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Ricardo Calazans

Quinta-feira, 30 Outubro, 2008

CINTURA DE OVO

"Baranga/ Cheia de marra/ Cintura de ovo/ Pega quem quiser/ Mas tem que chegar!", ensina mestre João Brasil, o homem que não dispensa mulher, em seu hit maior. O sujeito é uma das atrações musicais do Claro Cine, que vai rolar no Jockey Club, mas a questão aqui é outra. Além das barangas, parece que tem um monte de gatinha a fins de chegar no malandro. Ou por que outra razão essas duas aí abaixo usariam esses modelitos estrelados?Sente o drama:

Divulgação
Gwen Stefani

Reprodução
Kate Perry

E agora um pouco mais da filosofia de João Brasil.

Baranga!

Segunda-feira, 27 Outubro, 2008

AS MUSAS DO TIM

Não é por nada não, mas se este Tim Festival serviu para alguma coisa, foi apresentar aos cariocas o inacreditável Har Mar Superstar. Careca-cabeludo, barrigudo e muito, hmmm, sensual, Har Mar fica rebolando e se acariciando enquanto canta 'Sweat Shop', uma das boas músicas do contagiante show do Neon Neon, o grupo paralelo do doidivanas Gruff Rhys, que já esteve por aqui com sua outra banda, o Super Furry Animals. O homem nasceu para ser uma estrela - e daí se ele é feio, baixinho, careca, barrigudo e sem vergonha? Har Mar brilhou ao lado do Neon Neon e depois voltou, só de cuecão, para azucrinar o show do Klaxons. Isso é que é rock'n'roll.

Har-Mar e Neon Neon em ação


Mas, o Har Mar que me desculpe, a grande musa deste festival é a americana achocolatada Esperanza Spalding. Mulheres e contrabaixos são uma mistura apimentada, e a moça fez subir a temperatura do palco jazz na sexta-feira, cantando e fazendo scats enquanto tocava linhas complexas, porém suingadas, de seu(s)instrumento(s) - acústico e elétrico. Veja a foto e diga se a Esperanza não é a primeira que morre.

Ernesto Carriço
Morre fácil!

Menção mais que honrosa para a bela baixista, cantora e presepeira Cate Thimothy, do Neon Neon, que formou uma dupla farofeira perfeita com o onipresente Har Mar Superstar (na véspera, ele também tocou o terror no show do MGMT).

Divulgação / www.timfestival2008.com.br
Cate, do Neon Neon

Roberta Sá também fez bonito e, embora ela seja melhor que a banda que a acompanha (fiquei pensando como seria se ela tocasse com a Parede), fica impossível desgrudar os olhos do palco. Especialmente depois que a Carol me disse que ela inverteu a ordem das coisas: tem bebê que nasce com cara de joelho; ela tem joelhos com cara de bebê. Se liga:

Ernesto Carriço
Roberta Sá

Sábado, 25 Outubro, 2008

THANKS, INTERNET!

O vocalista do The National, a boa banda do Brooklyn que abriu o palco Lab na noite de ontem, no Tim Festival, agradeceu à rede mundial de computadores a boa acolhida que sua música teve no Rio. Para uma banda sem discos (acho) lançados no Brasil, seria praticamente impossível obter reação tão calorosa da platéia há alguns anos.

Divulgação/ www.timfestival2008.com.br
The National

Com a consolidação da cultura de compartilhamento, qualquer grupo pode estar em casa em qualquer canto do planeta - desde, evidentemente, que tenha talento e competência para tanto. Foi o caso do The national, liderado pelo angustiado (pelo menos em cena) vocalista Matt Berninger. A banda, um sexteto com teclados, violinos e ocasionalmente, o reforço de um par de sopros, superou com garra problemas iniciais no som e foi se entrosando com o palco à medida em que tocava a bola. Em 'Squador Victoria', músicos e platéia já estavam bem afinados. E a reação empolgada às boas 'Fake Empire', 'Apartment Story' e 'Mr.November' o fez soltar a frase que dá título ao post.

E ela continuou a fazer sentido no acachapante show do MGMT, o segundo da noite de ontem no Lab. Logo de cara, a banda formada pela dupla Ben Goldwasser (teclados) e Andrew VanWyngarden (vocais, guitarra) pareceu ter estourado algum amplificador e tocaram na companhia de um zumbido insuportável durante as duas primeiras músicas. Mas foram em frente e se acertaram, com doses generosas de psicodelia roqueira, que ora descambava para o metal místico à Led Zeppelin, ora se inclinava para o space rock à Pink Floyd.

