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Milton Cunha
 

Terça-feira, 3 Novembro, 2009

Judas....


Meu amor, se malandro fosse Escola de Samba, a Bíblia seria o Abre-Alas mais freqüente na Marquês de Sapucaí. Viram o Major Bizarro usando uma como escudo, diante das câmeras? Risível. É um tal de pecador se agarrando no livro santo como se salvo conduto fosse, que é quase blasfêmia. Fez merda, se agarra no testamento, que o futuro Deus provém. Quase um arrependimento compulsório, imediatíssimo, onde a tal da sã consciência não tem vez, pois de tão relâmpago, só pode ser uma aparição celestial. Sociedade do espetáculo, da imagem que vale mais que mil palavras, a cena do pecador empunhando salmos e provérbios deve impressionar um monte de gente. Mas sai prá lá tracajá, comigo ninguém pode. E a procissão de pastores salvadores, padres confessionais e autoridades religiosas dando guarita e querendo apanhar a alma pecadora. Todos em desespero (mas também sabendo da moleza dos discursos religiosos), dão, mas também tomam. Ainda no mundo bíblico, coitado do Judas Escariote, invocado pelo soberano Lula, que o comparou aos políticos brasileiros. Gente, pelo menos Judas devolveu as trinta moedas, em uma das versões. Que político faz isso? Judas não merecia isso, nem em sábado de aleluia. Nas outras versões Judas se joga do precipício por ter a consciência pesada, mal que parece inexistir nos corredores do Congresso Nacional.


A parada gay estava maravilhosa, debaixo da chuva. Coisa que já é fresca e úmida (ui!) em si, com água vira um mingau de-li-ci-o-so. E lá fomos todos nós dançando na chuva, aplaudidos pelos espectadores. Muitos trios elétricos bacanas, decorados com painéis onde estavam escritas reivindicações por um mundo melhor. Acho que a grande ausência foi o veado pantaneiro do Governador de Mato Grosso e o Requeijão, digo, Requião, que devia ter ido conferir que Parada Gay não provoca câncer de mama, como ele disse, mas provoca em alguns enrustidos uma vontade danada de soltar a franga e abanar a passarinha. Acho que faltou também o Zito, que deveria ter aulas com o Eduardo Paes de como um prefeito precisa ser simpático e governar para todos. Zito que não gosta de beijo de homem com homem devia ter ido assistir ao beijaço, um sucesso. Fora isto tudo de bom, tem uma coisa esquisitíssima: o povo que fica em cima dos trios está cada vez mais borocochô, duros, sem graça, só olhando lá pra baixo, o que é o maior balde de água fria. Atenção pessoas em cima do trio, vocês estão no palco, na luz, no foco. Vocês precisam passar mais alegria e descontração. Aliás, falta drag e maluco em cima destes carros. Os normais estão tirando o lugar dos assanhados no alto dos trios.

Quem precisa de diploma?


Como se não bastasse o presidente da República dizer que o diploma universitário não lhe fez falta, servindo de péssimo exemplo para milhões de jovens que devem sim se esforçar para ter estudo e diploma, vem agora à público o meu amigo e carnavalesco Mauro Quintaes, da maravilhosa São Clemente dizer que "de uns tempos para cá houve uma enxurrada de carnavalescos com diplomas. Alguns fazem uma faculdade e acham que são carnavalescos...". Mauro, querido, o problema não é o diploma e sim a falta de talento, o que acontece até no Direito. Aliás, o que dizer do Doutor Hiran Araújo, competente diretor cultural da Liesa e diplomada em Medicina, mas paixonadérrimo pelo carnaval? Ou mesmo da Mestra Rosa Magalhães, autoridade acadêmica e super-campeã da Sapucaí? Não devemos desestimular ou demonizar o diploma, e sim incentivar os profissionais a melhorem sempre. Sou Diretor Técnico da Formação em Carnaval da Universidade Veiga de Almeida, cargo que me dá muito orgulho, e vejo alunos competentes e outros menos. Como vi na Faculdade de Psicologia ou no Mestrado em Ciência da Literatura. É importante que o Carnaval e a Escola de Samba entrem no Cânone. O que, em absoluto, não significa dizer o contrário, que todos os Carnavalescos sem diploma não prestariam ou não teriam talento. Mas cultura geral, informação sobre história, geografia, semiologia e outros, é importantíssimo. Caberá ao mercado dizer quem serve e quem não serve. Mas diploma e formação nunca são demais. Já burrice....

