Aí estão fotos do Fresno, NX Zero e Strike, todos premiados pela emissora, para provar. Quem é quem? Ouvindo o som das bandas, também fica difícil dizer de quem é qual música.
A mesmice não é exclusividade das bandas. A falta de imaginação do público também é espantosa. Porque, outra vez, acho que é a terceira seguida, a cantora Pitty, o baterista Japinha (CPM 22) e o baixista Champignon (Revollucionários - com um "ll" à fernando collor de mello) foram escolhidos para a "banda dos sonhos" (sic). Eu voto pela extinção dessa categoria. Até porque, sempre que eles se reúnem pra tocar, o som é um pesadelo.
Os mortos não param de deixar as tumbas e estão cada vez mais perto de nós. Agora mesmo o The Police confirmou show no Maracanã para o dia 8 de dezembro, aniversário de morte de John Lennon. Mas tem alguma coisa muito estranha nesta ressurreição coletiva de ídolos do passado. Cento e vinte milhões de pessoas, uma nação inteira, andaram disputando o direito de (re)ver três quartos do Led Zepellin, no portal do além que será a volta anunciada pela banda. E há quem esteja pagando caro para levar cusparadas geriátricas do ex-Johnny Rotten, em mais uma (re)volta picareta dos Sex Pistols.
Para os rockstars aposentados está tudo certo, é mais grana no bolso para os remédios e umas horinhas de adrenalina pelos velhos tempos.
E para o grande público? Este que só tem as rádios e a TV para guiá-lo na selva da música pop?
Talvez um sinal de esgotamento desta programação xarope das rádios?
Ouça (ou não) o Sean Kingston, gorducho imberbe que lamenta em freqüência modulada o fora que ainda nem levou das meninas que ele não pegou (porque é prego), e diz, numa levadinha prozaquiana, já pensar em “suicídio, suicídio”. Por que, alguém me explica?
E a MTV Hits, dedicada emissora de novos clipes? Durante o dia, alternam-se vídeos de rappers marrentos com participação de moças-cachorras rebolativas e vídeos de moças-cachorras rebolativas com participação de rappers marrentos. E um ou outro branquelo marrento que choraminga em falsete. É um deserto só de idéias novas. Este hip hop hoje é a música mais careta do universo. E olha que o universo é grande.
Está bom, isto é cíclico. Sempre que algo vai mal, alguém abre um novo caminho na selva. E dá-lhe punk, grunge, britpop, a cena eletrônica, blá-blá-blá. O hip hop também já foi a salvação da lavoura. Mas está na hora de lhe chutarem os fundilhos, não?
O pior é que tem muita gente achando que o único caminho é dar marcha-a-ré rumo aos anos 70 e 80. Literalmente. Por isso, as mega-turnês caça-milhões de Police e demais veteranos são tão bem-sucedidas. Já os Rolling Stones, ao que parece, deram entrada na aposentadoria, agora que Keith Richards não pode nem mais fumar em paz no palco.
E a Madonna, que pretende festejar os 50 anos (meio século, cinco décadas) com uma nova turnê mundial? ‘La Nonna’ World Tour, será?! O negócio anda tão retrô que a saída de Arnaldo Baptista dos Mutantes, fato ocorrido há 30 anos, foi notícia na semana passada.
Fora as limitações de informação impostas pelo padrão global de qualidade, o padrão global de qualidade foi o que garantiu o meu interesse no especial ‘Por Toda a Minha Vida’ sobre o Renato Russo, que terminou agora há pouco. E imagino que para quem tem hoje entre 30 anos e 50 anos não tenha deixado de ser emocionante, de uma ou outra forma, recordar a história.
