São Paulo - A distribuição de folhetos com orientações sobre formas de uso da cocaína e outras drogas causou polêmica ontem em todo o País. A cartilha, distribuída na Feira Cultural GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), evento que antecede a Parada Gay de São Paulo, domingo, traz o logotipo dos programas contra DST/Aids do governo estadual e da Prefeitura de São Paulo, Ministério da Cultura e Embratur. A organização da parada afirma que não incentiva o uso de drogas.
“O material é destinado a usuários de drogas. Ele faz parte da política de redução de danos. Não adianta falar para um usuário de drogas que ele não deve usá-las. Então mostramos como se deve fazer para correr menos riscos”, diz Beto de Jesus, diretor da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
“Para cheirar, prefira um canudo individual a notas de dinheiro”; “Faça uma piteira de papel só para você se for rolar um baseado”; e “Compartilhe a droga, nunca o material de uso” são algumas das orientações.
O material foi criticado pelo delegado do Departamento de Investigações sobre Narcóticos, Wuppslander Neto, que vê incentivo ao uso de drogas. À tarde, a distribuição do panfleto foi suspensa pela associação. Em nota, a entidade diz que o teor da cartilha “está em conformidade com as políticas públicas de redução de danos desenvolvidas nos âmbitos federal, estadual e municipal há mais de 10 anos”.
Ministério: panfletos não incentivam
Nesta sexta, o Programa Nacional de DST/Aids, do Ministério da Saúde, afirmou em nota que os panfletos “em hipótese alguma podem ser considerados como incentivo ao uso de drogas”. Fez ainda a ressalva de que a política de redução de danos “é comprovadamente eficaz do ponto de vista de saúde pública”.
Segundo o órgão, desde que a reduçã de danos passou a ser adotada pelo ministério, em 1994, observa-se forte mudança no perfil da epidemia da Aids no Brasil. Em 1994, 21,4% dos casos de Aids notificados tinham relação com o uso de drogas injetáveis. Em 2006, essa relação foi de 9,8%. No período, o número de casos da doença em usuários de drogas injetáveis caiu 70%.