Populares....


E agora que Mesbla fechou, eu, desolado, anuncio a morte do Angu do Gomes. Deus, morreu o Gomes, que nos anos sessenta substituiu o pai à frente desta maravilha carioca que é o tal do Angu. Mesmo você que não gosta ou não come, sabe que dar uma paradinha pra beber uma gelada, ou ver as modas, era tudo de bom, em volta da carrocinha. Quase um tratado sociológico, que precisa ser tombado como a feijoada, o samba de roda e o acarajé. Aliás, que bom que estão institucionalizando o Dia da Cachaça, a branquinha poderosa que foi enredo nas mãos do professor divino Fernando Pamplona, no Salgueiro dos tempos idos.
E o que dizer da divina Ângela Vieira que, vendo-se de maiô, desistiu de ser capa de revista? Ô maravilhosa, quem perde somos nós, de não te apreciar. Será que este teu simancol não tá muito auto-crítico, não? Você tem visto o que sai publicado? É cada mulher bagaço, ex-fruta caída do pé, que não chegam aos teus pés, que deveriam aprender contigo a ter o mínimo de discernimento, que eu prefiro você com photoshop. E tem mais, na tua idade, quem ta podendo tanto quanto você, gostosona?


Terça-feira, 27 Outubro, 2009

Viver a vida.....