Eu tinha 14 anos quando vi o primeiro disco da Legião Urbana, na mão de um colega na quadra do Pedro II. O grupo começara a tocar no rádio pouco tempo antes, mas se tornava rapidamente conhecido. Primeiro foi ‘Será’, depois ‘Geração Coca-Cola’ (ou o contrário), e então ‘Ainda É Cedo’, ‘Soldados’, ‘Teorema’, ‘Baader-Meinhof Blues’, mas quando essas estouraram nós já conhecíamos o disco de cor.
Rogério e eu sempre combinávamos que discos comprar com o dinheiro que nosso pai liberava: numa lojinha no Méier, eu comprei o ‘Viva’ do Camisa de Vênus; ele levou pra casa o ‘Legião Urbana’. No encarte do disco havia aquela estranha inscrição em latim, ‘Urbana Legio Omnia Vincit’ (“A Legião Urbana vencerá a tudo e a todos”, traduziu o Dado no programa), além da tradicional mensagem “Força Sempre”. Era bem intrigante. As músicas dançávamos nas festinhas de fim de semana, mas quando começamos a prestar atenção às letras foi que tudo fez sentido.
Durante os dois anos seguintes, aquela foi a banda pela qual eu e todos os garotos e garotas da minha idade nos apaixonamos perdidamente, de uma maneira que só aconteceu novamente, e ainda assim de maneira bem menos intensa, com os Los Hermanos, anos mais tarde. Mas 1985 foi o ano em que o rock se alastrou pelo país. Lá na rua todo mundo foi contagiado. Em 1986 e 1987, era como se as rádios fossem nossas: só tocavam as músicas de que nós gostávamos, e gostávamos muito de ouvir o ‘Dois’ e nos reconhecer nas letras de Renato Russo. As situações que ele descrevia eram todas possibilidades concretas em nossas vidas: dúvida, incompreensão, solidão, sonho, sexo, desejo, tristeza, indignação, poesia, raiva, esperança. Músicas como ‘Tempo Perdido’ e ‘Índios’ tocavam até nossos pais – e aí o troço começou a ficar estranho.
Em 1987, vi um show inesquecível da banda no Maracanazinho. Renato ficou repetindo “se eu cortar minhas veias vai sair tanto saaaanguiii!” sem parar, no meio de ‘Ainda É Cedo’, e algumas pessoas ameaçaram uma vaia. Ele então virou-se para a platéia, e gritou “se eu cortar SUAS veias vai sair tanto saaaaanguiiiii!!!!” e disse isso com tanta violência que parte do público sentiu-se ofendida, enquanto a outra parte urrava de cumplicidade.
Depois parecia que era moda gostar da Legião. Quando a Simone gravou ‘Será’ o negócio já não estava nada bom pro meu gosto. Depois das ‘Quatro Estações’, eu já havia partido em outras direções musicais – mas durante aqueles dois anos a Legião foi uma boa bússola, e apontou vários bons caminhos. Continuei a acompanhar a banda, mesmo de longe, e me reaproximei totalmente dela durante ‘A Tempestade’, que é filosofia, é aula de ética, é manual de sobrevivência, é testamento, é um senhor disco, é um grande livro de poesias.
Quando Renato Russo morreu eu já trabalhava. Era minha primeira encarnação aqui. E todo mundo trabalhou muito naquele dia, e acho que foi um dia bem pesado. Boa parte da redação vira a Legião nascer e crescer, e agora estávamos, de certa forma, enterrando uma pessoa que conhecíamos quase intimamente. Foi triste.
Mas pelo menos restou uma lembrança bem-humorada daquele fechamento: uma estagiária foi enviada ao velório de Renato Russo para entrevistar fãs do cantor, e não voltou mais para a redação. Ninguém soube dela até a hora em que foi vista na TV, em meio a uma rodinha de garotos que tocavam violão, cantando “é preciso amá-á-ar as pessoas como se não houvesse amanhã”. O “ao vivo” do noticiário esclareceu o mistério, a redação caiu na gargalhada – e a menina continuou no velório, cantando as músicas da Legião.
