'Por Pouco' é a faixa-título do CD lançado pelo mundo livre s/a em 2000. Trilha sonora involuntária, mas perfeita, para a participação brasileira nas Olimpíadas de Pequim. Casa bem com a derrota para os Estados Unidos na final do futebol feminino. Vê se não tem a ver:
A letra: POR POUCO (Fred Zero Quatro/ Goró/ Marcelo Pianinho) Estamos quase sempre otimistas Tudo vai dar quase certo Pois o ano esta quase acabando Depois de termos quase certeza Que dento em breve teremos um quase Alegre carnaval Por pouco não trouxemos o penta Quase acertamos na loto Quase compramos a casa Quase ganhamos o carro A moça da banheira ficou quase nua A gostosa da praia quase dá, não dá Quase dá, não dá mole, não Pro pouco não ganhamos o Oscar Quase ficamos no emprego Quase pagamos a dívida Quase evitamos a falência A moça da banheira ficou quase nua A gostosa da praia quase dá, não dá Quase dá, não dá mole, não Contribuintes não contam Torturadores não sentem Esculturas de lama não morrem Jornalistas mortos não mentem Votamos no quase honesto, pois quase confiamos nele Acabamos de entrar pelo cano Por pouco não reagimos, quase nos revoltamos Mas quase confiamos na justiça e na sorte
História contada: uma mesa, dois casais, algumas garrafas de vinho. Alguém levantou a bola, que não parou mais de quicar: quem é mais influente na história da música, João Gilberto ou Madonna? A discussão entrou pela madrugada, com troca de ofensas ao bom/mau gosto dos oponentes. Chegaram às vias de fato e a nenhuma conclusão.
A briga aconteceu há um tempinho, mas pode ter voltado à tona neste fim de semana, em que jornais, TVs e sites se dividiram entre louvores às batidas de João e Madonna. A dele, ao violão, de câmara; a dela, eletrônica, de pista. Os dois andam mesmo festejando: ela, 50 anos de vida, ele, cinco décadas de 'Chega de Saudade'. Ambos foram aplaudidos, adulados, lambidos, jogados para o alto e reverenciados em altares. O problema é que reverenciar qualquer coisa é um saco.
O atraso de João Gilberto para o primeiro dos dois shows que fez em São Paulo foi maior que a apresentação em si. E a platéia, pelo que li, ouviu-o aterrorizada. Ninguém se atreveu a dar um espirro, coçar a garganta, mexer-se na cadeira ou soltar um pum enquanto o homem tocava... 'O Pato'. Meio ridículo, não?
E a Madonna, que ameaça fazer show no Brasil no fim do ano? Para ver o João no Municipal, dia 24, vai ter gente desembolsando R$ 2.100 (mas estudantes milionários poderão fazê-lo pela pechincha de R$ 1.050 - a meia-entrada é realmente uma conquista do cidadão). Mas pelo menos no Municipal dá para ver o cara, seu violão e suas manias de velho. Já a velhota Madonna só vai poder ser vista de um telão no Maracanã, mesmo com ingressos mais baratos. Prefira os videoclipes, seu habitat natural, onde os efeitos especiais a conservam apetitosa forévis. E há sempre a possibilidade de tirar o som da TV.
No fim, os casais beligerantes nem precisavam brigar. Até porque, entre João Gilberto e Madonna, é muito fácil dizer quem é mais influente: nem um, nem outro. Quem manda mesmo são os Beatles. E o Rei.
Moptop era o nome do corte de cabelo que os Beatles popularizaram quando ainda usavam terno e gravata. E é também o nome de uma das bandas cariocas mais bacanas que se esfalfam 'pelaí'. O segundo disco dos caras chega às lojas dia 19. Chama 'Como se comportar'. Amanhã devo ouvir pra ver como ficou o negócio. Enquanto isso, ouve aí a música nova. O nome é 'Aonde Quer Chegar?' Bem apropriado para uma banda de rock. Vê se você gosta. Eu achei bacana.
