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| Milton Cunha |
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 Encher o carrinho de supermercado de compras e guloseimas sempre foi um símbolo da fartura capitalista. Se tiver por cima com biscoitos finos, champagne e vasinho com orquídea, típicas destes modernos hipermercados, aí fica um luxo. Compras da semana, mantimentos do mês. Bem alimentados por um tempo duradouro, eis o fascínio do carrinho de compras. Mas fui surpreendido há uns anos atrás, acho que quase dez, com a notícia de que um pai desesperado, vendo seu filho adolescente morto ou baleado numa destas trocas de tiros que já não nos causam espanto, no alto da favela, e não podendo o rabecão ou a ambulância do SUS subir, pois as pessoas destes veículos morrem de medo, ao pai, numa última tentativa, só restou botar o corpo do magricelo rapaz no carrinho de supermercado e descer com o desacordado. Fiquei chocado com a imagem, dilacerado pela míseras condições destas comunidades e as pouquíssimas chances de resgate. Agora a foto do corpo abandonado no carrinho, no pé do morro, me fazendo associar o que só era símbolo de benesse à situação de desgraça. Parece que carrinho de supermercado é um hit da comunidade, para o bem e para o mal. Em vez de mantimentos, corpos. Como sou muito chegado à uma culpa e uma reflexão, pego o carrinho e percorro gôndolas de minha consciência, matutando qual será a saída para a cidade que, ladeira a baixo, vê bandidos e mocinhos seres trucidados ao lado, e todos agem naturalmente, como se carrinho de supermercado não fosse única e exclusivamente para transportar compras. --------------------------------------------------------------------------------------------------- O magricelo se apaixona, cheio de tesão, pela rolha de poço. Mais que isso, ama-a por ela não ser nada parecida com a ex dele, uma gostosa tipo palito, linda e mandona. Transam, vivem bem, mas o cara meio que sempre se esconde da galera em público, talvez até para proteger a gorda da crueldade dos amigos. Mas nada que acontece no palco, grosserias incluídas no texto, está distante da realidade. As pessoas são capazes de atrocidades inimagináveis, e não pegam leve quando não conseguem entender o tesão do outro. Quase no final da peça, a psicologia de botequim do personagem amigo do cara que se apaixona pela obesa, diz: "nós, normais, temos medo dos gordos, velhos, gays, pretos e índios. Nós sabemos que eles são prova viva da catástrofe genética que em um segundo pode acontecer com qualquer um de nós". Portanto eu, catástrofe genética, afirmo que catástrofe mesmo são tais machões que, considerando-se normais (este personagem da peça, aliás, é bem feinho, bem caidinho) só olham para os outros e não tem espelho em casa. Aliás, já pensaram como é confortável ser este macho que não precisa ser nada, nem bonito, nem atlético, nem nada, mas só pelo fato de ser macho, ainda que um animal, é considerado normal? Enquanto as mulheres tem que fazer dieta, estudar, ser mãe, cuidar da casa e ainda ser linda ou deusa do sexo, para eles basta existir para terem sucesso garantido. "Gorda", em cartaz no Shopping da Gávea, é um texto bacana sobre as impossibilidades de quebrar preconceitos e aceitar as pessoas como elas são. Você até ri, mas vai amarrar a cara no final, vai sair do teatro com um