SÃO PAULO - “Tem 200 mortos aí”. A afirmação feita ontem pelo coronel do Corpo de Bombeiros Manuel Antônio da Silva Araújo ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, no local do acidente, dá a dimensão da maior tragédia da história da aviação brasileira. Segundo ele, é provável que nenhum dos ocupantes do Airbus tenha sobrevivido. O governador José Serra disse que, segundo homens que fazem o resgate das vítimas, a temperatura no avião pode ter chegado a 1.000 graus, o que torna quase impossível a identificação das pessoas.
A aeronave e o prédio ficaram completamente destruídos. Douglas Ferrari, médico da Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva e coordenador de uma das equipes de resgate, disse que viu 25 corpos carbonizados na lateral do prédio. O deputado federal Júlio César Redecker (PSDB-RS) estava no vôo. “Perdi um querido amigo”, disse Serra.
CARBONIZADOS
O parlamentar deixou o aeroporto de Porto Alegre por volta das 16h. De São Paulo, ele embarcaria para os Estados Unidos com o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT).
Há informações de que foram encontrados os corpos de uma mãe e uma criança carbonizados dentro de um carro, que estava no posto de gasolina destruído pela aeronave. As vítimas teriam morrido abraçadas. Às 22h10, o filho do ex-presidente do clube Internacional, Paulo Rogério Amoretty, confirmou que o pai deveria estar no vôo e que a família não tinha notícias dele.
A vinícola Aurora tambm informou que dois funcionários estavam no vôo: Caio Zanotto, diretor superintendente, e Ivalino Bonatto, gerente financeiro. Eles seguiam para São Paulo a trabalho. Outra vítima que estaria no avião seria uma advogada de 32 anos, grávida de quatro meses. Ela e duas outras funcionárias do escritório Edson Freitas Siqueira, com sede em Porto Alegre, iriam a evento em São Paulo.
Todos os grupamentos do Corpo de Bombeiros da região foram deslocados para a operação de resgate, que conta com apoio do helicóptero da Polícia Militar. Vinte médicos especializados também foram acionados para o local do acidente e todos os hospitais da rede estadual estão de prontidão para atender as vítimas.
Peritos do Instituto Médico-Legal trabalham no local, numa tenda montada ao lado dos escombros. O superintendente da Polícia Científica de São Paulo, Celso Perioli, disse que a identificação dos mortos será feita através de exames de DNA e de arcada dentária.
Segundo a Defesa Civil da capital, 27 imóveis próximos ao edifício foram interditados, sob risco de desabamento. As famílias serão encaminhadas para hotéis e as despesas serão arcadas pela TAM.
Testemunhas contam cenas de pavor
Pessoas que testemunharam o acidente descreveram cenas de horror. Robson Caetano Silva, que estava no primeiro andar do prédio atingido, viu duas pessoas se jogarem do terceiro andar.
O analista de desenvolvimento da TAM Fábio Yamashita, 26 anos, deixou o prédio instantes antes da explosão: “Assim que saí, ouvi um forte estrondo. Olhei para trás e vi uma bola de fogo. Senti o calor”. Fábio ligou para um colega que ainda estava no prédio. “Ele perguntou: ‘Por onde você saiu?’ Eu disse para ele procurar a escada. Ele respondeu que ela estava cheia de fumaça. Daí caiu a linha. Não sei se está bem. Ligo e dá caixa postal”.
Outro funcionário da TAM, Valdinei Nascimento Murici também não conseguiu acessar a escada. Pulou do terceiro para o segundo andar e foi resgatado pelos bombeiros. Ele fraturou a clavícula e o quadril, passou por cirurgia e se recupera.
Luiz Santos, 36, estava num carro que, atingido pelo avião, teve a traseira destruída e os vidros estourados: “Eu vi o avião vindo na minha direção. Dava para ouvir o barulho da turbina aumentando e o avião crescendo. Nasci de novo”.
Funcionários do posto atingido pela aeronave ficaram em pânico. “Eu tinha acabado de atender, ouvi um barulho de uma turbina. Meu colega me puxou e a gente saiu correndo sem olhar para trás”, disse o frentista Paulo de Oliveira, 29.
O taxista Paulo Carol, 43, que estava nas proximidades, contou que o estrondo o fez bater a cabeça na direção do veículo. “Na hora pensei: morri. E lembrei da minha filha de 2 anos e 4 meses”.
PORTO ALEGRE: FAMÍLIAS ENTRAM EM CHOQUE
O desespero tomou conta das famílias dos passageiros não só em Congonhas, mas também no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Lá, após 15 minutos de espera por notícias, parentes arrombaram a porta do auditório onde a TAM prometia divulgar informações. Policiais militares foram chamados para controlar a situação. Houve ameaças de depredação ao balcão de atendimento da companhia aérea.
O advogado Roni Menezes da Silva foi um dos que protestaram. “Existe a lista. Forneçam logo, acabem com essa angústia”, implorou Roni, desesperado.
Parentes chegaram a bater com as mãos no balcão da TAM, mas funcionários se limitavam a informar que a empresa prestaria explicações pelo telefone. Em nota, a TAM disse que priorizará a divulgação da lista de mortos e feridos às famílias das vítimas. Os mais exaltados foram contidos por amigos. Alguns foram levados à sala no Centro de Operação Aeroportuária.