Imagine que você é um alemão (ou uma alemã). Vai ter show do Gilberto Gil em Berlim. O que você faz? Corre para comprar o seu ingresso, lógico. Lá nas Alemanha, a correria é semelhante, deixa eu ver, a assistir ao Arcade Fire no Tim Festival, ou ao Bob Dylan na longínqua arena de Jacarepaguá. Era essa a vibe dos alemães (concordância é essencial) que lotaram o anfiteatro onde vi o show do então ministro da Cultura, em 2006. Fazer o quê? O cara é um artista reconhecido/cultuado no mundo todo. E show dele não é de se perder. Lá nas Alemanha ele virou o povo do avesso. Os germânicos foram se empolgando, devagarzinho, e no fim tinha gente pendurada no lustre. O problema era, segundo amiga presente ao evento, o cheiro de Alemanha que subiu quando a coisa pegou fogo.
Ainda bem que o brasileiro é um povo mais limpinho. Talvez revigorado pelo pedido de demissão - cinco anos no mesmo emprego é coisa à beça - Gilberto Gil fez um show "para celebrar", segunda-feira à noite, na festa de entrega do 2º Prêmio TDB!, no Vivo Rio. Já livre das obrigações do cargo, celebrou com 15 músicas que combinaram novidades do ótimo 'Banda Larga Cordel' que ele lançou este ano e sucessos perenes de sua própria lavra, para o público fazer corinho e cantar junto. Cinco anos depois de fazer sua dancinha histórica na Unesco, Gil repetiu-a no Aterro do Flamengo, feliz da vida, inteirão aos 66 anos. A sonoridade do show foi igualmente arrebatadora, com três guitarras e programação eletrônica pesando sobre a platéia, enquanto Gil se desdobrava em comentários e reflexões sobre o real ('Tempo Rei', 'Não Tenho Medo da Morte', 'O Oco do Mundo'), o virtual ('Banda Larga Cordel', 'Pela Internet') e o ideal ('Andar Com Fé', 'Kaya N'Gandaya'). Quando cantou 'Aquele Abraço', pareceu festejar a retomada integral da carreira: "Pra você que NÃO me esqueceu, aquele abraço!". Enveredou por suas andanças ao longo do século 21 (os xotes 'Não Grude Não' e 'Despedida de Solteira', o reggae 'Three Litle Birds'), desceu do palco para brincar com o povo em 'Sarará Miolo' e fechou a apresentação com o protesto suingado de 'Nos barracos da cidade'. No refrão ("ôôô, gente estúpida, ôôô gente hipócrita!") uma senhora ao meu lado comentou: "essa é bem pós-ministro". Era mesmo.
Até ontem à noite, eu não conhecia quase nada do Muse. Havia visto um número deles no 'Cool Britania', DVD bacana com nome ridículo do Jools Holland. Acho que achei legal, mas não guardei grandes lembranças. Então até pensei que estava no show errado quando os caras subiram ao palco do Vivo Rio. Vou dizer: parecia show dos Los Hermanos! Lugar lotado e a massa roqueira, da gatinha de preto ao senhor de (cabelo) branco, cantando tudo a plenos pulmões, pra ver se do palco o trio inglês ouvia o tamanho da devoção. O grupo, que deve ter freqüentado a escola de rock do Jack Black, é chegado na farofa com conhecimento de causa. Indie demais para ser metal e metal demais para ser indie. Ou, como disse o Marlos, U2 com cacoete de Wolfmother. Ou Duran Duran com Metallica. Ou Radiohead com Kiss. Tudo executado com a manha de quem conduz o baile como quer. E aí teve aquela música cujo refrão dizia "juntos somos invencíveis". Então eu tive certeza de que aquele baixinho ali carcando a guitarra andou ouvindo o Bloco do Eu Sozinho. Vieram a fumaça, os balões gigantes, papel picado sobre a malta e um robozinho fazendo o passo do aleijadinho no telão. E o povo no maior amor, explode coração, maior felicidade. Praticamente uma micareta indie. O âmago da presepada era o baterista:o malandro trocava de chapéu como o Tim Maia de camisa,e ainda inventou uma cartola verde-e-amarela para o bis. Farofa elegante, essa do Muse. Não conhecia, foi um prazer.