gosto amargo na boca. A cena final, terror dos gordos, é na areia da praia, com Fabiana Carla, maravilhosa, de maiô, ao lado de seu companheiro, um cara apaixonante que banca a situação de estar ficando com uma gorda mas, cansado, vai ali, entregar os pontos. O grande personagem da trama, o de mais empatia, vai fracassar. Isto é o bom da proposta da montagem: a gorda está satisfeita como é, mas por ele, não tendo feito isto nem pelo pai nem pela mãe, por ele, ela se submeteria até a uma operação bariátrica, porque pelo amor que ela sente, ela faria qualquer coisa. Mas isto não basta, e não interessa eu estar contando o fim da trama, porque só indo ver, para estar diante da Michel Bercovitch para presenciar a grandeza de um ator. E olha que roubar a cena da Fabiana é dificílimo porque ela é a tal, no momento certo no papel ideal. Mas quando Michel puxa para si a cena e, chorando diz em enorme texto que vai deixá-la, cortem os pulsos porque ali está o que de melhor podemos esperar destes seres do palco: a absoluta entrega ao ofício de interpretar outras vidas. ------------------------------------------------------------------------------------------ Desde criança, ir ao cinema era ato de liturgia artística, pois tínhamos que andar muito até chegar aos 3 únicos cinemas, da Belém do Pará dos anos 70. Só podíamos fazer isto um vez por semana, e a comoção era total. Nos vestíamos e penteávamos o cabelo para "ir ao cinema", quase um parto. Depois fui ficando sozinho nesta paixão e só restou eu, dos quatro irmãos, a seguir para aquela missa solene, aquele ato de elevação da alma. Sentado na poltrona, concentradíssimo, eu vivi através da tela as grandes emoções da vida que um dia chegaria para mim também. Só que o cinema foi se popularizando, a tecnologia foi tornando poeira o ato outrora tão emblemático, e eis que não fico mais ereto, pescoço duro, assistindo a projeção. Agora me vendem lugar deitado em espreguiçadeira, onde assisto ao filme estirado em confortabilíssima quase cama, e olho para cima e o filme de Tarantino me emociona e assusta. Som e imagem de primeira, tudo certo, mas não é mais respeitoso como antigamente. Mas não tem problema: preciso me acostumar ao conforto, pois isto não significa a qualidade da sétima arte. Mas tomara que pare por aí, ou eles vão fazer nevar e chover entro das salas quando as cenas assim retratarem? Vão distribuir pantufas e cobertores? Definitivamente, eu sou de um outro tempo, o que não implica dizer que não é gostoso estar neste aqui. -------------------------------------------------------------------------------------------- Querendo ir ao Fashion Rocks, descobri que o ingresso custava a bagatela de 1.100 reais. Que para mim são irreais, pois a mensalidade da faculdade custa 400, e eu não tenho coragem de dar tanto para ver a Mariah Carey ou a roupa do Marc Jacobs. Eu achava que era caro, claro. Mas para mim caro é um ingresso de 500, pois a mei, sendo cara, sairia para um estudante de moda por 250. Não é o ingresso que é caro, nós é que semos pobres.
O Clássico e o popular.... Beijos, me liga....


Fichas de 1917 e 1939....

Eles, Doutor Pinel; elas, os signos de Bispo do Rosário.....


Alas do Terceiro Setor, os males da psiquiatria....


Médicos e loucos da Cubango!


 Pedro II em 1842, ano da assinatura do descreto mandando construir o Hospício.
