Rio de Chinelo por Janir Junior

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Sexta-feira , 31 Julho, 2009

Boa viagem, Jorge

Num jingle para uma empresa de aviação, a voz melosa forçada de Seu Jorge diz 'eu quero voar'. Realmente, ele alçou voo em sua carreira, mas a sensação que tenho é de estar em turbulência toda vez que ouço as músicas sempre muito parecidas de Jorge Mário da Silva, 39 anos. Desde o começo do Farofa Carioca, quando era apenas violão e batucada no fim de tarde nas areias de Ipanema, eu tinha contato com o Jorge que virou Seu.

Num pagodão organizado por Ivo Meirelles toda segunda-feira, no extinto Ballroom , lá pelo fim dos anos 90, Seu Jorge ainda amargava a dureza de quem deixou de ser morador de rua para tentar a sorte como músico. Dividíamos cerveja, rolés pelas ruas do Humaitá e calote no ônibus para chegar ao Baixo Gávea, na segunda sem lei. Nos primeiros shows do Farofa, Jorge saudava os amigos que estavam na plateia. Mas o sucesso parece ter feito o cantor voar mais alto do que diz em seu jingle, um 'herói' que poderia ser chamado de 'Super-ego'.

Seu Jorge deixou o Farofa Carioca com divergências com outros integrantes do grupo que não concordavam com algumas de suas posturas. Seu Jorge passou a 'viajar' sem sair do chão. Depois de se mudar para São Paulo, ele deu uma entrevista que beirou o ridículo ao Jornal do Brasil. Algumas das declarações. "Cru é um CD francês, não foi feito para o brasileiro. Não dá para eu tocar isso aqui". Outra: "Fiquei desgostoso, e para morar lá não volto. Não tem cultura, não tem poesia, não tem violão na rua, é triste. O Rio é chopinho e papo furado, pizzaria Guanabara e Baixo Gávea, e todo mundo batendo palma pro pôr-do-sol. Aquela gente é inerte. Se eu fico lá fico igual. O Rio é o foco da luxúria". Toda vez que releio me questiono como é possível a pessoa mudar assim e negar justamente tudo o que ele fazia.

Seu Jorge também foi acusado pelos seus amigos - Ricardo Garcia e Rodrigo Freitas - de plagiar seis músicas. "Carolina", "Tive Razão" e "Chega no Suingue", "Gafieira S/A", "Não têm" e "She Will", foram registradas por Seu Jorge como sendo de sua autoria, o que os dois garantem ser mentira. Jorge fez cinema, Cidade de Deus, filmes no exterior, Casa de Areia. Até garoto propaganda ele foi.

Caso Jorge lesse o post, ele certamente questionaria: "Quem é esse que desanda a falar de mim?". Ele não lembra. Ou não quer lembrar. Afinal, alguns amigos e conhecidos ficaram esquecidos pela estrada. Nesse caminho, Seu Jorge agora canta que quer voar. Boa viagem, Jorge.



Segunda-feira, 27 Julho, 2009

Caneco Gelado do Mário: bagunça da boa em Niterói

Torci o nariz, é verdade. O convite para ir a Niterói não chegou a virar intimação, mas em plena tarde de sábado atravessar a ponte não constava na programação de mais um dia de férias. Mas a programação de férias consiste justamente em não programar nada, sem horário, sem destino. Reclamei, mas no fim não queria voltar e já tomava as dores dos niteroienses que acham ridícula a piada de que a melhor coisa de Nikiti é a vista do Rio.

Depois de muito ouvir falar, conheci o Caneco Gelado do Mário (foto). Botecão, pé-sujo, com não sei quantas pessoas dentro do balcão, um funcionário esbarra no outro, alguém solta um grito, aparecem dois pastéis, bolinho de bacalhau, a cerveja chega bem gelada, o balcão ferve. Na calçada, mesas espalhadas. No salão, um clima mais calmo, mas sem o charme que tem do lado de fora. Além disso, no restaurante, os pedidos demoram a ser atendidos.

No balcão, destaque para o bolinho de bacalhau e o pastel. Na parede, muitas opções de pratos em meio a um fuzuê de letras e pessoas. Fiquei tentado com um arroz, ervilha e camarão. Fica para a próxima vez. Com certeza terá a próxima vez, pela cerveja gelada, por saber que Niterói não se resume ao óbvio Saco de São Francisco e por entender que muitas vezes é preciso seguir os conselhos e aceitar os convites da namorada.

Rua Visconde do Uruguai, 288, loja 5, Niterói - Telefone: 2620-6787



Terça-feira, 21 Julho, 2009

Loki: lição de vida, amor e loucura

Na semana passada, mesmo tardiamente, aproveitei um dia de chuva e o preço do ingresso mais barato para assistir Loki, documentário dirigido por Paulo Henrique Fontenelle que mostra a vida, obra e loucura do grande músico e mutante Arnaldo Baptista.

