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Milton Cunha
 

Quarta-feira, 1 Julho, 2009


Minha homenagem a Perri Sales, que dignamente viveu na pele o papel que as mulheres têm vivido à anos: a não existência pública individual, sempre atrelado à sua mulher, sempre apêndice da poderosa. Mulheres trocam até de sobrenome, encerrando a vida pregressa, pois a partir do ato, além do sobrenome do homem, serão senhora fulano de tal. Perri tirou de letra a situação, nunca se importou com os que não enxergavam o homem além do esposo, e deu exemplo para todas as mulheres: se não mata vocês, não matará eles também.


Sempre amei e me identifiquei com Tenesse Wulliams, o grande dramaturgo cujas peças mostram pessoas tentando desesperadamente ser felizes, algumas querendo sair do sufoco, outras desistindo, mas todas muito humanas e próximas de todos nós, senão nós mesmos. Com alegria corri para o Maison de France para apreciar a nova montagem do Zoológico de Vidro, cuja mãe desequilibrada me fascina e me comove. É sempre promessa de boa atuação, se cair na mão de boa atriz. Pois a direção de Ulisses Cruz é de primeira qualidade, sua montagem sendo prato cheio para Cássia Kiss arrasar como a sonhadora e opressora mãe. Que cenário lindo, que figurino competente; mas foi a bossa-nova de ruídos tipo grilos, latidos de cachorro e teclas de máquina de escrever, o que para mim soou como surpresa maravilhosa. Fora toda a qualidade do visto, voltemos ao texto de Tenessee: o bonitão vira para a moça manca que o ama desde os tempos do colégio, e ao vê-la se confessar que se acha a última das criaturas, ele detona: "não se martirize por não ser comum, igual a todo mundo. Lembre-se, as ervas daninhas são comuns, e nem por isso, boas....". Uma injeção de auto estima, uma grandiosa lição de vida. No fim, a gente percebe que ele sempre achou a noiva do monstro do Frankistein interessante, mas, como ela não se jogava, ele achava que não a interessava. A vida tem destas coisas: a gente fica valorizando demais o vizinho e esquece de tentar ser feliz por nós mesmos.


Fiquei tão impressionado com a quantidade de mulher gritando por Ney Matogrosso, e também pela invasão dos garotos jovens que tantavam beijá-lo quando ele descia para a platéia, nas duas noites do Show Inclassificáveis, neste fim de semana que passou, no Citibank Hall, que comecei a pensar cá com meus strasses que, tendo usado o corpo como instrumento de libertação, Ney tem norteado uma série de mulheres que amadureceu com ele, rumo à assumir suas vontades e soltar os quadris. Fico imaginando-as há trinta anos atrás, jovens como ele, sem entendê-lo bem mas admirando-o pela ousadia e sensualidade, e hoje, depois de tudo na vida, percebendo que não se esgota a coragem do cantor de ser extravagante e brindar a platéia com strip-tease e deboche dignos de nota. Ainda bem que elas não perderam tempo e chegaram ater aqui com a garganta afiada para, do escurinho gritar sandices tipo "suculento" e "boneco de Paris". Ney é show, mas sua platéia, inconfundível.


Terça-feira, 23 Junho, 2009

Uma bomba neles!


Estão certíssimos em jogar bomba em cima de nós, gays: já que se esgotaram todas as tentativas de nos demonizar, e como continuamos serelepes e felizes por aí, que nos matem, que nos trucidem, que exponham nossa entranhas, vísceras incluídas. Nosso mal é querer amar, é não ter vergonha, é não baixar a cabeça para a hipocrisia. Onde já se viu tanto desplante? Descarrego, excomunhão, triângulo rosa nos campos de concentração, tudo, absolutamente tudo já foi tentado, mas, sinceramente, andamos até aqui para chegar onde chegamos, na hora do desespero, do silêncio atônito quebrado pela explosão, daqueles que, não podendo fazer o mundo à sua semelhança, tentarão o extermínio, a violência desenfreada, a intolerância em forma bruta. Seja bem vinda, hora do dogma, a cartada final que conclui que, escreveu não leu, o pau comer. Não tem tu, vai tu mesmo! A bomba discursa mais que tudo: é assim e pronto, doa a quem doer. Uma bomba que vem do céu, que nos protege. Uma bomba que parte de uma janela anônima, do alto da Paulista, e cuja trajetória descendente alerta para a não democracia, a ditadura dos que se acreditam donos da realidade, fiscais de peru e orifícios. Confesso que achava que antes deste estágio de barbárie, iriam tentar a escravatura dos assumidos, enjaulados e levados para países distantes, acorrentados, onde não dominassem nem a língua nem os costumes. É que a história me ensinou que primeiro vem a catequização, e esta não resolvendo, o trabalho forçado e o desassentamento pátrio são boas soluções. Se isto, enfim, não resolver, bomba neles. Não se acanhem, continuem tentando, até porque esta é a única maneira de mostrar para a sociedade em geral, de que não se trata de gay ou não gay, trata-se da liberdade cidadã. Os homens de bem entenderão que, depois de bombardear-nos, eles partirão com suas espadas da opressão para cima de quem não se calar.