 Segundo Zito, o prefeito antipático, Caxias não tem veado e sapatão em número suficiente para fazer uma parada gay como a que fazia, todos os anos, sempre um mar de gente. Também acho. Por isso é que todos nós, de fora, vamos visitar a cidade querida, que não pode nunca ser confundida com seu alcaide. Deveria ser característica da municipalidade ser hospitaleira e gostar de visitas e turistas. Caxias é assim, seu prefeito, não. Além disso, conforme já comentei aqui, o número de heteros em família que vão olhar o show e dançar e se divertir é bem grande. De Caxias e fora dela. Zito também declarou que não gosta de ver homem com homem se beijando, ao seu lado. Zito, amado, os incomodados que se mudem, desculpe a franqueza. Se heteros podem, nós também podemos, e ponto final. Vai dizer que o beijo de vocês é melhor que o nosso? Tudo saliva do mesmo saco (ui!). Engraçado o carinho e o amor te incomodarem. Em vez de porrada, beijos. Em vez de tiros, carinhos. Em vez de bandidos, bonecas. Mas, sinceramente, acho que Zito têm o direito de pensar assim, em foro íntimo. O que pega é que ele é prefeito, a deveria administrar para todos, gays incluídos. De resto, é bom enfrentar inimigo declarado. Pior são os dissimulados. Do alto do trio elétrico, na Parada Gay de Niterói, vi a faixa aberta nas árvores onde estava escrito: "a família de Icaraí odeia a população LGBT". Portanto, ódio latente e declarado, o que nos dá mais incentivo para continuar. Que bom que eles estão saindo da toca e se declarando. É um sair do armário que o nosso armário está promovendo. Nós nos assumimos gays e eles assumem que nos odeiam, que não nos querem ao lado, que devemos continuar fingindo, como muitos deles. E toda esta perseguição nos dá o tom do limite, que nós gays, devemos vigiar. Nosso direito começa onde termina o do outro, respeito é bom e nós gostamos. Se eles podem, nós também podemos. Sem nos tornar ilegais, isto sempre posto. Zito, proíbe a fórmula um em Caxias, porque na comemoração, como você viu, os heteros exibiram a bela bunda do Rubinho.
 Eu era um jovem, recém chegado de pau de arara de Belém do Pará, e deixei de comer para juntar dinheiro para comprar um ingresso das Lágrimas Amargas de Petra Von Kant. Diziam que era a glória do século, que La Montenegro estava inesquecível, etc e tal. Mas nada se compara, mesmo que você se prepare, a ouvir as entonações de Fernanda, ao vivo. Petra chamava a empregada: Marlene, Marlene... Pois este Marlene ecoa até hoje em minha memória. Aplausos para a profissional, mais que competente, divina. Mas, garoto cheio de sonhos, eu burlei a segurança do Teatro dos 4 e fui me esgueirando até os camarins, quando dei de cara com ela. E ali já estava a Arlete, que olhando no fundo de meus olhos, disse "olá". "Oi, Dona Fernanda, eu lhe trouxe o meu livro, é uma peça de teatro". "Que bom, um jovem autor dos palcos. Vou ler com carinho, adoro textos novos". Me despedi e flutuei pelo shopping da Gávea. No ônibos, voltando para a vaga onde eu morava, em Copacabana, eu disse para mim mesmo: "mesmo as pessoas que andam de ônibus são bem tratadas por ela". Aplausos para a mulher, mais que humana, divina. Assim não dá, Fernandona, aos 80 você é a mais gostosa do Brasil.
 Eu já não era tão jovem, e fui convidado pelo Junior, do Afro Reggae, para conhecer as fundações do Centro Cultural Wally Salomão, no coração de Vigário Geral. "O Evandro vai ser teu cicerone, é o melhor". Estacionei num posto de gasolina, Evandro me encontrou, atravessamos a passarela em cima da linha do Trem e pumba, um outro mundo se descortinou: casas cujas paredes, cravadas de balas, atestavam a violência da região. Meninos traficantes passavam, em motos, pelas ruelas, armados. Como eu estava com ele, não me incomodavam. "O que é um mediador de conflito?". Evandro me disse: "Da guerra pelo domínio da favela até guerra conjugal. Milton, tem de tudo, desde a negociação com os bandos rivais, até marido que espanca a mulher". "Deus, você nada em caldeirão, apaziguando ondas quentíssimas". Pois Evandro, o maravilhoso, foi assassinado no centro, sábado. Uma bala no abdomem, conflito que ele não pode mediar, e seu algoz, na tarde chuvosa, desconhecendo que estava jogando na calçada molhada um anjo que sempre abriu as asas sobre ele mesmo, o assassino. Um conflito irremediável, que desejava possuir o tênis, o celular e carteira, do santo anjo do Senhor. Foi uma honra ter te conhecido e, dilacerado, acredito que temos que continuar seu trabalho de mediação. É a esperança que nos resta, na cidade que começa a derrubar helicópteros. Já vai longe a baladeira e o passarinho.
