelo destino, que responde também pelo nome de Poder Público. Que bonito, e que bom que pessoas espantaram o bolor e sacudiram a poeira, tentando sair do três por quatro em que se transformou este protocolo oficial, um cerimonial na maioria das vezes do "não pode", "não deve". Só que no meio da execução, uma mãe trouxe para a ribalta um minúsculo menino com duas baquetas na mão. Pequenino, do colo da mãe ele foi até um tamborzinho que estava abandonado na frente do palco. Quando a criança ia começar a batucar, uma barata, grande e faceira, surgiu no imaculado e lustroso chão de tábuas corridas do limpíssimo teatro. Hipnotizada, a criança fitou profundamente o inseto, e foi aí, que em meus devaneios de memória, larguei a Cabo Frio de hoje e retornei ao Calabouço, fétida boate gay de minha Belém do Pará dos anos setenta, quando uma trilogia parecida (um palco, um artista na luz mágica, e um rato atravessando a cena) colou em minha retina para nunca mais sair.
A estrela do indigente show era uma travesti mulata de beiços de chulapa, com estômago dilatado, mas que, sentindo-se linda, pintava de sombra azul cintilante a pálpebra que nunca acabava, pois a sobrancelha era altíssima, tirada no copo. Como se sentia parecida com Liza Minelli em Cabaret, fazia-se acompanhar de cartola e bengala. Era um espanto, um horror. Mas nós, púberes, amávamos sua coragem, seu desprendimento, seu pioneirismo. E naquela noite, quando ela começou a jogar a perna no "it's up to you, New York, New York", a ratazana passou-lhe entre as pernas de meia arrastão preta, saindo do shortinho de cetim preto. De tão sórdida configuração, quando ela parou e, apavorada arregalou os olhos, tentando atingir o roedor com a bengala glamourosa da Hollywood amazônica, à platéia só restou explodir em gargalhada e aplausos consagradores. Lixo da existência que voltou trinta anos depois nestas terras do pau-brasil que Cabo Frio é.

Passa muito rápida a vida, é só um flash, que às vezes nem dá para se preparar para ficar bem na foto. Vamos nos dar as mãos, vamos viver e deixar os outros serem do jeito que quiserem. Tem lugar prá todo mundo, ratos e baratas incluídos, pois estamos no palco, nesta cena que Deus nos deu. Façamos o melhor e amemos nossos semelhantes, repeitando-os e sabendo-nos diferentes. Um mundo plural, engraçado se trágico não fosse. É como disse Lamatine: Yes, nós temos bananas, bananas prá dar e vender, banana menina, tem vitamina, banana engorda e faz crescer.


Terça-feira, 1 Setembro, 2009

Abacaxi!


"Oi, você que é a mulher abacaxi?", perguntou a querida Zezé Motta, do alto do trio elétrico da Parada Gay de Nova Iguaçu, para a bonita moça que estava ao seu lado. "Não, eu sou atriz da Record!". Breve saia justa, a moça saiu dançando prá lá, e eu completei: "pô Zezé, a mulher Abacaxi que tá sendo anunciada, é uma drag que sacaneia as mulheres frutas. É abacaxi porque é muito ruim, tipo troféu-abacaxi do Chacrinha, um horror, aliás, como as outras saladas de fruta". "Ih, será que ela ficou com raiva de mim?". "Que nada, relaxa que tá vindo aí a mulher-banana!". Imaginem, claro, de que banana se tratava, sendo mais uma bicha debochando desta fama instantânea que a mídia-pomar dá a estas moças. O bom da estética gay popular é que tudo cabe neste balaio de gato que é sacanear. Fora isto, as paradas gays deixaram de ser gay, pois é tal o número de famílias e heteros que freqüentam, sabendo que aquilo ali é uma rave animadíssima, que enfim estamos chegando num ponto de celebração misturada que aponta para um futuro de diversidade ideal, onde cada um será o que quiser ser, e o beijo na boca poderá ser dado entre qualquer dupla que estará tudo certo. E a companhia da deusa Zezé Motta é auxílio luxuoso para qualquer parada: ela mesma conta no corpo e na cor de pele a luta por dias melhores, a batalha da sobrevivência numa realidade injusta e a glória de ter orgulho das próprias características e de ter conseguido catapultar a negritude a condição de símbolo sexual num país mulato. Salve sempre a deusa, e eterna, Xica da Silva!

Ele e ela!


Era uma vez a Chapeuzinho Vermelho, que tendo aspirações políticas, botou uma estrela na testa e deixou a barba crescer. Corajosa, encheu o cesto de propostas suculentas, e partiu pela estrada afora, sozinha, saltitando e cantando lulalá para os cidadãos da floresta perigosa. Sabendo que não poderia atravessar a mata escura sem a ajuda de todos (absolutamente todos) os caçadores que se escondiam atrás das moitas, pactuou com homens armados de conduta suspeita, desde ex-presidentes bigodudos, até líderes de mansalões. Desta forma, enfim Chapeuzinho conseguiu alcançar seu objetivo: chegar na casa da vovó tão amada, chamada Sucessão. Ao ver a velha na cama, estranhou-lhe a face, que agora estava mais para um lobo, voraz de longevidade no poder a qualquer custo; uma cara deformada e esquisita, onde nada restara da outrora candura e paz na expressão de vovozinha querida. Susto incial superado, Chapeuzinho enfim percebeu, que ela mesmo era, a vovó/lobo que ali vivia.


Agnaldo Timóteo foi execrado pelos ouvintes do Roberto Canázio, ao defender Sarney, dizendo que nada foi provado contra El bigodón. Como bem disseram os indignados, nada, nunca, fica provado contra os de colarinho branco. Tudo se prova contra pobre, mas os de Brasília saem sempre ilesos. Timóteo, não contente, disparou: "vocês são uns tele-guiados que não pensam por si só: ouvem as denúncias e sequer esperam o julgamento para decidir....". Claro que dá raiva, mas é engraçado ver a cara-de-pau do Agnaldo enfrentado a ira da população. Uma voz solitária, no mínimo ingênua e no máximo compactuante, no meio da multidão revoltada.