São 120 minutos de uma lição de vida, amor e loucura. Não necessariamente nessa ordem. Foi bom conhecer um pouco mais do interior que Arnaldo passou a esconder dentro da sua reclusão. A trilha sonora, os registros históricos, tudo parece um flasback, aqui sem qualquer conotação lisérgica. É possível entender que toda piração de Arnaldo começa, passa e é amenizada pelo amor. Primeiro, a desilusão amorosa com sua primeira namorada e grande amor, Rita Lee. O término e a saída de Rita dos Mutantes desequilibram emocionalmente o músico. No documentário, é possível ver o brilho nos olhos de Arnaldo quando fala sobre Rita. Ela, por sua vez, se recusou a dar depoimentos no filme. No mínimo, foi insensível.

Ao mesmo tempo em que abre o coração ao citar Rita, Arnaldo se cala quando o assunto é droga. O mutante viu as cores agudas, decidiu viajar e bater na porta da loucura tomando centenas de ácidos. Os depoimentos dos amigos relatam o mergulho fundo no LSD e até a ideia de Arnaldo construir uma nave espacial. "Qualquer droga que mexe fundo com a consciência não é brincadeira". A frase de Sérgio Dias, irmão de Arnaldo, deveria servir de lição para uma juventude que a cada dia se entope mais de 'doces' em baladas e festa rave.

Os depoimentos de Tom Zé sobre o eterno mutante são loucos e profundos. O empenho de Lucinha Barbosa, mulher de Arnaldo, em tentar trazê-lo de volta à loucura do mundo real é comovente. O filme traz histórias curiosas, engraçadas, o nascimento, morte e ressurreição do Mutantes, e a 'quase morte' de Arnaldo, que depois do fim do grupo e na quarta internação em uma clínica psiquiátrica, decide voar e tentar o suicídio ao se jogar do quarto andar.

Mais uma vez, o amor pela arte, pela música e até pela vida - por mais contraditório que isso possa parecer - salva Arnaldo. Foi aí que tirei a minha lição. A principal terapia de Arnaldo em Juiz de Fora, onde mora, foi a pintura. Eis que me lembro de uma relíquia que ficou para trás na casa da minha mãe em uma das minhas mudanças. Um quadro pintado por Arnaldo, autografado com lápis, como ele costuma fazer. De uma série limitada de 300 quadros, o meu é o de numero 248. O desenho não poderia ser mais adequado. A Balada do Louco, que traz a maior lição: 'louco é quem me diz...e não é feliz'. Será devidamente pendurado na parede de casa.



Domingo, 19 Julho, 2009

São Nunca... mais

Poeta e letrista, Wally Salomão dizia que nossa memória é uma ilha de edição. Alguns momentos dariam um grande final, outros seriam dignos de cortes, e alguns teriam capítulos inusitados, como a missão de ter que conhecer o Pagode do Imperador, em pleno domingo, no Botequim São Nunca, na Barra. A trabalho, é bom frisar, para saber como anda o reino de Adriano nas noitadas cariocas. Sei que de botequim o lugar não tem nada.Depois de uma grande reforma, a casa parece um cubo mágico. Mas, em vez de combinação de cores, uma misturada de tipos.

Marcado para começar às 19h, com caipirinha liberada para a mulherada até às 23h, o negócio só começa a ficar bom - ou seria esquisito - lá para meia-noite, quando o grupo Imperar já está no palco e os gritos de que o Imperador vai chegar ecoam no salão. Mas ele não chegou, para tristeza de dúzias e mais dúzias de mulheres melões, jacas, melancias, uma autêntica salada de frutas. Entre os homens, muito cordão daquele de fazer a pessoa ficar até meio corcunda. O chope é Itaipava, mas bem gelado e que desce bem.

Difícil mesmo de engolir foram os diálogos que refletiam o desejo quase sexual que as mulheres demonstravam para ver Adriano. Saias curtas, calças justas, muita pintura e disposição. No intervalo do pagode, funk, é claro. A noitada mais parece uma aula de sociologia. Cada indício de que o Imperador pode chegar movimenta seguranças, gera proibição de máquinas digitais e burburinho. Dessa vez ele não foi, mas deixou claro que o Pagode do Imperador movimenta quadris e coxas. Se tivesse que fazer uma oração seria São Nunca...mais.



Quinta-feira, 16 Julho, 2009

Bastidores do Chapéu e Babilônia

Moradores, frequentadores e admiradores do Leme não estão em paz e muito menos aceitam as ponderações da Polícia. Segundo as autoridades, na noite de segunda-feira, apenas dois homens armados deram tiros para o alto nas comunidades, correram para a mata e pronto, tudo na maior paz. Mas não foi ­- nem é - bem assim.

Para começar, na noite de sábado, quando acontecia uma festa julina bem no alto do morro da Babilônia, uma saraivada de tiros deixou moradores do bairro incomodados. No posto de policiamento instalado no Chapéu, apenas três policiais estavam presentes. E assustados. Moradores do bairro relatam que a invasão da noite de segunda-feira foi feita por parte do bando que dominava a favela e que, com a chegada da unidade pacificadora, estava refugiado no Pavão-Pavãozinho.



