BRASÍLIA E RIO - Pela primeira vez, um integrante do governo admite a possibilidade de não conseguir aprovar a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 2011. O ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou ontem que já se pensa em um “plano B” para o caso de o Senado não aprovar a CPMF: “Se nós tirarmos 40 bilhões do Orçamento do ano que vem, certamente várias áreas serão prejudicadas, mas o governo está trabalhando o seu plano B”.
Tarso disse a frase no Rio, durante encontro com o prefeito Cesar Maia, que comemorou a declaração. “Tenho que tirar o paletó de prefeito e colocar a camisa do político. O ministro deu uma deixa. É uma boa notícia para nós, da oposição”, afirmou Cesar, filiado ao DEM.
Em Brasília, o presidente interino do Senado, Tião Viana (PT-AC), também não fugiu à realidade e recorreu à matemática. Ele contabilizou que o governo tem apenas 46 votos favoráveis à CPMF, mas precisa de 49 na votação de terça-feira. O senador petista mantém a esperança. “Vamos aguardar. Só o último segundo da apuração do painel eletrônico poderá mostrar quem venceu a disputa”, afirmou. O ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, procurou reforçar a impressão de tranqüilidade: “Os próximos quatro dias estão longe, ainda teremos muitas negociações a fazer”. Ele vai trabalhar hoje, em Brasília, buscando acordos.
O presidente Lula também entrou na discussão. Acusou senadores de oposição de quererem barrar a CPMF para criar uma crise econômica. “Não admitem o sucesso de um torneiro mecânico na Presidência da República”, alegou.
Outros ministros falaram sobre a CPMF ontem. Para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, “votar contra a CPMF significa reduzir completamente gastos em Saúde, Bolsa-Família e Previdência”. No Rio, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, seguiu a mesma argumentação: “É um jogo de tudo ou nada. Sem essa fonte, isso coloca um problema, para mim, insolúvel”, disse. Ao contrário de Tarso Genro, ele garantiu que o governo não tem um plano B, usando as tradicionais metáforas futebolísticas de Lula: “O presidente diz que, quando o Corinthians montou um plano B, foi rebaixado”. Ele recebeu apoio do governador Sérgio Cabral, que o acompanhava em cerimônia. “Tirar R$ 40 bilhões da contabilidade do País pode gerar problemas macroeconômicos, e o mercado financeiro sabe ler”, afirmou Cabral.
Liberação de verba para atrair oposição
Na tentativa de obter os 49 votos necessários à CPMF, o governo sinalizou ontem que deve liberar mais dinheiro para a Saúde. “Quero comunicar aos deputados e ao senador Gilvam Borges (PMDB-AP) que as emendas das bancadas agora vão ser liberadas”, afirmou o presidente Lula, no Amapá.
Com isso, Lula tenta agradar a governadores e prefeitos. E já conseguiu avanços. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), defendeu ontem mais negociação dos tucanos com o governo. “Enquanto houver espaço, devemos conversar”, afirmou. Ele criticou, porém, os ataques de Lula aos opositores da CPMF: “Acirra-se de um lado e acirra-se de outro. É hora de serenidade”.
Outro governador tucano também pregou o diálogo. “Torço por um entendimento, mas não posso prever o que vai acontecer”, disse José Serra, de São Paulo.
Já o DEM espera que seus 14 senadores votem contra a CPMF. No entanto, os matogrossenses Jayme Campos e Jonas Pinheiro podem mudar o voto porque estão sofrendo pressões do governador Blairo Maggi (PR). O presidente do partido, Rodrigo Maia (RJ), reagiu: “Temos todo o respeito pelo governador, mas ele precisava agir de forma diferente”.