Divulgação
MGMT

O show é um apanhado de referências roqueiras, dos solos e da construção das canções aos instrumentos - baixão Rickenbaker, guitarra Gibson, outra Fender e acho que até um Moog no set de Goldwasser. E em diversos momentos, como em 'Electric Feel', 'Time To Pretend' e 'Kids', que encerrou a apresentação, era como se a platéia estivesse diante de hits radiofônicos - todo mundo cantava com o grupo, sem esconder a felicidade. Mas vá girar o dial para tentar ouvi-las...Em Electric Feel, o americano Har Mar Superstar, um careca cabeludo que fará participação no show do Neon Neon hoje, dançou em meio ao grupo como se estivesse em Woodstock. Enquanto isso, no show do Kanye West, pitboys e suas pitgirls queriam cercear o direito a cerveja de um amigo do Reverb. Não por acaso, ele fugiu da sucursal da Baronetti e foi se abrigar em meio ao clima paz e amor da tenda Lab.

Da platéia, eu e meus amigos já passados (alguns bem) dos 30 ficávamos naquela, durante o show do The National: "o cantor lembra o Ian Curtis, do Joy Division", "essa é meio Jesus & Mary Chain", "esse som parece The Cure". Aí o Gustavo ponderou que hoje, tudo lembra alguma coisa em música. e eu pensei nos meninos e meninas de 16 ou 18 anos em sua primeira experiência num show de rock: eles ainda não encontraram Jesus & Mary Chain ou descobriram o Joy Division, mas é bem provável que daqui a pouco façam isso. E daqui a 20 anos talvez sejam eles num show a comentar que a banda no palco lembra The National, MGMT ou Kanye West.

Quer dizer, no caso do Kanye West, só se eles estiverem estiverem assistindo a um desfile do grupo de acesso.

Divulgação
Olha o Kanye aí, gente!

Sexta-feira , 24 Outubro, 2008

TIM FESTIVAL - SONNY E ROSA

A primeira noite do Tim Festival 2008, ontem, teve seu quê de matinê: antes de 1h da madrugada a Marina da Glória já estava para lá de vazia. Sem atrações pop ou DJs no Village, o público se contentou em assistir aos shows de Sonny Rollins e Rosa Passos e ir logo para casa, afinal, hoje ainda é sexta-feira e (quase) todo mundo trabalha. O vazio na área de convivência do festival contrastou com o público que lotou os palcos para ver o veteraníssimo saxofonista e a sofisticada baiana.

Divulgação
Sonny Rollins

Rollins, que tem 78 anos, entrou vestido como diretor de harmonia do Salgueiro, de blusão vermelho, calça e sapatos brancos. Talvez por ser uma das duas únicas atrações da noite, o velhinho reuniu, no palco Stage, o maior espaço do Tim, uma platéia que ia além da tradicional platéia jazzística, o que gerou algumas perguntas e respostas desencontradas:

- O que ele está tocando?, perguntou um rapaz.
- É jazz, respondeu um engraçadinho.
- É sax, disse outro piadista.

Rollins, empolgado, acompanhava os longos solos de seu grupo com uma batuta imaginária e estalar de dedos, enquanto a banda fugia e reencontrava os temas, de baladas como 'In a Sentimental Mood' à mais conhecida 'St. Thomas', que fechou a apresentação de 1h45, tempo suficiente para seis músicas. No fim, animado, Rollins despediu-se com um 'See you again!' ("verei vocês de novo!")

Divulgação
Rosa Passos

Rosa Passos teve a seu favor uma platéia mais concentrada que a do gringo. Dividiu-se entre canções de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Djavan, concedendo, como Rollins, espaços generosos para seu quinteto solar. Dona Rosa brilhou, sozinha no palco com o baixista Paulo Paulelli (melhor que o do americano, por sinal), chamado por ela carinhosamente de Filhote, com versões criativas para as esgarçadinhas 'Águas de Março' e 'O Que é Que a Baiana Tem'. Mereceu os aplausos e merecia de volta as rosas que jogou para o público.

E aí quando ela encerrou seu show o Village já era um deserto. Câmaras de pneus de caminhão boiavam à deriva onde deveria haver burburinho. E como o movimento estava fraco, o lendário Oliveira, dono do melhor cachorro quente da cidade, deixou sua barraquinha um instante e foi ver o fim do show de dona Rosa, com um copinho de uisque na mão. Fez bem, Oliveira.

Terça-feira, 21 Outubro, 2008

SUA MÃE VAI TOCAR PRA TODO MUNDO!