Terça-feira, 14 Julho, 2009

Pavão Azul 2: do outro lado da rua

As obras para abertura do Pavão Azul 2 estão em ritmo acelerado. Em pleno domingão, o pessoal ralava para que o novo botequim seja inaugurado no fim do mês. A casa é pequena, mas teve o espaço muito bem aproveitado, com uma varadinha simpática, bem em frente ao bar de origem, do outro lado da rua Hilário de Gouveia, em Copacabana. Ao contrário do Pavão original, o novo bar terá cozinha. Legal foi ver a precaução com a exaustão do lugar, para que o cliente não saia fedendo a gordura. Um exaustor, com um potente filtro, evitará isso, e também que a fumaça prejudique o meio ambiente. As pataniscas, pastéis, risoto seguirão sendo os pratos principais do cardápio imaginário, já que o bravo Pavão não possue cardápio.



Sexta-feira , 10 Julho, 2009

Bar Luiz: 'o chope é Sol?'

Seria heresia minha fazer qualquer tipo de comentário ou comparação entre o chope Brahma e Sol, que há um tempinho passou a ser servido no Bar Luiz, na Rua da Carioca, Centro do Rio. Vale registrar o esforço dos donos da casa para que o chope venha gelado, bem servido, na meia pressão. Mas a pergunta de um dos frequentadores mostra que é impossível não notar a diferença: 'o chope é Sol?'. É Sol, o salsichão segue ótimo, mas a inscrição na plaquinha perto da porta merece ser revista: o melhor chopp do Rio. Um dia já foi, não é mais.



Terça-feira, 7 Julho, 2009

Comida di Buteco: Academia da Cachaça vence e causa polêmica

Teve chope Brahma, petiscos, donos de alguns dos principais bares do Rio e nova polêmica na festa Saideira, que na noite de segunda-feira divulgou o melhor bar e petisco entre os 30 botequins que participaram do Comida di Buteco. O anúncio da vitória da Academia da Cachaça, na Barra, com a empada de queijo coalho com alecrim, arrancou poucas palmas, deixou muita gente de cara amarrada e mereceu críticas de Rosa, uma das proprietárias do Aconchego Carioca. "Foi mais injusto do que no ano passado. Não participo mais", bradou Rosa, na festa que aconteceu no Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes. A opinião foi compartilhada por grande parte dos participantes.


No ano passado, a vitória do Original do Brás em todas as categorias - petisco, temperatura da bebida e higiene - também gerou insatisfação, apesar de o bar ter feito um belo tira-gosto e incorporado o espírito do festival.


O espaço da festa, bem mais modesto do que o Rio Scenarium, onde rolou a 1ª edição da Saideira, em 2008, quase ficou pequeno para tanta gente, mas a bela noite, sem chuva e com lua cheia, possibilitou que a parte externa externo abrigasse os boêmios do Rio.


Quem também se deu bem na atual edição do Comida di Buteco foi o Petit Pauleti, que ganhou da Elma Chips a premiação de petisco mais original feito com o biscoito Doritos. Paulinho, dono do bar na Praça da Bandeira, terá a receita do Dorilette - carne seca desfiada, cheddar e Doritos - estampada em 1 milhão de embalagens.


O instituto Vox Popoli contabilizou 25 mil votos nas cédulas distribuídas por todas as casas participantes do Comida di Buteco. O crescimento foi de 25% comparado a 2008. "Mais do que um concurso gastronômico, o Comida di Buteco se consolidou como um evento de grandes dimensões, capaz de movimentar economicamente toda cadeia produtiva do setor e gerar maior receita para os estabelecimentos envolvidos que aumentaram o seu faturamento em 20%", afirma Eduardo Maya, um dos responsáveis pelo Comida.


O tira-gosto inscrito por cada boteco teve o peso de 70% no concurso, os demais 30% foram igualmente distribuídos pelos quesitos: melhor atendimento, temperatura da bebida e melhor higiene.


OS VENCEDORES


1º lugar - Academia da Cachaça - Av Armando Lombardi, 800 - 65L - Barra da Tijuca


Petisco - Empada de queijo coalho com alecrim


2º lugar - Original do Brás - Rua Guaporé. 680 Ljs A e B - Brás de Pina


Petisco - Doce Refúgio (Lombinho suíno folhado e versado a tamarineira)


3º lugar - Enchendo linguiça - Av Engenheiro Richard n2 - A - Grajaú


Petisco - linguiça Croc


4º lugar - Varnhagem - Praça Vanhagen, 14A - Maracanã


Petisco - Vaca Atolada


5º lugar - Pavão Azul - Rua Hilário de Gouveia, 71AB - Copacabana


Petisco - Caldinho de feijão temperado


Formado na FACHA, Janir Júnior está no DIA desde 2002, no suplemento esportivo Ataque, além de produzir matérias para as editorias de polícia, cidade e economia. Em fevereiro de 2007, o repórter lançou o blog Rio de Botequins. Um ano depois, foi jurado do festival Comida di Buteco. Carioca de berço e coração, Janir fará do 'Rio de Chinelo' um colunão social e informal da Cidade Maravilhosa.

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