Sexta-feira , 19 Junho, 2009

Estranho casal, um sucesso!


Imaginem o resultado da experiência de duas pessoas completamente diferentes, dividindo o mesmo apartamento! Suponham um descasado garotão e safo, que deixa o lixo apodrecer no cesto da sala por dias, até feder; e um maduro engravatado que após passar o aspirador no tapete não quer que ninguém mais pise ali, pois vai marcar! Toda a insensatez dos extremos é relatada pelo brilhante texto de Neil Simon para "Estranho Casal", magistralmente traduzido e adaptado por Gilberto Braga, muito bem interpretado por Carmo dala Vecchia e Edson Fiescher, mas é a direção de Celso Nunes quem amarra tudo com a maior competência. Tudo num tempo certo e dinâmico, sem perder o ritmo. Só vai no crescendo, até que a apoteose é a entrada das duas atrizes que interpretam as vizinhas hilárias, e que dão a guinada na trama e puxam os aplausos, pois o que era muito bom fica ótimo. Corram para ver este show de inteligência e bom humor, que expondo as feridas de seres extremados, coloca o espelho na nossa cara e nos mostra o quanto somos ridículos. Vivamos melhor, esforcemo-nos para não levar a existência tão na ponta da faca. Mas pelo amor de Deus, calcinha ou cueca no box, não!


Quinta-feira, 18 Junho, 2009

Para Nelson....


Admiradora confessa de Nelson Rodrigues, a bela garota via em si todo o universo sórdido e taras dos personagens. Por isso sentia torpor e buscava na obra do dramaturgo inspiração para suas necessidades, mais que fantasias.
Ela escolheu o mais belo dos ginecologistas e, após marcar hora, partiu para a consulta vestida normalmente, mas sem calcinha. Na vulva, tinha pintado uma seta, abaixo das palavras "aqui, doutor", que apontava para o pequeníssimo triângulo de pelos pubianos.
Louca de tesão, despachou a assistente, armando um telefonema do colégio do filho da enfermeira, justo na hora em que já tinha colocado o roupão.
Pernas abertas, silenciosamente observada pelo lindo doutor, ela, quase gozando, ouviu o médico retrucar:
-Feche as pernas e saia. Sinto muito: eu amo a minha mulher....

Espaço Tom Jobim, lindo, lindo.....


Além do recém-restaurado Cais do porto, e da Cidade do Samba, ambos na Gamboa (quero dar força para a recuperação daquela área emblemática para a cidade), votei no Espaço Tom Jobim como um dos meus "cantos" preferidos do Rio, na votação da nossa revista Tudo de Bom 2009, daqui dO Dia. É um novo teatro da cidade, dentro do Jardim Botânico, no meio da vila de casinhas antigas, tipo vila do interior. E, como acho o matagal tudo de bom, tendo uma casa de espetáculos bem equipada, aí fico encantado. Bom estacionamento, entre árvores; super programação de Concertos de Outonos, que já teve Fernanda Abreu, Adriana Calcanhoto e uma deslumbrante Elba Ramalho, que vi; um anexo para exposições multimídia, que está exibindo o acervo Dorival Caymi, que, vocês sabem, acho a mais perfeita tradução de brasilidade. Corri para ver a primeira apresentação dos três queridos (não os conheço mas eles são íntimos de todos os brasileiros, e estamos conversados!), após a passagem dos pais. Dori e Danilo, gostosos e simpáticos desde nascença. Mas é Nana, a deusa, a magnetizante, que canta com os silêncios, com os sussuros, quem eclipsa a noite da floresta: das suas entranhas de filha e mulher, arranca os versos das canções "do papai", e silencia de tal forma a platéia, que o não-canto, em meio ao sepulcral não-barulho (nem de uma mosca voando), vira a mais sublime composição possível. Não cantando, entre as melodias, ela canta com o silêncio. Ponto final, Nana é quase Nanã, e, viva, escorre o suor da testa, saracuteia como a baiana dos balangandãs, e arrasa de cabo a rabo. Única!