Agora, se você quiser algo mais qualificado sobre o Muse... Go To Heaven, go. Foto: Karina Yamane
Sexta à noite, no Cinematèque, Wander Wildner fez um dos melhores shows de Wander Wildner deste ano - o que, vou dizer, não é pouca coisa. Ouvi duas mocinhas (ou quase) na porta do banheiro recordando seu primeiro encontro com o gaúcho, "em 2003, naquele show no (festival) Ruído". Pois digo, com orgulho, embora isso também deponha contra mim, que já vejo shows do cara há mais de uma década - desde que ele lançou suas Baladas Sangrentas, um clássico, subterrâneo, infelizmente, de nosso cancioneiro. E ele é bem mais velho que isso, vem lá dos anos 80, época de surfistas calhordas e corridas espaciais e hippies punks rajneeshs. "Botei prego e tachinha no nariz / Comprei roupa toda preta e uma corrente / Descobri a besteira que eu fiz / Quando você me chamou de indecente", berrava o bardo, difusor do portunhol selvagem das margens do Guaíba às do Tietê e além, enquanto a malta replicante, (a)celerada, trocava cotoveladas em frente ao palco.
Era lançamento de disco novo, 'La Canción Inesperada', coleção de 12 faixas sencillas y sabrosas que o Wander pôs no mundo pelo selo Fora da Lei, e lá estava ele, felizão, tocando várias no show: a espetacular 'Um Bom Motivo' (pra eu não chorar/ Pra não cheirar cola esta noite); 'Bocomocamaleão', autobiografia mutante do artista escrita por Antonio (ex-Toninho) Vileroy e Jimi Joe (presença vintage no palco a bordo de un guitarrón), 'Mares de Cerveja' ('Reconquistar a força pra remar / E navegar em mares de cerveja', um hino, um hino) e outras de que no me acuerdo ahora. Foi começar o show e um cara deu de gritar 'Amigo Punk', da Graforréia, uma das 12 do disco novo. E o cara do meu lado: "toca logo, pra ele calar a boca". Era assim a Cinematèque na sexta à noite - alegria punk brega, "meio Wando meio Wild", sincera e desencanada, nada para se levar a sério demais, nenhuma "piada interna" em debate, zero de "referências cool", "metalinguagem" de nada. Era um monte de músicas bacanas, tocadas com amor pelo Wander, pelo Jimi Joe e por sua cozinha feminina e enfurecida. Me acabei e, pelo que soube, assim o foi com todos os presentes. Recomendo o disco, hein?, um dos melhores manufaturados este ano. Produção da dupla Kassin e Berna Ceppas e participações mui elegantes de Gabriel Muzak, Moreno Veloso, Rodrigo Barba e Jorge Mautner. É música para aquecer coraziones románticos, pero no mucho.
Carl Perkins não sabia contar até quatro. Era “one for the money”, “two for the show”, “three to get ready” e estava muito bom. Elvis também não era nenhum gênio matemático, mas só precisou contar até três para virar Rei.
Blues Suede Shoes - Elvis Presley
Já os Beatles, um tanto mais educados que o caipira Presley, sabiam contar até quatro. Por isso, tornaram-se mais famosos que Jesus Cristo.
The Beatles - I Saw Her Standing There
E os Ramones? Eram quatro e passaram a vida inteira contando até quatro. Vai ver que era para conferir se estava todo mundo no palco. Imagina começar a música sem baterista?
