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| Milton Cunha |
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 Prenúncio de enganos: se ninguém pode sequer olhar para a Madona no hotel (que perde o emprego, como nos conta o quality-man Astuto, o Bruno), que humanismo é este da cantora que adora entrar no barraco da pobre cozinheira cheirando a alho no morro Santa Marta? Eu acho esquisitíssimo que uma mulher que não admite os olhos da admiração, sentir sinceramente a glória de ajudar um semelhante. Não bate alhos com bugalhos, a filantropia no Malawi e a intransigência nos corredores do hotel. Tudo bem que não possam cumprimentar a deusa, dar bom dia; mas demitir porque olhou a esfinge, é um pouco demais, né não? Será que ela joga prá platéia? Outro borogodó inexplicável: se o Rio não é violento, porque o Governador liga para o Secretário de Segurança mandando botar toda a polícia na rua, assim que a luz apaga? Será que é no escuro quer os gatos são pardos? Que bobagem, cidade pacata, que me seduz, de dia falta vergonha na cara, de noite, falta luz. Tudo certo, tudo no esquema, só se for no esquema da Dilma Roussef que dias antes declarou: "apagão, nunca mais!". Pumba! Deve ser a praga da peruca mal colocada, sei lá. Mas prá quê luz, né? Dá bolsa-celular, que todo mundo vai ter o que ficar fazendo na escuridão: ligando para parentes distantes. Programão. Aliás, programa bom foi o meu, que na meia noite mal assombrada do tudo escuro, saí da cidade do samba pela zona portuária mais deserta do que ela já é, e para me informar, liguei na rádio do Governo Federal, e escuta só as notícias: "pesquisa de Universidade revela que apenas 1% dos morros cariocas não é dominado pelo tráfico ou pela milícia!". Cruzes, eu que já estava nervoso, entrei em pânico. E consequentemente, não entrei em túnel nenhum, mesmo não sendo perigoso, e decidi vir para Copacabana pelo aterro do Flamengo. Quando a luz voltou, no jornal o chefe da Polícia de São Paulo implorava para os que fossem obrigados a sair naquela noite: "não saiam desacompanhados". Tudo bem, deve ser muito ruim viver numa cidade tão perigosa.
 Convidado pela Secretaria da Igualdade Racial para apresentar, no asfalto da Presidente Vargas, ao lado da divina Zezé Motta, a festa de Zumbi, na próxima sexta, dia 20, aceitei prontamente e já estou fazendo minha roupa de Madame Satã, pois quero fechar, e acho que este negro e homossexual foi o máximo. Vai ter Show dos amados Arlindo Cruz, Tinga e Clóvis Pê; bateria da Mangueira e Cubango, barracas, palestras, almoço tipo feijoada, jongo, capoeira, enfim, festa verdadeira como só os negros sabem fazer. Juntos e misturadíssimos. Por causa disto, participai de uma reunião no CEDINE, Centro Estadual dos Direitos da Negritude, e lá ouvi a denúncia de que o responsável pela Marinha, na Restinga da Marambaia, não autoriza mais a realização dos festejos negros do Quilombo que existe há tempos, lá na restinga. Sou louco para conhecer este Quilombo e peço que as autoridade intercedam para que este importante pedaço de nossa história sobreviva e possa comemorar dias melhores. Ressaltando que o preconceito é dissimulado, como a mucama servindo café, na comemoração dos "áureos tempos do Brasil colonial" (áureos onde, cara-pálida?) no texto convite divulgação do Sesc de Madureira. Pobres escravos, e pobres que não percebem a contradição ideológico de suas convicções. Sem esquecer, jamais, que está chegando os cem anos da Revolta da Chibata, liderada pelo grande João Cândido, ídolo de todos nós que não baixamos a cabeça nem a guarda, para quem quer que seja.