 Viva Eduardo Suplicy que embarcou na doideira de Sabrina Sato. Viva, porque ele tem bom humor e sabe que aquela brincadeira é tontice de brasileiro. Fora isso, é um homem interessante e honrado, trabalhador e de bom senso. Pior são os que não pagam mico, e na hora do vamos ver, são os maiores safados. Seu Suplicy, o senhor é meu herói, o nosso Macunaíma.
 Proponho que a turma do Premio Nobel crie a categoria "Nobel de O Cara", para que Lula possa ganhá-lo. Se Obama pode, numa categoria elástica como a "da Paz", o nosso também pode! Nem que para isto inaugure-se o mundo; pois, nunca, antes, na história deste país.... o resto vocês já sabem. Fora isto, proponho que os travestis que fazem parte do Conselho Estadual dos direitos da população LGBT do Rio não mais me enlouqueçam, pois na última reunião, que também foi a primeira, semana passada, eu não entendi o texto que fazia referência à identidade de gênero e orientação sexual. Foi aí que Majorie Machi, da Associação dos Trangeneros me explicou rapidinho que ela, por exemplo, só tinha identidade de gênero feminino, pois suas formas eram de mulher, mas que ela era heterossexual, gostava de mulheres. Fiz cara de inteligente, de que nada me surpreendia, e com expressão de paisagem raciocinei rápido: nascida menino, transformou-se em mulher, não por amar homens, mas por querer mulheres que a queiram. Tudo muito simples, rápido. Quase um nó triplo em meus lóbulos, mas a vida é assim mesmo. Chegará o dia em que heteros e gays serão bobagens pré-históricas, com as pessoas libertas de qualquer catalogação poderão ser o que nasceram para ser, ou seja, loucas como a própria pulsão sexual, que não se acorrenta a nenhuma lei fora do próprio corpo que a sente. Acho também que a turma do Nobel precisa criar a categoria "Nobel de Admirável Mundo Novo", pois quando achamos que já vimos de tudo, ainda nem começou. No grande debate sobre o acordo Brasil-Vaticano, o representante da Igreja Católica, declarando-se a favor do Estado Laico, e denominando as religiões de confissões, encerra seu texto escrevendo que "a vocação evangelizadora dos Católicos é a ordem de Cristo para que eles levem vida em plenitude a todos os povos". Se eu entendi bem, vida plena é prerrogativa de quem dança conforme esta música, é isso? Indico este para a categoria do "Nobel em Morde e Assopra". Nós, que não vivemos tais dogmas ou tais universos, não temos vida plena, é isso? Muito estranha esta crença em vida plena, em vida total, em vida vivida de maneira totalizante, pois temos que nos adaptar a tais critérios. Mais ou menos eles querem dizer que a humanidade precisa ter vida religiosa para viver a plenitude. E a religião que deve ser escolhida é esta que recebeu a ordem de Cristo. Corpo e mente, matéria e espírito, salvadores e salvados, vida terrena e vida no paraíso, sacou? É este discurso totalizante que me assusta e me afasta. Tenho vida plena em minha generosidade, em minha fraternidade e em meu respeito absoluto ao meu semelhante. Isto tudo com bom humor, claro. E não preciso de dogmas para ter vida plena. Daí a vida pizza, toda recortada em fatias, da qual nos fala o representante das religiões indígenas. Sem dúvida, o mundo é recortado, fatiado, e quem vier com discurso totalizante, está por fora, pois vida plena só poderá ser num discurso humanista, e não religioso. Uns já estariam condenados de antemão a não viver em plenitude. Muito ruim. Não sugiro a criação da categoria "Nobel da Mamata" porque vai ter brasilidades se engalfinhando pela premiação. Mas esta é muito boa: recebendo milhões do Ministério do Esporte, mas sendo entidade privada, o COB não abre licitação para uso da verba pública. Isto é ma-ra-vi-lho-so. Então como é que o Governo Federal aprova e libera? Risível. E o intelectual americano declara que os jogos não podem servir para o enriquecimento de uma elite. Chamar de elite esta gentalha é o cúmulo da contradição, né não? Elite de quê? De morar em melhores casas? De ter mais alta conta bancária? Elite de roubalheira? Pode até ser. Mas haverá um elite de humanidade na qual estes larápios não passarão nem perto. Que bom que o Rio terá duas novas oportunidades de