Ramones contando até quatro
A evolução conceitual trazida pelos Ramones foi estabelecida pelo Little Quail & The Mad Birds, ali de Brasília mesmo. Com eles aprendemos que “não tem cinco, não tem seis”. Parou no quatro.
Little Quail - 1,2,3,4
E foi contando até quatro que a canadense Leslie Feist fez a fama e rolou na cama. Há pouco, ela compôs para o Vila Sésamo (Sesame Street) uma deliciosa versão infantil para sua ‘1,2,3,4’ – está entre as mais vistas no Youtube. Atenção: isto vai grudar no seu cérebro. “one, two, three, four monsters walkin’ cross the floor…”
Feist - 1,2,3,4
Mostrei o vídeo para o Antônio. Ele viu e, apesar de já saber contar até “pelo menos” 100, adorou o clipe da Feist. Riu com os monstros, pingüins e galinhas-peruas que contracenam com a cantora e foi escovar os dentes cantarolando ‘one, two,three, four’. Perguntei: “De 1 a 10 que nota você dá pro vídeo?” E ele: “Hmmm... que tal quatro?”
E sem o Jack Black! Adorei esta brincadeira com capas clássicas do roque (e outras nem tanto). Tem Dead Kennedys contra Van Halen, Asia contra Nirvana, AC/CD vs. Def Leppard e todos contra o Coldplay. Minha torcida foi pelo Ozzy, mas, lamentavelmente, mais uma vez ele foi seu próprio pior inimigo.E finalmente entendi porque aquele cara pega fogo na capa do Wish You Were Here. Dica da Carol, que viu a bagaça na, pasmem, infiéis, MTV. Vê aí.
O Adilson é meu camarada praticamente desde que eu comecei a ganhar (?) dinheiro com as letrinhas. Já vimos muito show bacana por aí, apresentamos uma penca de música um pro outro, fizemos um programa de rádio juntos, concordamos e discordamos uma cacetada de vezes sobre os mais variados assuntos. Outra dia ele inaugurou o SambaPunk, blog de nome esperto e conteúdo inteligente, desses que sempre vale a pena visitar. Entrei lá e vi um post sobre o Curumim. E eu já estava mesmo pensando em comentar aqui a faixa Compacto, do disco Japan Pop Show, lançado há pouquinho tempo pelo multiinstrumentista e produtor paulistano. Ia dizer que é a melhor música que o Jorge Ben deixou de fazer nos últimos tempos. Mas já está tudo lá no post do SambaPunk. Você descobre quem é o Curumim e lê sobre os mecanismos de invenção de sua música, na prateleira de referências entre o Jorge Ben e o Turbo Trio, Roberto Carlos e Cidadão Instigado, Beastie Boys e Portishead. Na página do cara no myspace dá pra ouvir Compacto e Magrela Fever, outro hit obrigatório, se o povo ouvisse bem. Vai lá ver.
Heavy Metal Drummer é a faixa de número 7 do Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, até aqui um dos grandes discos da década. O refrão dizia algo como "Eu perdi a minha inocência / Fazendo covers do Kiss". O rock'n'roll, todos sabem, é essa coisa nociva, corrosiva, má influência comprovada para a juventude há cinco décadas. Taí o Coldplay que não nos deixa mentir: vai dizer que aquilo faz bem a alguém? Vejam, por exemplo, o caso da China, esta vetusta potência oriental, que pouco a pouco sucumbe aos apelos sedutores do consumo e troca sua tradicional cultura milenar pelos prazeres descartáveis do capitalismo. A proximidade das Olimpíadas de Pequim só fez aumentar a influência nefasta do Ocidente, que tem no rock um de seus aliados mais irresistíveis. E para desalento dos entusiastas da Revolução Cultural, deve doer como uma agulha debaixo da unha a notícia de que a China já tem a sua banda cover de Kiss. Adeus, inocência. Tudo o que resta é decadência e devassidão.