Fui ver a 'Obra em Progresso' de Caetano Veloso, ontem à noite, no Vivo Rio. É um show simples, simples; quatro tapetes no chão, algumas luzes sobre o palco, Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria) jogando redondinhos e o Caetano com a jaqueta jeans de sempre. Começou com o, disse ele, "transamba profético" Incompatibilidade de Gênios, de João Bosco e Aldir Blanc, e foi embora, experimentando de tudo ali no palco, sem muito compromisso com a perfeição. A graça do show, aliás, é justamente essa informalidade. Jacques Morelenbaum subiu ao palco para o momento Joseph Klimber + Fausto Silva da noite ("este é Jacques Morelenbaum!", "não é mole não!" repetia o baiano, após cada participação do maestro). Jorge Mautner levou seu violino pra festa e a banda se dividiu entre momentos de alegria alegria coletiva (com corinhos para Nosso estranho amor, Cajuína e Um Índio) e audiência compenetrada diante das novas músicas. E vou dizer: 'A Base de Guantánamo' (é isso?) é sensacional. Só indo lá pra ouvir, ou catando no Youtube, quem sabe. A letra é pequena, mas me gustó. Anotei no escuro e mal entendo os garranchos agora, mas é mais ou menos assim:
O fato de os americanos Desrespeitarem os direitos humanos Em solo cubano É por demais forte simbolicamente Para eu não me abalar
(Ah, e o coro coletivo "odeeeeeio você" alivia ressentimentos de toda sorte.)
"Sentimos um leve constrangimento quando gostamos de um compositor famoso", reconhece Oceane, a falsa heroína de Viagem ao fundo da sala, o livro que eu terminei de ler no sábado. Muito engraçado, pontuado por pequenas histórias absurdas e pelas observações cortantes da designer freelancer Oceane, ex-dançarina de uma boate de sexo explícito em Barcelona que se recusa a sair de casa, mesmo quando começa a receber cartas do ex-namorado, morto 10 anos antes. Para isso ela conta com a ajuda de Audley, cobrador de dívidas de métodos extravagantes e que sempre termina com um revólver apontado para si, mesmo quando está em casa sem fazer nada. Mas isso é o livro, que foi escrito pelo inglês Tibor Fischer e lançado no Brasil pela editora Rocco, caso alguém se interesse. O caso aqui é o Weezer.
Como ia dizendo a Oceane, "Sentimos um leve constrangimento quando gostamos de um compositor famoso. Todo mundo gosta, claro. Mas isso parece tão óbvio, tão preguiçoso, tão entediante. sempre surge uma tensão por causa desse gosto. Ninguém quer ser mais um na multidão e mugir no rebanho. É um desejo que contrasta com a vontade de anunciar uma descoberta nova; queremos que os outros compartilhem nosso prazer, mas só até certo ponto. É impossível imaginar que alguém, até quem curte música horrível e obscura, goste de algo e não queira compartilhar isso com outras pessoas. Podemos não querer compartilhar nossa comida e nosso dinheiro, mas sempre queremos compartilhar nossa opinião."
Então, minha gente, por mais óbvio, entediante e preguiçoso que seja, é hora de comemorar o lançamento de mais um disco do Weezer. Principalmente depois de assistir a 'Porks and beans', o vídeo inaugural da fornada.
E quero compartilhar aqui com os amigos minha opinião. O vídeo é uma espécie de 'Most Viewed' da Internet, com citações e participações especiais de astros virtuais: o cara que conta a história da dança, as mãos coreografadas do Daft Punk, o 'leave britney alone', o dublador do South Park, mentos com Coca light. A letra é deboche com esta nossa era dos produtores: se você não sabe a diferença entre Madonna e Nelly Furtado, esta é a sua canção. Os versos são de guerrilha nerd típica, entricheirados numa cova de ironia: "Timbaland knows the way/ To reach the top of the charts/ Maybe if I work with him/ I can perfect the art". 'Porks and beans' homenageia os Originais do Youtube, e declara guerra contra o Império da mesmice. Por isso que eu gosto do Weezer. É uma banda contra tudo isso que está aí. E eu nem ligo que mais gente goste dela. Até acho maneiro.
Enquanto os Los Hermanos mantêm com afinco seu projeto de não fazer nada, Marcelo Camelo arregaçou as manguinhas e foi para o estúdio. Está lá, preparando seu primeiro disco solo, que verá a luz infravermelha dos CD-players no segundo semestre. Para compensar a ausência do Amarante, o Camelo entupiu o disco de convidados: os paulistanos do Hurtmold se espremeram ali com Dominguinhos, Domenico (-2) e Clara Sverner, entre outros vários. Depois que o disco for pra rua, o rapaz vai também. No fim do ano, o Marcelo, como bom Camelo, inicia caravana por este Brazilzão de meu Deus. Enquanto isso, dá para ouvir o que ele anda aprontando aqui. Tem a do assovio e a do violão (essa em parceria com o Oceano Atlântico). Vê se te apetece. Por ora, saudades da Anna Julia. Mas há que ir em frente.
