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Ricardo Calazans

Quinta-feira, 28 Agosto, 2008

D2 DESABAFA

Diz o Otávio que o Lobão se mudou para São Paulo porque aqui no Rio ele já estava falando pras paredes há um tempo. Verborragia com zero de repercussão = emprego na MTV. Maldade. Mas o Otávio é assim, meio ranzinzão. Ele diz também que o Marcelo D2 faz sucesso em São Paulo porque lá só tem rapper sem (jogo de) cintura, mano-das-quebrada-firmeza-é-nóis-tá-ligado? Diante do mau humor crônico e do moralismo quase luterano dos Racionais, o flow do carioca deixa os paulistanos desconcertados. D2 está bem perto de lançar 'A Arte do Barulho', seu novo CD, mas já está rolando "na faixa" a faixa de trabalho do disco, 'Desabafo'. De cara, ele garimpou um sampler esperto de 'Deixa Eu Dizer', música de Ivan Lins na voz (acho) da cantora Cláudia: "Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar". Em seguida, 'desabafa' na maciota e provoca com verve o samba 'de raiz' ("raiz sem alma é triste"), o olho por olho, dente por dente que virou a política de segurança do Rio ("o Estado não tem direito de matar ninguém/ Aqui não tem pena de morte, mas segue o pensamento/ O desejo de matar de um Capitão Nascimento") e o culto acéfalo às celebridades ("Celebridade é artista/ Artista que não faz arte"). É a música mais provocativa que D2 canta desde o Planet Hemp. O fato de ele ter ambientado o clipe em São Paulo também só pode ser provocação. O cara sabe, como ele mesmo diz, "fazer barulho". Ó o clipe:

Marcelo D2 - Desabafo

Quarta-feira, 27 Agosto, 2008

CAIA NA LAMA

Reprodução

Era para ser uma tese de doutorado, mas para quê se limitar a uma publicação acadêmica, se dá para espalhar a prosa para mais gente ver, não é mesmo? 'A lama, a parabólica e a rede' vai por aí. De tese acadêmica tornou-se um divertido curta-metragem, primeiro da dupla Rejane Calazans e Clarisse Vianna, repleto de depoimentos de gente que fez e /ou viu nascer o movimento mangue beat. Que não era movimento, mas cena, não era beat, mas bit, foi cortado, colado e reinterpretado pela(s) mídia(s) e acabou servindo, ainda que por caminhos tortos, aos propósitos do grupo que fez Recife e Olinda ressurgirem da lama em 1993/94. O curta é uma brincadeira sobre discurso, estrelado por Nação Zumbi, mundo livre s/a, DJ Dolores, Bonsucesso Samba Clube, Carlos Eduardo Miranda, o Roger da Soparia, o espetacular norueguês Silvio Essinger e um ainda mais espetacular taxista de Recife, que diz algo como "Se Deus um dia decidir botar um 'pirce' no mundo vai botar é no Recife, porque isso aqui é o 'imbigo' do planeta".

(((Na verdade, eu tinha um texto mais decente sobre o curta, mas ficou preso no computador lá de casa, abatido mortalmente pelo infame Windows Vista. Quando eu conseguir recuperá-lo, subo ele aqui.)))

Enquanto isso, curiosos e pessoas de bom gosto, compareçam nesta quinta-feira (28 de agosto de 2008) ao Solar de Santa, na Rua Aprazível 39, Santa Teresa. Além de 'A lama, a parabólica e a rede', vocês poderão degustar dois petiscos sonoros refinados: os grupos Eddie e Academia da Berlinda. Recife e Olinda continuam fervendo, com ou sem frevo. O evento faz parte da Embaixada Pernambuco que tomou de assalto o Rio e começa às 18h. Cata R$ 20 no fundo do bolso e vai lá.

Ah, sim, a Rejane é minha irmã.

Quinta-feira, 21 Agosto, 2008

SOU BRASILEIRO, NÃO DESISTO NUNCA

'Por Pouco' é a faixa-título do CD lançado pelo mundo livre s/a em 2000. Trilha sonora involuntária, mas perfeita, para a participação brasileira nas Olimpíadas de Pequim. Casa bem com a derrota para os Estados Unidos na final do futebol feminino. Vê se não tem a ver:

A letra:
POR POUCO
(Fred Zero Quatro/ Goró/ Marcelo Pianinho)
Estamos quase sempre otimistas
Tudo vai dar quase certo
Pois o ano está quase acabando
Depois de termos quase certeza
Que dentro em breve teremos um quase
Alegre carnaval
Por pouco não trouxemos o penta
Quase acertamos na loto
Quase compramos a casa
Quase ganhamos o carro
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá
Quase dá, não dá mole, não
Pro pouco não ganhamos o Oscar
Quase ficamos no emprego
Quase pagamos a dívida
Quase evitamos a falência
A moça da banheira ficou quase nua
A gostosa da praia quase dá, não dá
Quase dá, não dá mole, não
Contribuintes não contam
Torturadores não sentem
Esculturas de lama não morrem
Jornalistas mortos não mentem
Votamos no quase honesto, pois quase confiamos nele
Acabamos de entrar pelo cano
Por pouco não reagimos, quase nos revoltamos
Mas quase confiamos na justiça e na sorte

E a música. Ouça alto:


Segunda-feira, 18 Agosto, 2008

CHEGA DE HOLIDAY

Reprodução

História contada: uma mesa, dois casais, algumas garrafas de vinho. Alguém levantou a bola, que não parou mais de quicar: quem é mais influente na história da música, João Gilberto ou Madonna? A discussão entrou pela madrugada, com troca de ofensas ao bom/mau gosto dos oponentes. Chegaram às vias de fato e a nenhuma conclusão.

