Rio - Com o apoio de policiais militares do 23º Batalhão (Leblon) e a presença de fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), a candidata à Câmara Municipal Ingrid Gerolimich (PT) se encontrou ontem, na Rocinha, com o também candidato a vereador Luiz Cláudio de Oliveira (PSDC), o Claudinho da Academia ou Claudinho da Rua 1. Como O DIA antecipou quinta-feira, a candidatura de Claudinho é investigada pela Polícia Federal, por três delegacias especializadas e pelo TRE por suspeita de ter sofrido interferência do traficante conhecido como Ném, apontado como chefe do tráfico local.
De acordo com as investigações, em reuniões promovidas entre Claudinho, o traficante e lideranças da comunidade, ficou determinado que candidatos a vereador não podem entrar no local para fazer campanha e que moradores estariam proibidos de apoiar outro candidato a vereador que não seja Claudinho.
Ao chegar à Rocinha, Ingrid foi questionada por moradores que apóiam Claudinho sobre o motivo do pedido à PM de apoio para panfletar na comunidade. “No dia 6, primeiro dia de campanha, nosso objetivo era vir à Rocinha. Mas a direção da campanha majoritária mudou a agenda por ter recebido informações de que não era seguro estar aqui. Por isso, mandamos ofício à Secretaria de Segurança Pública para garantirmos a entrada. O objetivo não é só fazer campanha, mas denunciar o que está acontecendo na Rocinha”, disse Ingrid.
Claudinho rebateu: “Era só entar em contato com a associação de moradores. Qualquer um pode entrar aqui. A comunidade fechou com o meu nome para representá-la, mas isso não impede que outros candidatos venham e panfletem”. Ele nega que tenha ligação com o tráfico local e que moradores tenham sofrido ameaças. Sobre reuniões que teriam ocorrido de madrugada, disse que não há limite de horário para encontros.
Para o chefe da fiscalização do TRE, Luiz Fernando Santa Brígida, o indício mais forte de que algo está errado é a ausência de propaganda: “Fiquei extremamente surpreso ao ver que não há uma propaganda sequer na Rocinha, tão disputada por políticos. Em seis eleições, nunca vi isso. Esse fato entrará no relatório e ajudará nas investigações”.
A caminhada de Ingrid pela comunidade foi curta: ela subiu pela Rua da Viapea e foi orientada, por policiais a serviço do TRE, a não seguir pela Estrada da Gávea. “Tive que garantir a integridade dé quem está comigo”, disse a candidata.
SEM-TERRA DÃO ORIENTAÇÃO POLÍTICA NA ROCINHA
Claudinho da Academia e líderes da comunidade estão sendo orientados politicamente pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ano passado, o candidato esteve no Pontal do Paranapanema (SP) a convite do líder nacional do MST, José Rainha.
“Foi para ele conhecer nossas idéias, o modo de vida dos acampados”, disse Rainha sobre o convite. Para Claudinho, a experiência foi extremamente construtiva: “Vi de perto a organização de um povo que luta por direitos. Sem essa conscientização política, não conseguiremos fazer com que o direito que temos à saúde, à educação, às oportunidades sejam cumpridos”. O líder do movimento que luta pela reforma agrária defendeu alianças com comunidades urbanas e criticou a política do Rio. “O Estado não tem que entrar com repressão, mas com a Constituição. O pavor do asfalto é que o morro desça. Mas quando o Estado não sobe, uma hora o morro desce. As pessoas têm força e podem se mobilizar”, avaliou Rainha, que já esteve várias vezes fazendo palestras para líderes da comunidade. “Ele vem aqui sempre que pode e faz palestra para cerca de 70 pessoas na associação de moradores”, conta Claudinho.
“Ajudamos na sua luta pela associação de moradores. Depois o incentivamos a se candidatar. A hora que ele quiser, irei ao Rio e pedirei votos (...) Duvido que ele seja apoiado pelo tráfico”, diz Rainha.
Ligada a Rainha, Niura Maria Antunes, militante do Movimento Sem Terra, presta, em suas próprias palavras, “assessoria em formação política” à comunidade. “O objetivo é a conscientização. Quando houve o assassinato da Agatha (menina morta em operação da PM), não quebramos nada. Fizemos uma manifestação organizada, pacífica e ordeira”, relata a militante.