Há uns dez anos, 11 anos, eu tinha um CD-Player portátil e trabalhava aqui no Dia (bom, hoje eu tenho um CD-player portátil meio quebrado e voltei a trabalhar na Rua do Riachuelo). Vinha pro trabalho de ônibus dia sim, outro também (ei, isso ainda acontece!). Era a época do 'Roots', o último grunhido from hell que a família Cavalera deu unida antes que o pau cantasse no Sepultura e Max desse adeus ao grupo para formar o Soulfly, enquanto Iggor permanecia firme com as baquetas da banda. No ônibus, eu vinha sacolejando distraído com 'Ratamahatta' e 'Roots Bloody Roots' nos ouvidos, quando senti um cutucão no braço. Olhei e vi que ao meu lado um moleque de 11, 12 anos, gordinho, metido num uniforme de escola, perguntava alguma coisa que eu obviamente não estava ouvindo. Tirei os fones. - Que que foi? - Tá ouvindo o quê aí? - Sepultura. O moleque ficou curioso. - Queisso? - Uma banda de metal. Pesadona. Conhece não? - Metal? Pesadona? Quê? Não tinha jeito. O garoto era um analfabeto metálico. Tirei os fones e passei pra ele. - Ouve aí.
Ele ouviu. Arregalou os olhos, gritou "é barulhento!" mas não tirou os fones do ouvido. Continuou ali um tempo e, a não ser que a minha memória esteja me traindo pra história ficar melhor, eu juro que o gordinho bateu cabeça com o Sepultura ali no ônibus. Depois desci, fui trabalhar e nunca mais vi o moleque. Não sei se ele se tornou um banger ou desceu do ônibus decidido a fundar um grupo de pagode. Mas por que mesmo eu tô contando isso?
Ah, sim. É que os sinais de fumaça em volta do Sepultura estão ficando cada vez maiores. Max Cavalera já havia dito à outracoisa que ele e seu irmão Iggor andam às boas, fermentando a vontade de tocar juntos em um novo projeto, para “mostrar pra molecada cp,p que se faz metal”. Algo entre o punk, o hardcore, o metal, os ritmos industriais e tribais (a.k.a. Sepultura). Pode vir a se chamar Inflikted ou, o mais provável, Cavalera Conspiracy. E há poucos dias, em entrevista a uma rádio alemã, Max voltou à carga e disse que seu plano mais ambicioso é reunir a formação clássica do Sepultura no futuro. Quer começar fazendo as pazes com os ex-companheiros de banda Andreas Kisser (guitarra) e Paulo Júnior (baixo). "Eu penso que talvez eu deva fazer com eles o que Igor fez comigo – ligar para eles um dia e surpreendê-los. Talvez esse seja o melhor jeito de consertar as coisas no Sepultura e quem sabe pode existir algum tipo de reencontro", disse. Será que nossos ouvidos estão em perigo novamente? Tomara.
Acho que não devia ter muita gente achando que isso fosse provável, portanto é ainda mais surpreendente a notícia de que o Eagles voltou a se reunir em estúdio e lança, em outubro, seu primeiro disco de inéditas em 28 anos. O grupo, febre nos anos 70, ainda hoje vende milhões de cópias em todo o mundo, muito por causa de seu hit-símbolo, 'Hotel California', mas não só: o long-play 'Their Greatest Hits 1971-1975' é até hoje o recordista de vendas nos Estados Unidos, com 29 milhões de cópias. O primeiro single (veja abaixo o vídeo) se chama, apropriadamente, 'How Long', e o disco foi batizado 'Long Road Out Of Eden'. Os eagles originais Glen Frey (vocais, guitarra) e Don Henley (vocais, bateria) e os agregados setentistas Joe Walsh (guitarra) e Timothy B. Schmit (baixo) são os mesmos que participaram do último disco da banda, 'The Long Road', de 1979. Engraçado é que, ano passado, outro grande vendedor de discos dos anos 70 voltou à ativa depois de 28 anos afastado. Cat Stevens, que havia se convertido ao Islã há duas décadas, voltou a cantar e lançou, como Yusuf Islam, o belo 'An An Other Cup'. Será que ano que vem outro fantasma vem à tona?
De Monique Gardenberg, dona da Dueto, que ontem anunciou a escalação oficial do Tim Festival (dias 26 e 27 de outubro na Marina da Glória), a respeito das especulações sobre a vinda ao Brasil do duo francês Air. "Chegamos mesmo a fazer o convite, mas um dos dois caras (ela não lembrou qual deles, se o Godin ou o Dunckel) está grávido do sexto (!) filho, e a criança vai nascer no fim de outubro". Segundo ela, isso inviabilizou a vinda dos franceses tanto para este como para o festival do ano que vem. E Monique é uma mulher corajosa. Ela jura que não tem medo de Björk (a diva islandesa poderia mesmo ser o terror de qualquer produtora). "Eu já a trouxe ao Brasil uma vez (em 1996, no falecido Free Jazz). Ela é tranqüilona... se você não fizer nada que a contrarie", contou. Brrrrrr. Björk virá ao Brasil (toca no Rio em 26 de outubro) com o show completo de 'Volta', seu último CD. Trará 10 toneladas de equipamentos e uma equipe de 38 pessoas. Periga ser um show bacana.