Terça-feira, 16 Junho, 2009

MISS COPACABANA!


Já que tem Miss Banana, escolhi a Miss Copacabana: senhorinha vaporosa, de mais ou menos sessenta, laquê em cabelo impecável, cheirosa, elegante, meio Chanel (pois adora corrente dourada), sapato nos trinques e.... carente e solitária. Pois é, econtrei-a abraçando calorosamente a garçonete da rede de restaurantes que sacou que, tendo clientela numerosa de maduras solitárias, decidiu encher o salão de moças recém-chegadas do norte-nordeste, pois estas seriam as melhores escutadoras de tais madames, e se tornariam de confiança das clientes. Bingo! De um lado as Marias e Joanas que outrora pegariam o Ita para serem empregadas domésticas, mas que a modernidade transformou em profissionais liberais super despachadas. Todas tem a mesma carinha de Macabéa, todas são gêmeas da Marcélia Catarxo, todas com toquinhas de crochê. Empatia instantânea, aquela para quem você se apega com gosto e conta a vida em dois minutos de papo. Melhor amiga de infância na hora da apresentação. Voltando a cena do abraço, tal era a emoção da despedida, com Miss Copacabana desejando toda a felicidade do mundo para a simpática empregada, que não me contive e chamei a moça. "Ih, Milton, elas convidam até a gente para morar com elas. São super carinhosas e amicíssimas....". Eu sabia! Só fecham e descem dos apartamentos e como as encontram diariamente, se apegam. "Escuta, Luzinete, Cleodete, Margarete,....". "Meu nome é Francinete....". "Escuta Fran, acho que todas vocês são casadas com todos os porteiros do mundo, é verdade?". "Nada. Errou feio: eu por exemplo, sou casada com um confeiteiro. Aquela ali com um motorista, foi-se o tempo....". "Gente, mas todo mundo se conhece, né?". "Exatamente, um vai apresentando o outro. Agora mesmo ta chegando uma prima minha do sertão do Maranhão, que já está empregada, aqui. E acho que ela vai casar com o meu irmão!". Pois, queridos, há uma máfia engraçadíssima e do bem total de brasileiras saudáveis e dispostas que, superando a desumanidade e desconfiança da babel carioca, descobriram que um dos antídotos para o desamor, é agir como se age na chiquérrimo Cariri. Afago e paciência são as chaves para desvendar esta Copacabana parecidíssima com Tieta do Agreste, onde aipo abraça aipim.