Mas antes que o Pedro Cardoso venha dizer que o título deste post incentiva a pornografia, a explicação: Wagner Moura, o Hamlet de Higienópolis, não fica nessa de ser ou não ser. Está no teatro, na TV, no cinema, nos jornais e nos bailes da vida também, por que não? E tem uma banda de música chamada Sua Mãe, que não faz distinção entre Radiohead e Odair José, brega,chique, Reginaldo Rossi, The Cure...

Reprodução
Olha a cara da Sua Mãe

Ou veja no Claro Cine, versão 3.0 do falecido Open Air, que estará de volta ao lar,. o Jockey Club, com seu telão de 282 metros quadrados, filmes bacanas e atrações musicais idem, entre os dias 19 de novembro e 7 de dezembro. Ao ar livre, que é grande graça do negócio.

E Sua Mãe estará lá, tocando para alegria da rapaziada. Sua Mãe canta "Não me bata de novo com essa corrente/ Amor, dói demais, dói demais, dói demais..." e a gente ri. Sua Mãe pede "Amor, dorme comigo essa noite" e sabe o que acontece? A mulherada aceita. Sua Mãe é muito moderna... Vê lá no myspace.

Sua Mãe - Clóvis

Segunda-feira, 20 Outubro, 2008

MAIS UM QUE SE VAI

Ou mais um que não vem. E o Tim Festival fazendo água...

Reprodução
Goodbye, stangers!


Depois do The Gossip, mais uma deserção na barca do Tim Festival, esta para se lamentar: Paul Weller cancelou as apresentações que faria no Brasil porque um de seus integrantes não teve o visto aprovado para entrar no país. O mais irônico é que o músico barrado, o pianista Andrew John Gonçalves, nasceu... no Brasil! Uma "very unusual situation", disse o empresário de Weller, já que a "nossa legislação não concede vistos de trabalho a cidadãos brasileiros", informou a nota da produção.

Na quarta-feira, 22 de outubro, a organização do evento anunciará a nova configuração do palco Bossa Mod, onde Weller se apresentaria (o outro show é de Marcelo Camelo), e dará as orientações para quem desejar trocar seu ingresso ou receber o dinheiro de volta. Com isso, festival e público perdem a chance de ver um pedaço (bem) vivo da história do rock inglês. Pra compensar, procure por aí o excelente '22 Dreams', um desses discos à moda antiga, com início, meio e fim, que mister Weller lançou este ano e já chegou - fisicamente falando - por essas bandas.

Segunda-feira, 13 Outubro, 2008

SESSÃO ÚNICA

Reprodução

É só amanhã (14/10), só no cine Odeon e só às 21h a exibição de 'Arctic Monkeys at the Apollo', registro da turnê mundial do quarteto inglês, que passou pelo Brasil ano passado. Foi rodado em 16mm e na mixagem ganhou som surround 5.1 - ideal para ver em cinemas com um bom sistema sonoro. Se o filme tiver a mesma energia da apresentação dos moleques, aí então é programa imperdível pra quem gosta de rock. Inglaterra, Bélgica, Luxemburgo e Espanha também assistirão ao filme amanhã - dia 29 ele terá exibições em outras cidades do Brasil, além de Holanda e Alemanha, e só. É bom aproveitar e conferir a sessão de amanhã, ainda mais que custa R$ 10 - mais barato que um ingresso no Festival do Rio. E dia 3 de novembro o filme diz efetivamente a que veio: ganha lançamento em DVD.

Quinta-feira, 9 Outubro, 2008

ENFIM, UMA BOA NOTÍCIA

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Goodbye, strangers!

O The Gossip, da robusta Beth Ditto, cancelou hoje os shows que faria no Tim Festival. A banda alegou um "inesperado conflito de agendas", informou a produção do evento. Melhor para quem já comprou ingressos para os shows do palco 'Novas Raves', que, fora o Gossip, terá Klaxons e Neon Neon. Agora, além de não precisar mais ver a banda da dona Ditto, esse povo ainda vai descolar de grátis ingresso para mais outro palco do festival. Poderá escolher entre 'Brilhando no Escuro' (Kanye West), 'Ponte Brooklyn' (The National e MGMT), 'TIM no TIM' (Instituto), 'Bossa Mod' (Marcelo Camelo e Paul Weller) e 'Itaipava Fest' (Junior Boys, Dan Deacon, Gogol Bordello, Switch, DJ Yoda, Sany Pitbull e Leandro HBL, Música Magneta e Database), ou simplesmente pegar seu dinheiro de volta. Vai por mim: vai ser melhor assim.