E aqui embaixo, o vídeo de 'Colours', do Hot Chip, banda esperta e chegada numa festa, confirmada ontem para se apresentar ao lado do Arctic Monkeys no festival.
Foi o Arnaldo Branco quem lançou a campanha "Não faça como a crítica especializada, não espere dez anos - diga já que Coldplay é uma merda" (já vai um tempinho isso). E parece que a campanha finalmente surtiu efeito. Com conseqüências dolorosas para um sujeito que se arriscou a cantar 'Yellow' num karaokê em Seattle, semana passada. Uma moça, que até então estava tranqüila no seu canto, manguaçando sua dose de jägermeister, revoltou-se quando o cara começou a gemer feito o Chris Martin e partiu para cima dele, dizendo que tanto a música quanto quem a cantava eram... "um saco". Ela estava certa, mas não precisava agredir o rapaz, né?
Antigamente as coisas eram mais difusas. Mas a propaganda e a música pop, estas duas vertentes controvertidas e safadas da Indústria Cultural, sempre foram assim, digamos, como Jagger & Richards. Ou Lennon & McCartney. Ou Roberto & Erasmo, Paulo Coelho & Raul, Strummer & Jones. Quando inspiradas, ou pelo menos de olhos e ouvidos bem abertos ao que está à sua volta, são capazes de produzir pequenas jóias para consumo tanto imediato como espiritual. De um lado: compositores sempre trabalharam sob encomenda. Ao longo da História, glorificaram reis e regimes políticos, religiões e revoluções. Hoje, é tudo mais prosaico: a música glorifica cerveja e banda larga, remédios e velocidade. Em sã consciência ou involuntariamente. De outro: para os publicitários, o advento do rock foi uma verdadeira bênção. Porque o rock, em si mesmo, é um grande vendedor de idéias. E algumas delas, apesar de já terem lá seus 30 ou 50 anos, ainda são um tanto poderosas. Rock é contestação; rock é verdade; rock é simplicidade; rock é energia; rock é confronto; rock é arte; rock é identidade; rock é paz e amor; rock é sexo; rock é revolução. São idéias que a publicidade adora utilizar em sua infinita busca por conceitos, categorização, espaço para as marcas que vende. A força imagética do rock, e da música pop (o outro lado de sua existência bipolar), supera de longe todos os outros gêneros musicais. Lembra do The Clash, em 1992, com aquele comercial da Levi’s que alastrou ‘Should I Stay Or Should I Go’ por todo o planeta? Joe Strummer, Paul Simonon e Mick Jones entraram num patamar extra de popularidade graças a 30 segundos de exibição em horário nobre. Mas há aí um desafio a ser vencido. É preciso provocar uma sensação de cumplicidade na audiência jovem – que é quem compra as calças jeans e os celulares, no fim das contas. Ligar essa audiência como o faria uma canção de três minutos.
E se os caras que tiveram a idéia de usar a música do Clash num anúncio de jeans não planejavam, secreta e justamente, um tributo à banda amada? Isto teria sido (foi?), do ponto de vista das mitologias roqueiras, uma atitude bem rock’n’roll. E um belo trabalho publicitário: captar a atenção da audiência por algo que ela tem de ancestral, o amor à música. Sem contar que dá um prazer especial ouvir mundo livre s/a, Magic Numbers e Mutantes em horário nobre, por 30 segundos. E assistir um comercial do Banco do Brasil com trilha sonora da PELVs, veterana, persistente e talentosa banda do elástico circuito alternativo do Rio. É sempre algo mais.
Mas ao contrário do que muita gente do ramo possa pensar, não, a publicidade em si não tem nada de revolucionária. Revolucionárias são as idéias.
O comercial do Clash:
E o da PELVs. A música é ‘Baby of Macon’, do ultimo disco da banda, ‘Anotherspot’:
Em 1993 e 1994, qualquer um, no mundo todo, poderia ver na TV ou ler nos jornais que estava para acontecer, mas ainda assim foi um choque terrível quando Kurt Cobain estourou os miolos no dia 5 de abril, 13 anos atrás. E são de uma tristeza absoluta os relatos semanais de autodestruição da cantora Amy Winehouse. Um amigo contou ao jornal 'The Sun' que ela anda dizendo que estará morta em um ano. Amy tem apenas 23 anos e um trabalho empolgante e promissor. Kurt Cobain tinha 27 anos e uma obra de reconhecido impacto quando se matou. O cinismo que condenava seus excessos na época era o mesmo que hoje critica a queda pública de Amy Winehouse. Depois da morte de Cobain, o cinismo virou espanto, lamento, homenagem e mitificação. Mas nunca deixou de ser cínico.