ReproduçãoA briga aconteceu há um tempinho, mas pode ter voltado à tona neste fim de semana, em que jornais, TVs e sites se dividiram entre louvores às batidas de João e Madonna. A dele, ao violão, de câmara; a dela, eletrônica, de pista. Os dois andam mesmo festejando: ela, 50 anos de vida, ele, cinco décadas de 'Chega de Saudade'. Ambos foram aplaudidos, adulados, lambidos, jogados para o alto e reverenciados em altares. O problema é que reverenciar qualquer coisa é um saco.

O atraso de João Gilberto para o primeiro dos dois shows que fez em São Paulo foi maior que a apresentação em si. E a platéia, pelo que li, ouviu-o aterrorizada. Ninguém se atreveu a dar um espirro, coçar a garganta, mexer-se na cadeira ou soltar um pum enquanto o homem tocava... 'O Pato'. Meio ridículo, não?

E a Madonna, que ameaça fazer show no Brasil no fim do ano? Para ver o João no Municipal, dia 24, vai ter gente desembolsando R$ 2.100 (mas estudantes milionários poderão fazê-lo pela pechincha de R$ 1.050 - a meia-entrada é realmente uma conquista do cidadão). Mas pelo menos no Municipal dá para ver o cara, seu violão e suas manias de velho. Já a velhota Madonna só vai poder ser vista de um telão no Maracanã, mesmo com ingressos mais baratos. Prefira os videoclipes, seu habitat natural, onde os efeitos especiais a conservam apetitosa forévis. E há sempre a possibilidade de tirar o som da TV.

No fim, os casais beligerantes nem precisavam brigar. Até porque, entre João Gilberto e Madonna, é muito fácil dizer quem é mais influente: nem um, nem outro. Quem manda mesmo são os Beatles. E o Rei.


Quarta-feira, 6 Agosto, 2008

CORTE DE CABELO NOVO

Moptop era o nome do corte de cabelo que os Beatles popularizaram quando ainda usavam terno e gravata. E é também o nome de uma das bandas cariocas mais bacanas que se esfalfam 'pelaí'. O segundo disco dos caras chega às lojas dia 19. Chama 'Como se comportar'. Amanhã devo ouvir pra ver como ficou o negócio. Enquanto isso, ouve aí a música nova. O nome é 'Aonde Quer Chegar?' Bem apropriado para uma banda de rock. Vê se você gosta. Eu achei bacana.


Terça-feira, 5 Agosto, 2008

GILBERTO GIL, 66 ANOS, EX-MINISTRO, FELIZ DA VIDA

Reprodução / André AZ

Imagine que você é um alemão (ou uma alemã). Vai ter show do Gilberto Gil em Berlim. O que você faz? Corre para comprar o seu ingresso, lógico. Lá nas Alemanha, a correria é semelhante, deixa eu ver, a assistir ao Arcade Fire no Tim Festival, ou ao Bob Dylan na longínqua arena de Jacarepaguá. Era essa a vibe dos alemães (concordância é essencial) que lotaram o anfiteatro onde vi o show do então ministro da Cultura, em 2006. Fazer o quê? O cara é um artista reconhecido/cultuado no mundo todo. E show dele não é de se perder. Lá nas Alemanha ele virou o povo do avesso. Os germânicos foram se empolgando, devagarzinho, e no fim tinha gente pendurada no lustre. O problema era, segundo amiga presente ao evento, o cheiro de Alemanha que subiu quando a coisa pegou fogo.

Ainda bem que o brasileiro é um povo mais limpinho. Talvez revigorado pelo pedido de demissão - cinco anos no mesmo emprego é coisa à beça - Gilberto Gil fez um show "para celebrar", segunda-feira à noite, na festa de entrega do 2º Prêmio TDB!, no Vivo Rio. Já livre das obrigações do cargo, celebrou com 15 músicas que combinaram novidades do ótimo 'Banda Larga Cordel' que ele lançou este ano e sucessos perenes de sua própria lavra, para o público fazer corinho e cantar junto. Cinco anos depois de fazer sua dancinha histórica na Unesco, Gil repetiu-a no Aterro do Flamengo, feliz da vida, inteirão aos 66 anos. A sonoridade do show foi igualmente arrebatadora, com três guitarras e programação eletrônica pesando sobre a platéia, enquanto Gil se desdobrava em comentários e reflexões sobre o real ('Tempo Rei', 'Não Tenho Medo da Morte', 'O Oco do Mundo'), o virtual ('Banda Larga Cordel', 'Pela Internet') e o ideal ('Andar Com Fé', 'Kaya N'Gandaya'). Quando cantou 'Aquele Abraço', pareceu festejar a retomada integral da carreira: "Pra você que NÃO me esqueceu, aquele abraço!". Enveredou por suas andanças ao longo do século 21 (os xotes 'Não Grude Não' e 'Despedida de Solteira', o reggae 'Three Litle Birds'), desceu do palco para brincar com o povo em 'Sarará Miolo' e fechou a apresentação com o protesto suingado de 'Nos barracos da cidade'. No refrão ("ôôô, gente estúpida, ôôô gente hipócrita!") uma senhora ao meu lado comentou: "essa é bem pós-ministro". Era mesmo.