Segunda-feira, 6 Outubro, 2008

LISTA

Amiga da Mônica perguntou o que há de novo para se ouvir. Como é que eu vou saber? Hoje, você virtualmente pode ouvir o que quiser. Até entendo que, diante da oferta inesgotável, as pessoas fiquem em dúvida sobre que caminho tomar - e geralmente errem o caminho, acontece muito. Esses, depois, são os que lavam carros aos berros e querem que o mundo ouça com eles a música distorcida de seus celulares. Pensei nisso e decidi que era um dever social indicar à moça algumas trilhas sonoras a se tomar, antes que ela acredite que o NX Zero não é emo ou compre o disco infantil da Ivete Sangalo. De quebra, vai um monte de clipe bacana. Vê aí.

Amsterdam - Peter Bjorn & John (mais uma boa banda que não vem ao Tim Festival)


Metronomy - Heartbreaker (nerd music; muito bom. Essa é a verdadeira vingança dos nerds: ter que reconhecer que o troço é bom)


Momo - Tristeza (de um dos melhores discos do ano, 'Buscador')


Vanguart - Semáforo (a música já é "antiga", mas o clipe é recente e bem esperto)


Vampire Weekend - Oxford Comma (aposto que eles adorariam passar um fim de semana no Rio)


The Last Shadows Puppets - The Standing Next To Me (a melhor música de 1968 feita 40 anos depois)


Clara Nunes - Feira de Mangaio (gosto dessa música não é de hoje)

Quinta-feira, 2 Outubro, 2008

SESSÃO REPRISE - 2

Este aqui é sobre o disco novo do Ed Motta, 'Chapter 9'.

Reprodução

Cariocas até a raiz do cabelo, Lobão e Seu Jorge se mudaram de mala e cuia para São Paulo, não sem antes falarem cobras e lagartos do Rio. Ed Motta também morou lá por quase um ano, período em que gravou, sozinho, as 10 canções de 'Chapter 9', não por acaso o nono disco de sua carreira. Mas o 'exílio' paulistano do artista não guardava nenhum ressentimento contra a Guanabara. Ao contrário, Ed assume uma velha máxima suburbana: você pode até sair da Tijuca, mas a Tijuca não sai nunca de você.

"É verdade", diz ele. "Moro no Jardim Botânico, mas meu coração está na Tijuca. Sou dependente químico do Rio e vejo isso como um misto de admiração e fraqueza. Morei nos Estados Unidos, Inglaterra, São Paulo, mas sempre volto para cá. Espiritualmente, o que o Rio tem a dizer é eterno", derrama-se o cantor, como se derramou também na execução das faixas de seu novo álbum, todas com letras em inglês.

Divulgação / Maurício Valladares

Ed entrou nos estúdios da Trama, a gravadora que lançou seu disco no mundo físico e virtual (quem quiser baixá-lo, gratuitamente, só precisa de alguns cliques no site www.trama.com.br), disposto a gravar uma demo com as bases do que viria a ser 'Chapter 9'. Tocou bateria, baixo, guitarras, percussões, teclados e um vibrafone. João Marcello Bôscoli, diretor da Trama, convenceu-o de que se gravasse de novo, com outros músicos, talvez "perdesse o clima". "Na faixa 1, por exemplo, tudo que se ouve é o primeiro 'take', gravado no primeiro dia no estúdio. Depois, fiquei um tempão só acrescentando uns barulhinhos", conta.

A faixa 1, 'The Man From The Oldest Building', é, por sinal, a única do disco que não tem letra do inglês Robert Gallagher. "A música era do '7 - O Musical' e o Cláudio Botelho (diretor do espetáculo com Charles Möeller) verteu a letra para o inglês", explica. As outras nove vieram, por e-mail, da Inglaterra. "Encontrei esse cara (Robert Gallagher, que pertenceu ao grupo de 'acid jazz' Galliano) duas vezes na vida. Ele me mandou as letras e canta bem pra caramba. Cheguei a pensar em deixar a voz dele no disco", brinca. Difícil imaginar isso num disco de quem se notabilizou como uma das grandes vozes da atual música brasileira.