PS:Hoje (14/08), o jornal 'The Mirror' conta que Amy e o marido, Blake, estão há três dias numa clínica de reabilitação nos Estados Unidos. 'They tried to make me go to rehab...' e dessa vez ela disse "yes".
As noites roqueira e eletrônica devem um bocado a Tony Wilson. O jornalista, produtor e empresário, que morreu ontem, vítima de câncer, aos 57 anos, não era exatamente uma unanimidade, como a fantasiosa versão de sua história em ‘A Festa Nunca Termina’ (‘24 Hours Party People’) confirma. Sua vida mudou para sempre quando decidiu abraçar o Joy Division, na virada dos anos 70 para os 80. Depois abriu um selo, a Factory, para poder lançar o New Order, a banda que surgiu das cinzas de Ian Curtis (hoje Curtis faz sucesso no cinema e seus ex-companheiros ameaçam brigar na Justiça). E abriu um clube, o Hacienda, para que o New Order pudesse tocar lá. Acabou abrindo também caminho para The Smiths, Stone Roses, Happy Mondays e Oasis – indiretamente, Wilson ajudou a plantar a árvore genealógica de Manchester. Estimulou a música eletrônica, a acid house, os selos independentes, sob a influência romântica do lema punk “faça você mesmo”. Ele fez um monte de coisas. Vou tomar uma cerveja por Tony Wilson. E ouvir ‘Blue Monday’.
Lily Allen é gente como a gente. Ao chegar ao aeroporto de Los Angeles, na noite de segunda-feira, foi revistada, interrogada, trancada numa cela e teve seu visto de entrada nos Estados Unidos cancelado, como se fosse eu, você ou o Gilberto Gil. A cantora inglesa vinha da Austrália para participar de uma etapa do Video Music Awards, da MTV, em Las Vegas, e precisou da ajuda de advogados para ser liberada, cinco horas depois da detenção. O motivo: há alguns meses, a esquentadinha Lily enfiou a bolacha num fotógrafo em Londres e foi presa na ilha da rainha. É por essas e outras que o pai da mocinha, o comediante inglês Keith Allen, não vê a menor graça na carreira de popstar da filha. "Ela não pára há um ano e meio", lamentou o pai, em junho. Bom, pelo menos durante algumas horas ela fez uma pausa em Los Angeles.
Brian Wilson sempre foi o mais pirado dos Beach Boys. Paul McCartney era o mais certinho dos Beatles. Ambos queimaram os miolos há quatro décadas numa saudável competição (menos para Wilson) pelo disco mais incrível de todos os tempos. 'Revolver', 'Pet Sounds', 'Sgt. Peppers', 'Smile'... e aí Wilson surtou, John Lennon conheceu Yoko Ono, Paul ficou com ciúmes, os Beatles acabaram, teve a Guerra do Vietnã, o Botafogo ficou 21 anos sem um título etc etc. Bom, o caso é que, cada um à sua maneira, McCartney e Wilson sobreviveram ao século 20. E querem festejar mês que vem os 40 anos do 'Sgt.Peppers'. Segundo o 'Daily Express', de Londres, o beach boy convidou Paul para uma aparição surpresa num dos seis shows que fará na capital inglesa no próximo mês. Para cantar justamente uma ou duas faixas do disco dos Beatles que foi inspirado pelo 'Pet Sounds' ('God Only Knows' é confessadamente a música favorita de Paul). Bem que a duplinha poderia ser convidada, já pensou?, para um dueto de piano e guitarra no Tim Festival. Ia ficar bonito ali no lugar da Juliette Lewis, exterminaria o Killers, congelaria o Arctic Monkeys, acabaria com a força de Cat Power, tornaria a Björk inteligível... tá bom, já parei.
"Um repórter de rock é um jornalista que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para pessoas que não sabem ler." Frank Zappa
One, two, three, four, três acordes, iê-iê-iê. Desde que nasceu com sua proposta "básica", o rock foi associado a quase tudo - em especial a todo tipo de estupidez juvenil. Brian May, no entanto, decidiu provar que, não, astros do rock não são umas bestas quadradas (pelo menos não necessariamente: veja só os irmãos Gallagher). O guitarrista do Queen entregou hoje sua tese de doutorado em astronomia, intitulada 'Velocidade Radial Na Nuvem de Poeira Estelar' (que bem poderia dar título a um single do Pink Floyd), depois de um hiato de três décadas.
Em 1974, ele abandonou os estudos para se dedicar ao Queen. Ano passado, porém, achou que era hora de conclui-la. Após nove meses de pesquisa, entregou a tese no Imperial College de Londres. Dia 23 ele tem exame oral, mas para quem já se apresentou para milhões de pessoas em todo canto ao lado do Freddie Mercury isso não deve ser problema. Se os professores não forem como aqueles do 'The Wall', claro. E May não é um mero diletante: tem diploma de físico e escreveu um livro sobre o Big Bang e a Origem do Universo.