Terça-feira, 9 Junho, 2009

O VIADÃO CULTURAL


Eu, viadão cultural, a-do-rei meu primo-irmão, o viradão cultural, pois toda virada (ui!), nos interessa. Então, já que "ah, vira, virou, a mocidade chegou!", parti impávido colosso para uma programação alternativa, pois além da virada oficial, tinha a não autorizada, que tantava pegar carona no borburinho da cidade. Adorei, me diverti muitíssimo, e passo a relatar quantas viradas dei, dou e darei: na sexta, happy-hour, conheci o novo Rival, cinza prata com mais charme ainda. A casa dos Leal está bacanérrima, e a atração era a cantora que eu achava japonesa, pois atendia pelo nome de Takai, e, segundo me disseram, adorava um pato, não com laranja mas um pato fu. Corri de saquê na mão para ver que diabos era aquilo, já que a japa cantava Nara Leão. Sempre soube que a bossa-nova fazia o maior sucesso no Japão, lá onde o mundo é virado de cabeça para baixo. Cenário de bolas muderníssimas, entra a magrinha branquésima, vestido solto preto e carinha angelical, quase nissei. O fiapo de voz encaixa perfeito com a doçura da interpretação; e isto somado aos arranjos, à glória do repertório e ao bom humor debochado de Fernanda, acaba resultando numa fórmula mágica que nos transporta para o encantamento durante mais de hora e meia, provando que quando se trata de boa música, a cantora não precisa rebolar a bunda nem fazer coreografias mirabolantes com baialarinos. Takai, a anti Carla Peres, me fez relembrar Leno e Lilian. E isto é um elogio, pois sempre amei a doçura dos cafoninhas, que interpretavam com sinceridade a pureza e meiguice de uma geração. Pois Fernanda Takai é pura e meiga na medida certa, deixando janelas abertas para a indiscrição. A louca-suave mistura Dolores Duran com Duran, Duran, e diz que um após o outro é obrigação da cantante. Fica ótimo, quase inacreditável. Além de Nara, em sonoridade outra que não a original, ela vai buscar no fundo do poço o Mestre Pinduca, para encerrar o show. Como? Não sabem quem é o Mestre Pinduca? Vocês não estão com nada, precisam começar a virar as possibilidades de descobertas. Se virem do avesso, puxem o fôlego que aí vem nitroglicerina pura: Pinduca é um senhor amulatado, eu diria que pintosa até a morte, cantor de Carimbó lá pelos lados de minha infância no Marajó, que usa pantalona azul-piscina de tergal, com batas indígenas e enorme chapéu de palha de onde pendem penduricalhos pequenos do artesanato paraense. Não, não é cafona: é siri com toddy mesmo. Porque assim somos nós, brasileiros. Temos chica-chica-boom, somos híbridos, contraditórios, multifacetados. De qualidade artística ímpar, Fernanda Takai acende dentro de nós a lamparina de querosene de nosso inconsciente coletivo. Só que o gás que ela usa é fórmula nuclear de última geração.
Já virado no santo, embalado pela idéia de não dormir, parti para a Varanda do Vivo Rio, paisagem deslumbrante do Mam à noite, onde a sambista da melhor cepa, Ana Costa, iria cantar à luz da lua. Tipo vira-vira-vira homem, vira vira!, vira vira lobisomem! Um resgate cultural de nossa raiz de samba, com músicos de primeira qualidade e o auxílio luxuoso da maravilhosa Leila Pinheiro e Zélia Duncam. Pois ao meu lado estava Pitanga, o Zé-pilintra mais Zé-pilintra desta cidade (o que será que Benedita acha de tudo isto, meu Deus?), e aplaudimos horrores. Não posso deixar de contar que sentei na mesa da família de Ana Costa, chegada diretamente de Nova Iguaçu para aquela mesa na cara do gol: a mãe da cantante, uma senhorinha daquelas senhorinhas do subúrbio, da nossa emoção, oclinhos, vestidinho, cabelo pentiadinho, enfim, uma senhorinha inha, com seus filhos e netos, todos orgulhosos e encantados pelo vozeirão da parente, que brilhava no palco. Graças a Deus que ainda existe família de verdade, tipo Sítio do Pica-Pau amarelo, neste mundo da pá virada e do barro remexido. Foi uma honra partilhar assento com gente decente e verdadeira. Que as Donas Bentas nunca desapareçam, neste mundo de tantas senhoras viradas mutantes.
Um pouco cansado, com os olhos revirando, cheguei ao Parque Lage para o Lounge C da Oi, na mais deslumbrante das mansões do Rio, onde a extraordinária Harpista e o famoso violinista iriam dividir sonoridades com djais e mcis numa salada de sonoridades diversas, mas nunca conflitantes. Com o Cristo Redentor por testemunha, na agradabilíssima noite outonal da virada inciante, na residência que outrora foi da Diva cantora de ópera Benzanzoni Lage, pude constatar quantos jovens desta cidade se espremem para assistir programas interessantes. Terminei a virada participando do maravilhoso concurso Miss Gay Rio de Janeiro, na quadra da Unidos da Tijuca, produzido pelo amado Orlando Almeida, conversando com a maravilhosa atriz Stella Miranda, presidente do Júri. Ela estava encantada com a criatividade das bichas, que entravam com uma roupa e, arrancando panos no meio da passarela, viravam outra coisa, diante de nosso olhos. Nesta cidade em que Astolfo virou Rogéria, e carnavalesco virou colunista, que muitas outras viradas venham, pois cobra que não se vira, não engole sapo, meu amor....