Domingo passado, o ator Bruno Gagliasso, o Ivan de ‘Paraíso Tropical’, revelou, na revista TDB!, seu pensamento sobre o valor da arte. “Invisto principalmente em cultura. Cada peça da minha casa tem assinatura. A dificuldade é que tudo o que tem grande valor artístico é caro, pena que seja assim e ao mesmo tempo é muito bom. Pois quem faz arte merece ser bem remunerado.” Quem faz cerâmica, dá aulas, varre as ruas ou vigia as estrelas também merece, mas isso não acontece. Vem exatamente daí, sem justificar sua existência, o sucesso da pirataria. Ela nasce desta discrepância entre a comercialização da arte, que provoca seguidos impulsos de consumo, e a realização deste desejo. ‘O Bem Amado’, a peça de teatro, custa R$ 80. Um ingresso para ver o Arctic Monkeys ou a Björk no Tim Festival, R$ 180. Um disco do Zeca Pagodinho custa agora menos de R$ 15, mas parece que ainda não é o suficiente. A internet é a válvula de escape de muita gente, mas o CD e o DVD pirata continuam a ser os campeões da imensa maioria do exército dos sem grana. Quem paga a conta são os compositores, os cineastas como José Padilha, do ‘Tropa de Elite’, os exibidores, a Playboy, com todos os seus ensaios ‘vazados’ na rede antes de chegar às bancas. Combater a pirataria? O Gustavo Leão, o Mateus de ‘Paraíso Tropical’, resolveu entrar na briga e vai participar da nova campanha contra a pirataria da ABPD. E confessou um crime pregresso na terça-feira, em entrevista ao Dia D: “Já baixei música na internet porque achei que fosse legal, descobri que em alguns casos é contra a lei e agora compro CDs”. O Gustavo Leão não viu que essas campanhas miram sempre no alvo errado. Criminalizar ou intimidar o cara que compra ou baixa músicas (filmes é outra história) é lembrá-lo de que ele não tem dinheiro para comprar aquele produto, ou é tentar convencê-lo a pagar por algo que pega de graça desde que nasceu. De um jeito ou de outro, dá errado. Mas não há nada de romântico na pirataria. Ela é sinal de atraso, recessão, ignorância e miséria, não de subversão contracultural. E os espertalhões que se aproveitam da pobreza do País para piratear e falsificar, filmes ou carteiras de estudantes, para se dar bem com o trabalho alheio, não percebem que também provocam a inflação dos ingressos de que tanto se queixam. Há tanta diferença assim entre eles e os senadores que, às escuras, não tiveram vergonha o suficiente para fazer o que era certo ontem? Este país somos todos nós. A arte deve ter um valor que as pessoas possam pagar. E temos que aprender a cobrar pelas coisas.
O quarteto Klaxons venceu ontem o Mercury Prize, o prêmio musical mais importante do Reino Unido. O negócio é que a banda é uma piada pronta: seu disco de estréia, 'Myths Of The Near Future', apesar do título espertinho, não vai muito longe nos quesitos que os jurados do prêmio costumam levar em conta: fazer música que acrescente algo de novo a esse universo restrito de acordes e idéias que é o pop rock. Se eles merecem algum mérito é por terem feito o rótulo "new rave", do qual eles próprios são ilustres representantes, colar bonito no vocabulário desta gente sempre ávida por "algo de novo" - jurados do prêmio, inclusive. Mas alguém sabe explicar que diabos exatamente é essa new rave? Porque o disquinho dos moleques, apesar de fluorescente e saltitante, não vai muito além de 'Golden Skans', esta realmente uma música bacana. E nego ainda dá mole pros moleques tirarem onda: o vocalista e baixista Jamie Reynolds disse que eles mereceram o prêmio porque seu disco era "o que mais olhava para a frente". E na frente deles estava o distante ano de 1989. Reynolds disse ainda que o álbum 'Back To Black', de sua concorrente Amy Winehouse, era "retrô" e, por isso, perdeu para seus 'Myths'. Deve ter pesado aí mais o velho moralismo britânico do que uma avaliação sensata do júri do Mercury, já que Amy vai dos suplementos culturais para os tablóides de fofoca e dali para as páginas policiais com uma facilidade incrível. Porque, lado a lado, o disco da moça é incomparavelmente melhor que o dos rapazes. E foi com a respiração em suspenso que a platéia a viu subir ao palco para cantar 'Love Is A Losing Game'. Uma artista de verdade provoca essas coisas.
