São Paulo - Bilhetes aéreos mais caros e novos transtornos à vista a passageiros. O governo admitiu nesta segunda que as medidas para desafogar o Aeroporto de Congonhas devem elevar o preço das passagens. Em reunião com a equipe de coordenação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que optou pela segurança. “É preciso diminuir os vôos, para que não haja mais conexões. Decidimos que em 90 dias será apresentada a proposta e o local do novo aeroporto de São Paulo”, afirmou Lula. “Não há hipótese de a verdade sobre o acidente (da TAM) não vir à tona”, acrescentou o presidente.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) começa esta semana a cumprir as determinações para reduzir o movimento em Congonhas. Serão autorizados no máximo 33 pousos e decolagens por hora no aeroporto de São Paulo. Também não serão permitidos vôos fretados e charter. A agência acredita que o esvaziamento de Congonhas vai reduzir a oferta de vôos e, conseqüentemente, aumentar o valor das passagens. A Infraero calcula que três milhões de pessoas deixarão de passar por Congonhas por ano.
Parte dos vôos que faziam conexões em Congonhas começou a ser transferida para Guarulhos. Outros irão para Viracopos (Campinas), Confins (Belo Horizonte), Galeão (Rio de Janeiro) e Juscelino Kubistchek (Brasília).
Novo boicote
Temendo novos acidentes, pilotos da TAM, Varig e Gol se recusaram nesta segunda a pousar em Congonhas com a pista molhada. “Sejamos conservadores e afastemos o risco a fim de poupar vidas”, afirmou Carlos Camacho, diretor de Segurança de Vôo do Sindicato Nacional dos Aeronautas. A decisão foi tomada pelos pilotos pois, sob chuva, as condições da pista são consideradas “extremamente críticas”. Ontem, a TAM recalculou o número de vítimas em 199, sendo 187 passageiros. Apenas 66 foram identificados pelo Instituto Médico-Legal (IML).
Além da redução do número de vôos em Congonhas, as medidas também determinam que as aeronaves pousem naquele aeroporto com menos passageiros, para reduzir o peso. O Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac) tem 60 dias para redistribuir os vôos que fazem escalas e conexões em São Paulo.
Pela manhã, os deputados Efraim Filho (DEM-PB) e Marco Maia (PT-RS), da CPI do Apagão Aéreo, se envolveram em saia-justa com a Aeronáutica ao garantir que os pilotos não tentaram arremeter o vôo JJ 3054. Os parlamentares, que estão nos EUA acompanhando a análise das caixas-pretas, afirmaram que os pilotos teriam tentado frear e atribuíram as informações à leitura preliminar do equipamento. No fim da tarde, porém, o Comando da Aeronáutica desmentiu que a análise tenha partido do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos. O órgão está decodificando as duas caixas-pretas do Airbus da TAM, contendo gravações de conversas dos pilotos e o histórico dos comandos do avião.
INFRAERO DIZ QUE PROPOSTA É DE ‘IMBECIS’
Controladores de vôo ficaram revoltados com o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, que chamou de “imbecis” membros da Federação Internacional dos Controladores Aéreos (Ifatca, sigla em inglês). A entidade sugeriu, diante da crise, intervenção internacional no controle do tráfego aéreo brasileiro.
“Imbecil é ele. Um idiota que tem que lavar a boca antes de falar dos controladores”, reagiu indignado Jorge Botelho, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo. O líder dos controladores afirmou que a Ifatca apenas sugeriu que o Brasil aceitasse assessoria internacional. “Não é vergonha alguma aceitar ajuda de órgãos estrangeiros. A própria Agência de Controle de Tráfego Aéreo da Europa já recebeu assessoria da Ifatca”, diz.
Botelho denunciou que controladores estão sendo coagidos a não preencher o relatório de perigo — formulário da Aeronáutica. A força disse que não tem informação sobre o assunto.
Desabamento no aeroporto
Parte do terreno da cabeceira da pista principal de Congonhas desabou nesta segunda. O trecho é o mesmo por onde passou o Airbus A320. Os bombeiros puseram lonas pretas no local para evitar que o deslizamento de terra continue. O incidente ocorreu por volta das 17h50. Segundo a Infraero, ele foi provocado pelo excesso de chuvas. A canaleta de drenagem da pista foi quebrada na passagem do Airbus da TAM e, por causa da perícia que está sendo realizada no local pela Polícia Federal, não pode ser consertada.
O delegado Antônio Barbosa, do 27º Distrito Policial de São Paulo, que também investiga o acidente, recebeu informação de que no dia 15, dois dias antes do acidente, houve pelo menos 10 derrapagens na pista principal, devido à chuva. Ele solicitou à Aeronáutica o livro de ocorrências do aeroporto.
Nesta segunda, a Infraero divulgou relatório parcial do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), do dia 19, com avaliação sobre as condições do asfalto da pista principal. O documento atesta que os valores medidos de atrito revelaram-se acima dos limites mínimos recomendados por órgãos internacionais e nacionais, inclusive para pista molhada. O instituto ressalta que o ensaio não simulou todas as situações.