 Gente, os pais de hoje conversam com seus filhos sobre a homossexualidade deles, sobre suicídio, sobre tesão nas mães e pais dos colegas, sobre intolerância dos discursos religiosos, sobre sexo e prevenção da gravidez, sobre a não demonização da pulsão sexual? É sobre isto que trata o musical "O despertar da Primavera", escrito em 1840, ou seja, quase duzentos anos atrás! Tomara que tenha melhorado, que os pais sejam mais presentes nestas questões, mas acho que andou muito pouco tudo isto. Estes tabus ainda são fortíssimos e parece que adolescente continua perdido tanto hoje como outrora. Imagina o espanto da platéia achando este assunto pesadíssimo para 1840. Como se fosse levíssimo para hoje! Nestas questões, a humanidade ainda está na pré-história, nas cavernas. Fora isto, corram para ver o brilhante trabalho no teatro Villa Lobos, pois é tudo bom: música de primeira, figurinos e cenários belos, interpretações ricas, estória ótima e direção magistral. Bom da cabo a rabo (ui!).
 No Fantástico de Domingo, o desespero do marido safado que, durante o apagão, teve seu carro preso dentro da garagem da casa da amante. Chamou um taxi e dizia ao motorista: "o que será de minha família?". Resposta de tio Milton: se você realmente se importasse com sua família, meu amado, a primeira providência cabível seria conversar com eles sobre suas puladas de cerca, querido. Porque na hora que o circo está pegando fogo, palhaço, de nada adianta desespero. Aliás, esta estória não é sinônimo da hipocrisia reinante em muitas das respeitáveis famílias brasileiras? Pode ter amante, isto pode, mas mantenha sua família, custe o que custar, inclusive em cima da mentira. Não é o máximo? Na casa da amante e perguntando o que será de sua família....kkkkkkkkkkkkkk......
 Sempre ouvir falar do Hospital da Posse, em Nova Iguaçu. Nunca fui lá. Neste Domingo, o motorista da Van disse, em frente a ele: "ainda não é aqui, Milton. É depois, no Corumbá". "Meu Deus", pensei eu, "mas Corumbá não é lá pras bandas de Mato Grosso do Sul?". Vamos em frente. Calor infernal, de derreter corações, estava eu indo ver a Escola de Samba Palmeirinhas, perdida nos cafundós da Baixada. Se não quero o carnaval comercial, o das estrelas de TV, eu que vá ver os sambistas que não são transmitidos pela telinha, os que fazem samba por amor. Agora, todos os que reclamarem comigo do Desfile da Sapucaí, meu mantra será: "Vai prá Palmeirinha....". Enfim chegamos à quadra, um pequeno galpão num descampado de grama. Aplausos para minha chegada, todos elegantes, arrumadíssimos com suas camisas verde-branco, diretoria, baianas, velha guarda. Maior dignidade. Feijoada deliciosa, gente desmaiando de calor, caindo duro no chão, verdade mesmo, na bateria; rainhas da bateria mirim com saiotes de crochê bem infantis, que bacana. Nisto chega a outra homenageada, Soninha Capeta, Rainha da Bateria de meus anos de Beija Flor, ela, toda durinha nas carnes, avó, corpinho de passeio, gostosa, o que me faz olhar aquela negritude toda em minha volta e concluir: preto não envelhece, preto pode ter duzentos anos tá com cara de setenta, no máximo, e foi aí que Sonia, no microfone, ao meu lado, diz ter 45 anos. Meu queixo caiu e eu repliquei: "Sônia, desde que eu te conheço na década de noventa, do século passado, que tu não sai dos quarenta". "Que nada, Milton, é 45 de vida no samba, eu tenho sessenta e três e dois netos". Cruzes, ela está ma-ra-vi-lho-as, aos 63. Peguei o microfone, exaltei as qualidades da bisavó (sim eu sou exagerado, mesmo, eu não me conformei só com os netos, eu criei bisnetos....), e pensei na Elza Soares. Nisto pula da multidão, toda assanhada, uma mulher que grita: "Milton, eu sou a Rose do Corumbá, eu quero ser a Soninha Capeta da Palmeirinha". A bateria ataca, Rose do Corumbá se quebra toda, em sua maturidade, e eu concluo que ela precisa perder uns muitos quilos para se igualar à Capeta. Mas isto não tem a menor importância, os quilos a mais, porque os homens da localidade devem adorar as curvas portentosas de Rose e de tantas outras. Gente, na Palmeirinha não tem silicone, não tem camarote Vip, não tem nariz em pé. Em compensação tem alegria de viver transbordante e sinceridade e gratidão por uma visita. Vocês, quando estiverem de bobeira, precisam ir à Palmeirinha....