Meu irmão acabou de descobrir o rock’n’roll / Ele tem 22 e está fora de controle
E olha aqui o Eddie Argos, tirando uma onda com a cara da Miss Ditto. O cara, líder do grupo de rock inglês Art Brut é tipo o Jamelão: um intérprete. Não um intérprete que se pavoneia do bel-canto e trata todo mundo mal. O cara, aliás, praticamente nem canta. Sobre as animadas, retilíneas, talkingheadicas e bififitituicas bases de sua anfetamínica banda, Argos desfia um rosário de infortúnios, auto-ironias e comentários sobre a vida do ser humano médio urbano inteiramente perturbado contemporâneo. Ele avisou assim que chegou à festa, com ‘Formed A Band’, do disco de estréia do grupo, ‘Bang Bang Rock’N’Roll’, de 2005: “Sim, esta é minha voz cantando / Não é ironia / E não é rock’n’roll / Eu só estou falando com os garotos.” Seus shows são como se Jerry Seinfeld tivesse formado uma banda. Argos tirou o bigode depois de descobrir que todo mundo pensava que ele já tinha 40 anos (ele tem 27). E disse que se fosse brigar com todo mundo que não gosta do Art Brut seria um homem exausto. O guitarrista Jasper Future é seu George Costanza, com uma debochada revelação dos segredos da guitarra do novo álbum do grupo, ‘It’s A Bit Complicated’. Argos, um anti-cantor ainda mais radical que David Byrne, escreve sobre a experiência de se ter uma banda de rock nestes tempos cínicos. Ainda inédito – fisicamente – no Brasil, ‘It’s A Bit Complicated’ poderia soar igualmente cínico. Ironicamente, suas músicas são mais verdadeiras, certeiras em suas intenções e na realização, do que aproximadamente 97,4% das bandas que fervilham ou se equivocam entre a new rave e o glitter trash, o eletro rock e o movimento autentic poser, o metal pop e as raves disco shit, o post-crusade, o nothing else, o burnbeatles e outros termos/gêneros/invenções da moda. Enquanto isso, Argos continua debochando de tudo e de todos. Especialmente de si mesmo.
Sabe o que é reclamar de boca cheia? Então veja Beth Ditto, a vocalista da banda inglesa The Gossip. Na foto ao lado, ela ilustra uma capa recente de prestimosa publicação musical freqüentada semanalmente pelo Cansei De Ser Sexy e o Bonde do Rolê, que a elegeu a pessoa mais "cool" de 2006, à frente de marmanjos como Jack White, Thom Yorke e Jarvis Cocker. Ou seja, tá, hmmm, por cima da carne seca. Apesar disso, a moça chorou as pitangas recentemente. Disse que "a indústria" ignora "ícones feministas" em favor de bandas masculinas, como ... os Beatles e os Rolling Stones (!), mesmo que ela ganhe espaço freqüentemente para dizer preciosidades do tipo "minha mentora é Miss Piggy". Na boa: isso é que é dar munição para machistas, misóginos e machistas misóginos. "É como se Patti Smith, Janis Joplin e Etta James nunca tivessem existido", queixou-se Miss Ditto (se bem que não seria nada mal se isso fosse verdade no caso da Janis Joplin). Beatles ou Patti Smith? Stones ou Etta James? Isso não é nem uma discussão, né? Fica o dito pelo não dito.