vaiar em uníssono, de novo, a Elite deste país. O que será o Chiclete de Amarração que o pai de santo oferece em seu anúncio coloridíssimo do jornal? Aliás, o que é o próprio anúncio, recheado de temas que dariam mil colunas de jornal? Vamos por parte: maquiadíssimo, de sobrancelhas tiradésimas, olhar de gatinho em mormaço, biquinho em gloss, turbante combinando com a túnica, totalmente fashion, a criatura propagandeia sua goma de mascar, que não sei se é para ser mascada pelo próprio pedinte, pelo que é desejado, ou se é para ser grudado entre os corpos durante o coito (ui!). Será que é aquilo de passar o chiclete de uma boca para a outra, já mascado? Cruzes! Seja qual for a tática, não é nada romântica, porque todo mundo associa chiclete à coisa passageira, rápida, descartável. Sugiro a "azeitona da amarração", pois acho chique num Martini, a desejante oferecer do próprio drink, em palito sensual, a iguaria alcoolizada. Se a verdinha não amarrar, enche o pobre de Martini que, no décimo, ele vai te querer com certeza. Fora isto, a promessa de que traz a pessoa amada de qualquer parte do mundo em cinco horas. Como, se nem a mais veloz das naves chega de Paris, no Rio, neste tempo? E se o desejado morar em Tóquio, como fazemos? Será aquele teletransporte, ou só uma ligação já vale? Ah, já sei, reatam pela internet e tudo bem. Por falar em tecnologia, o Pai anuncia que faz trabalhos na presença do pedinte ou por telefone. A glória do descarrego por um fio. Quer de tones ou pulses? O preço do ebó é propagado, mas atenção, logo abaixo, entre parênteses, está o "fora o material", para que a defesa do consumidor não implique. Modernidade das modernidades, tem prazo de vencimento a promoção dos trabalhos. Será que meu amado Exu ta sabendo que depois do dia 17 vira a tabela? Sugiro a criação do "Nobel da Tecno-macumba".
 Com o aparecimento esta semana, do mais perfeito ser que mistura macaco com humano, não sendo nenhum dos dois e sendo os dois ao mesmo tempo, como anda a velha discussão de se viemos ou não do macaco? Fascinante, a reconstituição do corpo peludo, mas já bípede, não mais se apoiando nas 4 patas, com focinho de chipanzé e olhar de homem, a imagem causa estranheza e reflexão. Só que junto com esta descoberta, veio também a notícia de que os cientistas acreditam que, com o alargamento do cérebro, a 1 milhão de anos atrás, a fêmea pôde carregar seu bebê no colo e não mais nas costas, pois já não usava as patas da frente para se equilibrar, e que por causa disto precisaria de um terceiro homem para proteger os dois, dos perigos do mundo. Os doutores concluem que este é o surgimento do amor, palavra que eles usam para designar as substâncias químicas que fazem um ser se aproximar do outro, o que leva à procriação e à preservação da espécie. Dizem que esta química leva milhares de anos para se aperfeiçoar, e que portanto ela não poderia ser recente, é velhíssima. Mais uma vez a maluquice de confundir tesão e necessidade de companhia com a palavra amor. Até acredito que instinto de sobrevivência e enfrentamento do medo, podem desencadear processos químicos que te fazem engolir uma companhia para melhor viver. Também acredito que, no atraso, o tesão é processo químico que te faz traçar até o inimaginável. O errado é denominar isto de amor, que não poderá jamais ser reduzido à simples necessidade de proteção ou de perpetuação da espécie. Isto é puramente animal, pequeno, pouco, ainda que eu não acredite que seja só isso, também, nos animais. Estas coisas podem até estar incluídas, mas não são determinantes para a existência do amor. Protegidos e seguros amam. Quem não quer procriar, ama. Mas todos fazem sexo e possuem instinto de sobrevivência, também. Acabo pensando que esta explicação do amor serve para uma ideologia específica, uma visão de mundo. Na realidade em que vivo, a química do amor é outra, mais complicada e diversa, o que não invalida a macaca do milhão de anos olhando pro homem-macaco e realmente se apaixonando por ele, ainda que outro troglodita mais parrudo e bonitão estivesse por ali, oferecendo proteção e sexo. A gente se apaixona por cada macaco que a química não dá conta de explicar.