 Não deixem de assistir ao filme Besouro, é lindo. Muito bem realizado tecnicamente, sua glória é transmitir o universo da capoeira integrado à vida cultural, política e religiosa da negritude baiana do início do século vinte. E esta vida é pontilhada de mães de santos que vêem Deuses negros passeando pelas feiras, por filhos de santos que conversam com Exu, por crianças encantadas que vêem na natureza a resposta para tantos questionamentos. Com um pé na cozinha e outro na encantaria, Besouro mostra que dançar ou lutar capoeira é uma forma de ser e estar no mundo dos homens e do mistério. Ponto para o diretor e para o roteiristas, que entenderam direitinho o terreno fértil em que estavam pisando. E a beleza do elenco é algo estonteante, além das belas interpretações.
 Michael Jackson era uma gazela linda, com vozinha Tati-bi-tate docinha, docinha, que adorava dizer "Deus abençoe todos vocês", sempre que ouvia os gritos histéricos de seus fãs. É o que demonstra o documentário "This is it", importante prova de que o show seria um escândalo de bom e talvez um marco de resgate de toda a brilhante obra do artista. Tudo é bom: os arranjos são modernos, e ao mesmo tempo fiéis ao que conhecemos. Ele estava mandando muito bem, na voz, mesmo não dando tudo (ui!) de si nos ensaios filmados. Mas se aquilo era cinqüenta por cento do que viria na vera da cena, então ele estava com tudo em cima. As coreografias e os números eram bem sacados, com cenários, figurinos e efeitos especiais de primeira. Legal ver as preocupações recorrentes do cantor: preservação da natureza, apologia ao universo de pureza, seu desejo de ser uma linda mulher como Rita Hayword. Fora tudo isso, o que é inesquecível é o jeitinho Penélope Charmosa de Michael, meigo e infantilizado, quase debilóide no trato pessoal. Em cena, um gigante, fora dela, uma sílfide. Isto me lembra a historinha que Dori Caymi contou no espaço Tom Jobim, sobre a ida dele com seu paiDorival, para assistir a gravação de um tele teatro na Tupi dos anos sessenta: dirigido por Sérgio Brito, Ítalo Rossi interpretava um coronel brabíssimo do sertão, com voz possante e cartucheira na mão, e ao ouvir o grito de "corta" do diretor, o ex-possante coronel virou delicadíssimo e numa candura só, falou: Sééérgio, ô Séééérgio...
 Meu amor, se malandro fosse Escola de Samba, a Bíblia seria o Abre-Alas mais freqüente na Marquês de Sapucaí. Viram o Major Bizarro usando uma como escudo, diante das câmeras? Risível. É um tal de pecador se agarrando no livro santo como se salvo conduto fosse, que é quase blasfêmia. Fez merda, se agarra no testamento, que o futuro Deus provém. Quase um arrependimento compulsório, imediatíssimo, onde a tal da sã consciência não tem vez, pois de tão relâmpago, só pode ser uma aparição celestial. Sociedade do espetáculo, da imagem que vale mais que mil palavras, a cena do pecador empunhando salmos e provérbios deve impressionar um monte de gente. Mas sai prá lá tracajá, comigo ninguém pode. E a procissão de pastores salvadores, padres confessionais e autoridades religiosas dando guarita e querendo apanhar a alma pecadora. Todos em desespero (mas também sabendo da moleza dos discursos religiosos), dão, mas também tomam. Ainda no mundo bíblico, coitado do Judas Escariote, invocado pelo soberano Lula, que o comparou aos políticos brasileiros. Gente, pelo menos Judas devolveu as trinta moedas, em uma das versões. Que político faz isso? Judas não merecia isso, nem em sábado de aleluia. Nas outras versões Judas se joga do precipício por ter a consciência pesada, mal que parece inexistir nos corredores do Congresso Nacional.
