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12/9/2007 13:52:00

Cabral reforça ameaça de deixar o governo para disputar a Prefeitura

Rio - O governador Sérgio Cabral reafirmou nesta quarta-feira a disposição de renunciar ao cargo para concorrer à Prefeitura do Rio de Janeiro em 2008 caso a aliança eleitoral entre o PMDB e o DEM, articulada pelo prefeito Cesar Maia e pelo ex-governador Anthony Garotinho, vá adiante.

Na terça-feira, Cabral, que já atribuiu, em palestra a universitários, a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, a um “porre mais longo”, ameaçou repetir o ato extremo. Não o porre, mas a renúncia. Ele anunciou que poderia disputar a Prefeitura do Rio para, assim, evitar desgaste com o PT e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Durante a inauguração de 500 casas populares em São Gonçalo, nesta quarta, Cabral reafirmou que não está fazendo ameaça ou brincadeira:

"Quando disse que podia concorrer à prefeitura, não estava brincando. Se for necessário para garantir o bom relacionamento entre o estado e o governo federal, vou fazê-lo. Não sei o porquê de tanta polêmica. Se já deixaram a prefeitura para concorrer ao governo, por que eu não poderia fazer o contrário?", questionou.

O governador alegou, no entanto, que não é o momento para discutir isso: "Só vou me preocupar com isso ano que vem. A hora é de governar, não de tratar de polêmicas que não levam a nada. A população não quer saber de politicagem, mas sim de governo", desabafou.

Ações não condizem com o discurso

As ações do governador não condizem com suas manifestações contrárias ao acordo DEM-PMDB. Cabral se encontrou duas vezes com o prefeito Cesar Maia, que articulou a aliança pelo lado dos democratas. Uma das reuniões foi na Gávea Pequena, a residência oficial do prefeito. O governador também não se movimentou para evitar a aprovação do acordo pelo diretório regional do PMDB, na segunda-feira.

Além disso, Cabral não se incomodou com o fato de o principal articulador da aliança ter sido o presidente da Assembléia do Rio, Jorge Picciani — um de seus aliados mais próximos. O líder do governo na Alerj, Paulo Melo, também teve participação efetiva nas conversas.

EM DEFESA DE PARCERIA

“Eu poderia renunciar. Amo a minha cidade do Rio. O (vice-governador Luiz Fernando) Pezão é um grande administrador. Ele fica no governo do estado e eu saio para prefeito”, explicou Cabral, após solenidade em Campos. “Não posso admitir que o município fique contra o desejo da população, que é a união com os governos federal e estadual”.

Aliados atribuem a irritação de Cabral à participação de seu desafeto político dentro do PMDB, o ex-governador Anthony Garotinho, na fase final das negociações com o DEM. Apesar de não ter se envolvido nas primeiras conversas, Garotinho se apresentou como articulador da aliança e defendeu a tese de que a união dos partidos tinha como objetivo principal fazer uma oposição forte ao PT no estado.

Outro exemplo da mudança da postura de Cabral em relação à aliança está na Casa Civil de seu governo. Em conversa com Cesar Maia, o governador tentou fazer de Régis Fichtner cabeça de chapa em uma eventual candidatura DEM-PMDB no ano que vem. A filiação do secretário e braço-direito de Cabral ao DEM até começou a ser articulada, mas a operação teria sido vetada pelo prefeito e aliados.

Hipótese é vista com descrédito

Nos bastidores, a possibilidade de Sérgio Cabral deixar o governo para concorrer à Prefeitura do Rio, em 2008, para barrar a aliança do PMDB com o DEM é vista com descrédito. “É inusitado um governador renunciar no início do mandato para disputar uma prefeitura”, disse o presidente regional do PT, Alberto Cantalice. “Ele (Cabral) estava brincando”, afirmou o deputado federal Nelson Bornier (PMDB). Segundo o deputado, o governador já havia falado sobre a possibilidade em tom de brincadeira, segunda-feira, em jantar com a bancada do PMDB.

Interessado em manter a aliança de pé, o presidente do DEM, deputado federal Rodrigo Maia, evita polemizar. “Cabral apenas mandou recado de que não fará campanha hostilizando o presidente Lula. É o nosso interesse também, a eleição de 2008 não tem nada a ver com a disputa nacional”, disse ele. O prefeito Cesar Maia bate na mesma tecla: “A eleição é municipal. 2004 é um exemplo. Nada se tratou da esfera federal”, afirmou o prefeito.

Mas há também quem ache que Cabral está fazendo cena para o presidente Lula e o PT, tentando mostrar desconforto com a aliança com o DEM, apesar de não ter feito nada contra o acordo. “Ele é o maior beneficiário. Vai deixar para se decidir no segundo turno”, disse um deputado, pedindo anonimato.

Para Pezão, Cabral falou sério

O vice-governador Luiz Fernando Pezão não tem dúvidas de que Cabral falou sério ao ameaçar deixar o governo para disputar a Prefeitura do Rio, em 2008. Para Pezão, o governador mandou um recado claro, de que “não vai permitir que nada afete o relacionamento dele com o presidente Lula”. “O Rio não pode entrar na contramão de brigar com o governo federal de novo”, disse Pezão. Para ele, ainda é cedo para se discutir alianças de 2008: “As convenções são só em junho”.

Escolhido a dedo, Pezão foi comunicado da decisão ontem pela manhã, durante viagem com Cabral para o interior do estado. Ex-prefeito de Piraí por duas vezes, Pezão assumirá se o governador concretizar a ameaça, com o desafio de não meter os pés pelas mãos.




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