Encher o carrinho de supermercado de compras e guloseimas sempre foi um símbolo da fartura capitalista. Se tiver por cima com biscoitos finos, champagne e vasinho com orquídea, típicas destes modernos hipermercados, aí fica um luxo. Compras da semana, mantimentos do mês. Bem alimentados por um tempo duradouro, eis o fascínio do carrinho de compras. Mas fui surpreendido há uns anos atrás, acho que quase dez, com a notícia de que um pai desesperado, vendo seu filho adolescente morto ou baleado numa destas trocas de tiros que já não nos causam espanto, no alto da favela, e não podendo o rabecão ou a ambulância do SUS subir, pois as pessoas destes veículos morrem de medo, ao pai, numa última tentativa, só restou botar o corpo do magricelo rapaz no carrinho de supermercado e descer com o desacordado. Fiquei chocado com a imagem, dilacerado pela míseras condições destas comunidades e as pouquíssimas chances de resgate. Agora a foto do corpo abandonado no carrinho, no pé do morro, me fazendo associar o que só era símbolo de benesse à situação de desgraça. Parece que carrinho de supermercado é um hit da comunidade, para o bem e para o mal. Em vez de mantimentos, corpos. Como sou muito chegado à uma culpa e uma reflexão, pego o carrinho e percorro gôndolas de minha consciência, matutando qual será a saída para a cidade que, ladeira a baixo, vê bandidos e mocinhos seres trucidados ao lado, e todos agem naturalmente, como se carrinho de supermercado não fosse única e exclusivamente para transportar compras.
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O magricelo se apaixona, cheio de tesão, pela rolha de poço. Mais que isso, ama-a por ela não ser nada parecida com a ex dele, uma gostosa tipo palito, linda e mandona. Transam, vivem bem, mas o cara meio que sempre se esconde da galera em público, talvez até para proteger a gorda da crueldade dos amigos. Mas nada que acontece no palco, grosserias incluídas no texto, está distante da realidade. As pessoas são capazes de atrocidades inimagináveis, e não pegam leve quando não conseguem entender o tesão do outro. Quase no final da peça, a psicologia de botequim do personagem amigo do cara que se apaixona pela obesa, diz: "nós, normais, temos medo dos gordos, velhos, gays, pretos e índios. Nós sabemos que eles são prova viva da catástrofe genética que em um segundo pode acontecer com qualquer um de nós". Portanto eu, catástrofe genética, afirmo que catástrofe mesmo são tais machões que, considerando-se normais (este personagem da peça, aliás, é bem feinho, bem caidinho) só olham para os outros e não tem espelho em casa. Aliás, já pensaram como é confortável ser este macho que não precisa ser nada, nem bonito, nem atlético, nem nada, mas só pelo fato de ser macho, ainda que um animal, é considerado normal? Enquanto as mulheres tem que fazer dieta, estudar, ser mãe, cuidar da casa e ainda ser linda ou deusa do sexo, para eles basta existir para terem sucesso garantido. "Gorda", em cartaz no Shopping da Gávea, é um texto bacana sobre as impossibilidades de quebrar preconceitos e aceitar as pessoas como elas são. Você até ri, mas vai amarrar a cara no final, vai sair do teatro com um gosto amargo na boca. A cena final, terror dos gordos, é na areia da praia, com Fabiana Carla, maravilhosa, de maiô, ao lado de seu companheiro, um cara apaixonante que banca a situação de estar ficando com uma gorda mas, cansado, vai ali, entregar os pontos. O grande personagem da trama, o de mais empatia, vai fracassar. Isto é o bom da proposta da montagem: a gorda está satisfeita como é, mas por ele, não tendo feito isto nem pelo pai nem pela mãe, por ele, ela se submeteria até a uma operação bariátrica, porque pelo amor que ela sente, ela faria qualquer coisa. Mas isto não basta, e não interessa eu estar contando o fim da trama, porque só indo ver, para estar diante da Michel Bercovitch para presenciar a grandeza de um ator. E olha que roubar a cena da Fabiana é dificílimo porque ela é a tal, no momento certo no papel ideal. Mas quando Michel puxa para si a cena e, chorando diz em enorme texto que vai deixá-la, cortem os pulsos porque ali está o que de melhor podemos esperar destes seres do palco: a absoluta entrega ao ofício de interpretar outras vidas.
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Desde criança, ir ao cinema era ato de liturgia artística, pois tínhamos que andar muito até chegar aos 3 únicos cinemas, da Belém do Pará dos anos 70. Só podíamos fazer isto um vez por semana, e a comoção era total. Nos vestíamos e penteávamos o cabelo para "ir ao cinema", quase um parto. Depois fui ficando sozinho nesta paixão e só restou eu, dos quatro irmãos, a seguir para aquela missa solene, aquele ato de elevação da alma. Sentado na poltrona, concentradíssimo, eu vivi através da tela as grandes emoções da vida que um dia chegaria para mim também. Só que o cinema foi se popularizando, a tecnologia foi tornando poeira o ato outrora tão emblemático, e eis que não fico mais ereto, pescoço duro, assistindo a projeção. Agora me vendem lugar deitado em espreguiçadeira, onde assisto ao filme estirado em confortabilíssima quase cama, e olho para cima e o filme de Tarantino me emociona e assusta. Som e imagem de primeira, tudo certo, mas não é mais respeitoso como antigamente. Mas não tem problema: preciso me acostumar ao conforto, pois isto não significa a qualidade da sétima arte. Mas tomara que pare por aí, ou eles vão fazer nevar e chover entro das salas quando as cenas assim retratarem? Vão distribuir pantufas e cobertores? Definitivamente, eu sou de um outro tempo, o que não implica dizer que não é gostoso estar neste aqui.
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Querendo ir ao Fashion Rocks, descobri que o ingresso custava a bagatela de 1.100 reais. Que para mim são irreais, pois a mensalidade da faculdade custa 400, e eu não tenho coragem de dar tanto para ver a Mariah Carey ou a roupa do Marc Jacobs. Eu achava que era caro, claro. Mas para mim caro é um ingresso de 500, pois a mei, sendo cara, sairia para um estudante de moda por 250. Não é o ingresso que é caro, nós é que semos pobres.


Sexta-feira , 23 Outubro, 2009

Minerva assanhada, da Universidade; e nós, os loucos pelo carnaval....

O Clássico e o popular.... Beijos, me liga....


As fichas dos doentes do Hospital Nacional dos Alienados....

Fichas de 1917 e 1939....

Bateria e Passistas, maravilhosos sambistas....

Eles, Doutor Pinel; elas, os signos de Bispo do Rosário.....


Neurosífis e Lobotomia, ui!

Alas do Terceiro Setor, os males da psiquiatria....


Segunda ala, bem na frente do abre-alas....

Médicos e loucos da Cubango!