São Paulo - Dez minutos antes de o avião da TAM derrapar e explodir, a torre de controle do Aeroporto de Congonhas já havia pedido à Infraero que verificasse a medição do nível de água na pista. A preocupação era com a formação de bolsões ou alagamentos, o que poderia provocar acidentes. Operadores aéreos também teriam recomendado o fechamento da pista.
“Eles avisaram que a pista principal deveria ter sido fechada porque estava sem grooving (ranhuras), mas ninguém no governo quer saber de nada”, reclamou Sérgio Oliveira, presidente da Federação Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo. A pista 35 — reaberta para pousos e decolagens no dia 29 de junho — foi liberada pela Infraero sem as ranhuras, que auxiliam no escoamento da água e na frenagem dos aviões.
Piloto há 20 anos e comandante há 10, Eugênio Schitine, 44 anos, reforçou a preocupação com a ausência das ranhuras: “Falei com um colega que pousou na pista principal de Congonhas na segunda-feira. Ele me disse que escorregou no pouso e que enviou um relatório de perigo à Infraero.”
A Infraero alegou que, por ser período de inverno e tempo seco, não haveria problemas com a falta do grooving, que só deverá ficar pronto no fim de setembro.
Fontes da Infraero no local manifestaram suspeita de falha humana, levando em consideração depoimentos de testemunhas. De acordo com versões, o piloto teria perdido o ponto de contato com a pista e tentado arremeter (desistir do pouso). Técnicos observaram que o avião bateu no chão com a cauda, e não com o bico.
Não foi a primeira vez que as más condições da pista de Congonhas — por onde passam 80% dos vôos do País e circulam quase 50 mil passageiros por dia — facilitaram derrapagens ou acidentes. Na segunda-feira, primeiro dia de chuva constante após a reabertura da pista principal, um avião da empresa Pantanal deslizou e só parou na grama.
O vôo saíra de Araçatuba (SP). Nenhum dos 21 passageiros ficou ferido. Antes da reforma, a pista principal era fechada sempre que chovia, devido ao acúmulo de mais de três milímetros de água.
Os constantes acidentes fizeram com que o Ministério Público Federal entrasse em janeiro com ação pedindo a imediata interdição da pista principal. De março de 2006 a janeiro deste ano, houve quatro derrapagens. A primeira ocorreu em 22 de março e envolveu um avião da BRA. Com 115 passageiros, a aeronave derrapou no piso e por pouco não caiu sobre a Avenida Washington Luís. Não houve feridos.
Cinco meses depois, um avião da Gol com 122 pessoas deslizou na mesma pista e invadiu o gramado. Em outubro, outra derrapagem ocorreu com aeronave que ia de Cuiabá para São Paulo. O avião parou perto da cabeceira. Ninguém ficou ferido.
Em janeiro, Boeing da Varig derrapou depois que o piloto deu uma freada brusca para evitar poça d’água. O incidente ocorreu quando já vigorava norma de suspender pousos e decolagens em Congonhas em caso de chuva.
DEPOIMENTO: RELATÓRIO DE PERIGO
O experiente piloto Eugênio Schitine declarou que o colega com quem conversou disse que a pista principal de Congonhas estava sem as ranhuras para a água escoar (grooving): “No relatório de perigo que enviou à Infraero, ele pediu a suspensão das operações por insegurança. Em seguida, o avião da Pantanal derrapou”.
Com base nestas informações, Schitine disse que o que se pode mesmo imaginar que ocorreu com o Boeing da TAM é que o piloto derrapou, tentou arremeter, mas não conseguiu: “A pista ali é complicada. Se o avião está pesado e a pista, molhada, fica difícil. Um Airbus A-320 com 170 passageiros está lotado. Portanto, pesado”.
Schitine afirmou que, quando têm que arremeter, os pilotos fazem a manobra até atingir uma altura de 300 metros para se livrar dos prédios e depois começam a fazer a curva: “Se o piloto da TAM fez a curva antes, pode ter tido um problema operacional. O que pode ter acontecido é que ele estivesse numa velocidade muito baixa para arremeter”.
O comandante Schitine disse que ainda não pousou na pista principal de Congonhas depois da reforma: “Eles vão fazendo o grooving aos poucos, porque alegam que não pode ser feito assim que o asfalto é colocado, que tem que dar um tempo”.
Ele diz que o maior problema de Congonhas é o tráfego aéreo: “Trabalhamos muito acima do limite. A gente cansa de dizer que vai cair avião aqui. Mas, nesse País, só se conserta a fechadura depois da porta arrombada.”
Schitine não crê em pane no avião da TAM: “O piloto iria para Guarulhos”.