Aí o clipe de Violet Hill, primeiro de 'Viva La Vida' (Loca?), novo disco do Coldplay. É, de longe, a música mais "macha" que a turma do Chris Martin já fez, apesar da capa do referido CD apontar em outra direção. Tem umas guitarras que falam (mais ou menos) alto e uma pegada mais potente que a média de baladas llorosas da banda. Ainda assim, perceba, tudo é relativo. De cara, não faz feio, mas tem potencial para encher o saco daqui a um tempo - bem, esse é o Coldplay. E o clipe é um clipe uns caras chatos querendo disfarçar a própria chatice. Não sei por que, me lembrei agora de um certo cantor de reggae...
Esqueça a Julia Baird, do post aí embaixo, e sua versão da vida familiar de John Lennon. A boa mesmo é essa aqui:
John Lennon direto do além! Não sei em que buraco seboso o irmão da Carol encontrou isso, mas o livro é, com trocadilho, um achado.
'Paz, Afinal' afirma ser um compêndio do pensamento morto do beatle, que três dias depois de assassinado entrou em contato com o "clariaudiente" Jason Leen. "Desde que nasci sou clariaudiente - uma palavra que denota a capacidade de ouvir sons originados à distância, ou além da escala normal humana", explica o Gasparetto auditivo.
Lennon contou coisas a Leen. Ouça essa: "Sabe quando, às vezes, você sente que algo está errado mas resolve ignorar? É assim que eu me senti naquela noite quando saí da limusine e caminhei na direção do Dakota". E também: "Enquanto flutuava perto do teto, pude ver um homem deitado no chão numa poça de sangue. Era eu." E que tal: "Quando percebi o desprendimento de meu corpo físico, eu sabia que estava morto."
'Paz, Afinal' fala também do encontro com sua mãe, Julia, no Além, além (opa!) de trazer novas letras do falecido músico. Dava para fazer um compacto simples com 'Ethereal Kiss' (Beijo Cósmico) e 'Fountain of Light (Fonte de Luz). Ou não, como diria o Ringo.
Sem contar a surpresa final: uma entrevista exclusiva de Lennon, direto do Éter, ao clariaudiente Leen. Nela, o beatle morto informa que pode ver o nosso futuro (no plano físico, vejam bem) e avisa: "Ainda sou um músico". E aqui vai um trechinho para matar (epa!) os beatlemaníacos de saudade: JASON: Como você se sente, agora, em relação a Yoko? JOHN: Ainda fico muito emocionado quando penso nela, portanto não direi muita coisa desta vez. Só quero dizer o seguinte: eu te amo, Yoko.
"E se me mandarem embora, são 30 anos de serviço, mais 40 por cento de fundo de garantia: compro mais um apartamento, pego um avião e me mando pra Liverpool, onde o sonho começou. Goodbye."
Este foi o Natal, veterano repórter de polícia aqui do jornal, louco por Beatles e Barão Vermelho, não sei exatamente em que ordem. Também não sei qual o motivo da frase bombástica, mas ele acabou de proferi-la, dedo em riste, para delírio do pessoal aqui na editoria. Senti falta de aplausos. (Teve uma vez que um outro repórter de outro jornal, que por coincidência tem Noel no sobrenome, ligou pra sala de escuta da redação, habitat natural do Natal, que bateu o telefone na cara do sujeito depois que este se apresentou. "Vai tirar sarro do nome dos outros na **********!!!")
Mas, bem, se o Natal quer ir para Liverpool "atrás do sonho", recomendo a ele a leitura de 'Imagine'. Escrito por Julia Baird, o livro tem um comprido subtítulo: 'Crescendo com o meu irmão John Lennon'. Certeza de que o Natal vai gostar.
Depois de ver a mãe ser descascada décadas a fio em centenas de biografias, reportagens e documentários, a moça decidiu que deveria contar a história como ela a viu. Daí que, ao longo das sofridas 326 páginas do livro, ela informa que:
1) A mãe de Lennon (que também se chamava Julia) não era incompetente nem descuidada, nem abandonou o filho aos cuidados da abnegada tia Mimi; 2) Tia Mimi não era assim tão boazinha (na verdade, Julia diz que ela fez de tudo para dificultar a vida de sua mãe, e logo, das irmãs de Lennon); tanto que suas últimas palavras teriam sido: "Fui tão má". 3) Lennon teve uma irmã bastarda, Ingrid (ou Victoria), mas morreu sem ter noção da sua existência;
O livro revela muitos detalhes do aprendizado musical de Lennon, mostra outros ângulos de seu encontro com Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, e não poupa críticas às egotrips do irmão famoso. Ela não esconde, por exemplo, o constrangimento sobre o 'Bed-in', a semana "pela paz" que Lennon passou na cama com Yoko em 1969. Dá para entender. Julia Baird só não muda mesmo a visão que o planeta tem da japonesa. Aliás, não muda nada. Não, minha gente, não é fácil ser irmã de um Beatle. Mas é mais difícil ser cunhada da Yoko.