 A parada gay estava maravilhosa, debaixo da chuva. Coisa que já é fresca e úmida (ui!) em si, com água vira um mingau de-li-ci-o-so. E lá fomos todos nós dançando na chuva, aplaudidos pelos espectadores. Muitos trios elétricos bacanas, decorados com painéis onde estavam escritas reivindicações por um mundo melhor. Acho que a grande ausência foi o veado pantaneiro do Governador de Mato Grosso e o Requeijão, digo, Requião, que devia ter ido conferir que Parada Gay não provoca câncer de mama, como ele disse, mas provoca em alguns enrustidos uma vontade danada de soltar a franga e abanar a passarinha. Acho que faltou também o Zito, que deveria ter aulas com o Eduardo Paes de como um prefeito precisa ser simpático e governar para todos. Zito que não gosta de beijo de homem com homem devia ter ido assistir ao beijaço, um sucesso. Fora isto tudo de bom, tem uma coisa esquisitíssima: o povo que fica em cima dos trios está cada vez mais borocochô, duros, sem graça, só olhando lá pra baixo, o que é o maior balde de água fria. Atenção pessoas em cima do trio, vocês estão no palco, na luz, no foco. Vocês precisam passar mais alegria e descontração. Aliás, falta drag e maluco em cima destes carros. Os normais estão tirando o lugar dos assanhados no alto dos trios.
 Como se não bastasse o presidente da República dizer que o diploma universitário não lhe fez falta, servindo de péssimo exemplo para milhões de jovens que devem sim se esforçar para ter estudo e diploma, vem agora à público o meu amigo e carnavalesco Mauro Quintaes, da maravilhosa São Clemente dizer que "de uns tempos para cá houve uma enxurrada de carnavalescos com diplomas. Alguns fazem uma faculdade e acham que são carnavalescos...". Mauro, querido, o problema não é o diploma e sim a falta de talento, o que acontece até no Direito. Aliás, o que dizer do Doutor Hiran Araújo, competente diretor cultural da Liesa e diplomada em Medicina, mas paixonadérrimo pelo carnaval? Ou mesmo da Mestra Rosa Magalhães, autoridade acadêmica e super-campeã da Sapucaí? Não devemos desestimular ou demonizar o diploma, e sim incentivar os profissionais a melhorem sempre. Sou Diretor Técnico da Formação em Carnaval da Universidade Veiga de Almeida, cargo que me dá muito orgulho, e vejo alunos competentes e outros menos. Como vi na Faculdade de Psicologia ou no Mestrado em Ciência da Literatura. É importante que o Carnaval e a Escola de Samba entrem no Cânone. O que, em absoluto, não significa dizer o contrário, que todos os Carnavalescos sem diploma não prestariam ou não teriam talento. Mas cultura geral, informação sobre história, geografia, semiologia e outros, é importantíssimo. Caberá ao mercado dizer quem serve e quem não serve. Mas diploma e formação nunca são demais. Já burrice....
 E agora que Mesbla fechou, eu, desolado, anuncio a morte do Angu do Gomes. Deus, morreu o Gomes, que nos anos sessenta substituiu o pai à frente desta maravilha carioca que é o tal do Angu. Mesmo você que não gosta ou não come, sabe que dar uma paradinha pra beber uma gelada, ou ver as modas, era tudo de bom, em volta da carrocinha. Quase um tratado sociológico, que precisa ser tombado como a feijoada, o samba de roda e o acarajé. Aliás, que bom que estão institucionalizando o Dia da Cachaça, a branquinha poderosa que foi enredo nas mãos do professor divino Fernando Pamplona, no Salgueiro dos tempos idos. E o que dizer da divina Ângela Vieira que, vendo-se de maiô, desistiu de ser capa de revista? Ô maravilhosa, quem perde somos nós, de não te apreciar. Será que este teu simancol não tá muito auto-crítico, não? Você tem visto o que sai publicado? É cada mulher bagaço, ex-fruta caída do pé, que não chegam aos teus pés, que deveriam aprender contigo a ter o mínimo de discernimento, que eu prefiro você com photoshop. E tem mais, na tua idade, quem ta podendo tanto quanto você, gostosona?
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