 O dilema do ano é o evangélico doido por acarajé, que não pode saboreá-lo em praça pública, pois a demonização dos credos associa a iguaria aos "endiabrados" deuses negros Xangô e Yansã. Mesmo com a boca salivando de desejo, o pobre não pode se deliciar. Quem mandou viver num país onde a contribuição negra é determinante em todas as áreas, nos fazendo sonhar, ainda que não queiramos, com Ylu-ayê? Quem mandou viver numa modernidade excludente, onde o fundamentalismo e a intransigência de certas religiões arrancam de um povo seu passado, seu inconsciente coletivo? Há anos atrás, estava eu numa rua do Pelourinho, quando o belíssimo tição se aproximou e me entregou o panfleto religioso, bradando palavras de ordem sobre salvação. Imediatamente virei para o sujeito e disparei: "sabia que este Deus trouxe seu avô acorrentado nos porões dos navios negreiros, dizendo que vocês negros não tinham alma, que precisavam ser salvos e escravizados?". Um segundo de silêncio, ele me olhou com pena, como se estivesse diante de um belzebu e partiu. É preciso que a população brasileira, negros incluidíssimos, tenham acesso à informação de como vieram parar aqui e, fora isto, acesso à construção de auto-estima por ser negro ou descendente de negro, sabedores de toda glória e capacidade do ancestral africano. Mas a lavagem cerebral é tão forte, e a negação da própria constituição também, que até o magnífico acarajé, irresistível, é motivo de celeuma. Invoco os raios e tempestades que marcam o encontro dos dois belos Deuses no infinito, para varrerem da terra tanto desamor e iniqüidade. Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor Deus, se é possível um país emprestar sua bandeira para encobrir tanta injustiça?
 No suntuoso espaço do exército brasileiro, que nasceu nobre por ser a pedra que separa a praia de Copacabana da de Ipanema, ergue-se o bacanérrimo Circo Roda Brasil, programaço para todas as idades que só fica esta semana por aqui, até o dia das crianças, com o encantador espetáculo Oceano. Quanto lirismo e quanto encantamento reunidos neste circo moderno, quando numero com animais não são mais politicamente corretos. Saíram os animais e a sequência de números tradicionais que não tinham relação um com o outro, e entrou o enredo, o teatro, que faz malabaristas, trapezistas e palhaços todos rodarem em volta de um mesmo tema, neste caso, o fundo do mar e seus habitantes. Corram pra ver.
 "Os homens não vêem a mulher a partir delas mesmas, os homens vêem as mulheres numa perspectiva de homem, portanto, a masculinização da mulher é sacada para escapar desta armadilha, guardando-se a feminilidade em algum recôndito lugar da alma. Eles nos tomam como o outro". Sentada no meio da cena, a Divina Montenegro, em visual masculinizado, vive Beauvoir em forma plena. Fala baixo, é precisa, olha no olho, e nos conta uma vida. Muda, sem quase respirar em respeito ao animal teatral, a platéia acompanha cada silêncio. Momento inesquecível, a atriz sentada o tempo inteiro, abraça os fiéis nesta liturgia que a grande cena promove. Fernandona, tu estás com tudo e não estás prosa!
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