Domingo, 7 Junho, 2009


Quem precisa de paz para observar a obra em andamento? É a luz que faz a diferença no código dos diretores das artes cênicas? A púbere sentada à minha frente parece que se perguntava isto, pois a menina quase moça ficava pedindo, angustiada, para que o operador da mesa desligasse a luz de serviço no Teatro Fashion Mall. Acho que na cabeça dela, o raciocínio é o seguinte: se os atores já passeiam pela cena, como pode o sagrado ser iluminado com a mesma luz do profano? Para ela, a cena precisa ser no escurinho da sala. E, concordando com ela, o diretor, sabedor de que ali ele desconstrói a linguagem, só apagará a luz e fará a mágica dos dois mundos, após uma introdução tipo "não começou", quando artistas arrumam os instrumentos musicais e depois se abraçam, numa linda celebração de generosidade, quando se desejam sorte, sucesso, mas que no teatro é "merda". A luz traz a magia de Suassuna e da Farsa da Boa Preguiça, em linda encenação, com sugestivas luzes de gambiarras de arraial interiorano decorando a cena. Ótimos atores são engolidos em cena aberta por um naipe de atrizes de arrebentar a boca do balão. Impagáveis de tanta luminosidade. Eu já passei pelo desvirginamento do claro-escuro quando, Canecão início dos 80, Gonzaguinha, o genial, querendo mandar às favas o sistema de estrelas que faz o protagonista só entrar em cena com todos os mortais na penumbra da platéia, entrava entre copos e pratos batendo e sentava na beira do palco para afinar seu violão, sem ninguém acreditar que ali estava o famoso. Peguei no tranco, entendi no susto que a desglamourização era proposta artística veemente do grande. Ele queria estar no mesmo patamar que o assistente, no mesmo mundo. Era disso que sua obra tratava. Me vi na garota que queria o escuro a qualquer preço, porque é ele que nos faz calar para sempre, pois sabemos estar diante da obra. Nenhuma comida, pouca bebida. Viva eu e ela que respeitamos o ato artístico de maneira contrita e quase inabalável.
E quanto aos mal-educados, os cretinos que acham que estar no escuro diante da encenação não significa nada de mais, que esta experiência não requer compostura ou que o jogo não subentende silêncio para a boa apreciação? No meu tempo, moleques só iam assistir a obra acompanhada de um responsável que os segurassem. Hoje, os responsáveis largam cinco, seis imaturos dentro da sala e salve-se quem puder. Atiram pipocas, jogam bolas de papel, riem, conversam muito, às vezes gritam. Como não perco a esportiva nunca, largo o ato artístico para lá e viro-me para os malfeitores como se diante de um novo episódio da experimentação de estar vivo: com olhos atentos vejo que o mundo não é mais meu, que estou diante de uns que jamais tomarão a arte com o respeito litúrgico que sempre experimentei. Muito jovem vi que os adultos eram todos iguaisinhos a mim através da obra de Ingmar Bergman. Queimei etapas de entendimento com a esclarecedora e engrandecedora arte. Quase Deus para mim, a obra desfruta do mais elevado prestígio. Se me desinteresso, saio simplesmente da sala, tentando ao máximo não incomodar quem, em silêncio, está diante do mistério artístico. O que dizer de educadores que não educam pimpolhos para o respeito ao ato coletivo?
E, mais que isso, o que dizer de uma casa de espetáculos que não eduque, ou obrigue, seus empregados, ao bom desempenho e perfeito entendimento de que a mágica é ritualística e, iniciada, precisa ser preservada? Qual é o código dos empresários das artes? Pois conto para vocês que assistir ao Pilobolus no Vivo Rio, frisas quase no teto, foi a sessão casseta e planeta mais non sense a que tive direito na vida. Os bailarinos se contorcendo para passar a delicadeza e o silêncio da beleza de vagalumes (lanterna-mágica) e a gerente, supervisora ou, chememos a mulher do Vivo de Vivete, num tailleur passando com seu saltinho toc-toc-toc para lá e para cá. Imaginem passos precisos, decididos e persistentes durante um diáfano ballet! Irritante. Mas vai piorar: o segundo número, um contorcionista de malha vermelha, uma mola de borracha em pessoa, dando nó em si próprio na caixa iluminada e no escuro panelas e balde desabando, fazendo metais tilintarem para desespero da audiência, enfim, um caos. Garçons falando alto uns com os outros, na cozinha, que é junto das frisas, rolhas saltando de garrafas, gente fazendo psiu, uma festa. Admita nestas horas que Deus lhe colocou em tal cilada para que você exercite sua comiseração pelo semelhante. Se piorar, quebre o pau e reclame, faça algo, vista uma malha e saia rodopiando sua indignação.