Seu primeiro disco, 'Ed Motta & Conexão Japeri', dos sucessos 'Manuel', 'Vamos Dançar' e 'Baixo Rio', foi lançado em 1988. Em 20 anos de carreira, Ed Motta circulou por onde quis, indo do funk rasgado aos musicais, do jazz às trilhas de cinema e às pistas de dança, emplacando hits como 'Fora da Lei' e 'Daqui Pro Méier', de seu 'Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins', de 1997. Agora, diante de um disco inteiramente gravado em inglês, que soa cinza e melancólico, ele novamente está à vontade com as próprias escolhas. "Quando eu entro no estúdio, estou sempre empolgado com o material, e claro que não faço um disco para ouvir sozinho. Mas minha necessidade maior é a de ser sincero. E acho que meu público entende isso e me acompanha", aposta.

O capítulo nove da obra de Ed Motta é um passeio pelas inúmeras influências musicais de seu autor. Especialmente, neste caso, do francês Serge Gainsbourg e do americano Scott Walker. "Eles são dois compositores que usam um formato tradicional de canção, mas gravam de forma lisérgica, com sujeiras e timbres angustiantes", explica ele.

'Chapter 9' tem uma certa psicodelia soul '('Twisted Blue'), mas também tintas roqueiras (como a 'ledzeppeliana' 'Tommy's Boy Big Mistake') e funk ('The Runaways' evoca o Stevie Wonder de 'Talking Book'). O encarte, como o disco, transmite uma certa solidão. Ed diz que não. "Melancólico, eu? Não. Mas o disco pedia esse clima", diz. Influência de São Paulo? "Pode ser que sim. Mas foi mesmo por acaso. Morar em São Paulo é como viver fora do Brasil sem sair do País."

SESSÃO REPRISE - 1

Na falta absoluta de tempo, vou postar aqui dois textos que eu publiquei no jornal impresso há pouco tempo. O primeiro sobre 'Ponto Enredo', novo disco de Pedro Luís & A Parede. O outro sobre 'Chapter 9', de Ed Motta. E, em breve, de volta à nossa programação normal.

Reprodução

0 mais original disco de samba (ou "de sambas", como prefere seu compositor) deste ano tem guitarras distorcidas, violão com pedal wah wah, 'space' reco, cavaquinho, 'cavacão', chapa galvanizada...

Depois de seis anos sem álbum de inéditas, Pedro Luís & A Parede acaba de lançar 'Ponto Enredo', saudável batucada poética em tempos de música envernizada.

Divulgação/ Guito Moreto

Curiosamente, o samba sem gesso da Plap remete a discos clássicos de artistas como Martinho da Vila e Clara Nunes. "Esses caras não ficavam enjaulados nesse negócio de 'isso é samba, isso não é', como hoje. Eles faziam música e ponto", defende C.A. Ferrari, um dos tijolos da Parede. Sidon Silva cimenta a discussão. "Clara, Martinho, Roberto Ribeiro, esses caras sempre estão na nossa cabeça." Autor das canções e voz do grupo, Pedro Luís arremata: "E Led Zeppelin também!"

Cruzando santos diversos, da produção de Lenine às guitarras de Léo Saad, novo integrante que enriqueceu de timbres a batucada da Plap, 'Ponto enredo' é um turbilhão de sincretismo. Zeca pagodinho, por exemplo, bateu ponto no partido alto 'Ela Tem a Beleza Que Eu Nunca Sonhei', gravada bem ao seu estilo. "Mandei uma fita com a música para ele estudar. No dia, ele assumiu: 'Pedrinho, não ouvi não, mas eu aprendo rápido'. Tomou uma cerveja e entrou rasgando", recorda Pedro.

Roberta Sá, mulher do compositor, divide com ele os vocais em 'Luz da Nobreza', uma das duas parcerias com Zé Renato. Lenine é co-autor de '4 Horizontes', o paulista Carlos Rennó mandou a letra da pesada 'Repúdio', contundente protesto contra o sistema carcerário brasileiro, e o baiano Roque Ferreira foi parceiro na umbandista 'Mandingo'.

No hiato de seis anos entre 'Zona e Progresso' e 'Ponto Enredo', a Plap fundou o Monobloco, mudou a cara do carnaval de rua do Rio e encontrou Ney Matogrosso, no premiado projeto 'Vagabundo'. Agora, usam o que aprenderam a seu favor. "O tom amarelo do encarte reflete nosso amadurecimento", esclarece Mário Moura.
"É mais simples e maduro. Nos ensaios para o show, os arranjos das novas músicas se encaixam perfeitamente. Das mais antigas, ainda temos que correr atrás", constata Celso Alvim, o último dos batuqueiros da Parede.

Ao vivo, a batucada distorcida deve assustar ainda mais os puristas. A Parede dá de ombros. "Samba é a feijoada. Samba é o ambiente", diz Sidon.