A alta da bolsa

No atelier de arte nos fundos da loja Gilson Martins, em Ipanema, o designer de bolsas e acessórios nos recebeu, nesta quinta à noite, para uma entrevista descontraída. Bem à vontade, ele falou um pouco dos 25 anos de carreira e do livro que lança, hoje, nos jardins do Museu da República, de 17h às 19h. E vale dar uma passada para conferir o resultado do trabalho, repleto de histórias interessantes sobre suas criações.
O projeto partiu do livro sobre sua trajetória publicado pela Coleção Gente, da Universidade Estácio de Sá, há quarto anos. 'Viajando pelo Design' (Ed. Letras & Cores, 120 págs. R$ 45) também traz sua história, mas dessa vez, tem como objeto principal o seu trabalho: as bolsas. "A diferença é que esse é um livro ilustrado. A minha história é traçada por essas imagens. São elas que contam quem eu sou", descreve Gilson, que ainda ressalta: " "Viajando" é voltado para pesquisa de interessados por moda e instituições de ensino". A introdução é de Kátia Castilho, importante socióloga e estudiosa do comportamento de moda. É dela a introdução do livro.
Desde as primeiras bolsas e necessaires, o trabalho de Gilson Martins era dar aos materiais uma utilização diferente das usuais. Então, tolaha emborrachada de mesa virava mochila estilizada, mangueira servia de pés para minibolsas esculturas e o que mais fosse preciso.
Aos 17 anos, o carioca Gilson entrou para a Escola de Belas Artes da UFRJ. Ali começava o que nem ele previa: uma história de sucesso. Depois de rasgar sua mochila de nylon pela terceira vez - que andava cheia de livros, réguas e cadernos de desenho o dia inteiro - ele resolveu fazer uma própria, que aguentasse melhor sua rotina. "Meu pai era estofador e estava fazendo umas poltronas de piscina. Ele me deu algumas sobras da lona e eu criei a minha primeira mochila. Ainda sem saber o que isso ia desencadear", conta o designer. Nos corredores da faculdade, o acessório chamava atenção dos amigos, que começaram as encomendas. "E cada cliente que eu ganhava, me trazia outros . Eram mães, cunhadas, primas, amigas, e não parou por aí", relembra. Esse foi o primeiro passo. Professores e amigos de faculdade lhes contavam suas necessidades e, em cima disso, Gilson criava porta-lápis de cor para os estudantes de desenho, pastas-potifólio utilizadas por alunos de arquitetura... "Fomos criando juntos", completa ele.
"VOCÊ SÓ APRENDE A AMAR AS COISAS E AS PESSOAS EXERCITANDO AS COISAS E AS PESSOAS" - (reflete o designer contando que aprendeu a amar o que fazia, aquilo que o surpreendia mais a cada dia).
"A partir da faculdade, eu comecei a criar uma identidade", diz. Além da funcionalidade característica do seu trabalho, Gilson queria promover o plástico à categoria do luxo, pensamento que não existia nos anos 80, apesar de usual hoje. "Eu comprava o material, costurava - como aprendera com o pai, na infância - e depois saia com minhas bolsas para vender em faculdades do Rio." Foi assim que chegou à Puc, onde apresentou um projeto que agradou os reitores da Universidade e montou a primeira loja 'Pilotis', no Campus. Lá desenvolvia adesivos, camisetas, cadernos, pastas, estojos e tudo mais que pudesse atender os alunos, todos com o brasão da Puc e nomes dos cursos. (A loja existe até hoje e mantém as mesmas características, mas com outro dono.) Apartir de 1983, o designer começou a fornecer para algumas marcas da cidade, como Company, Fabricatto, Blue Man, Shop 126, Yes Basil, entre outras. "Eram lojas de vanguarda, que ditavam o que as pessoas tinham que usar para romper com o padrão vigente e trair a tradição. Elas me ajudaram a criar uma coisa nova", conta. Foi difícil convencer alguns, mas como aquilo era muito novo e diferente e o mundo sempre busca inovação, Gilson teve sucesso. "Meu sonho era ter a minha própria marca. Criando para outras, não podia assinar meu nome", lembra ele. Econseguiu. Montou a primeira loja em Ipanema - pois sempre foi sua vontade - e de lá para cá, deslanchou.
"COMO QUALQUER UM, CLARO, PASSEI POR DIFICULDADES. MAS INSISTI. AFINAL, SE FOSSE TUDO FÁCIL, NÃO EXISTIRIAM BIOGRAFIAS, CERTO? NÃO EXISTIRIA ESSE LIVRO. POIS QUEM IRIA QUERER LER UMA HISTÓRIA QUE NÃO TEVE DESAFIOS?", conclui.


