BRASÍLIA - Tranqüilo após a absolvição da acusação de receber dinheiro de um lobista da empreiteira Mendes Júnior, o senador Renan Calheiros (PDMB-AL) embarcou ontem de manhã em avião da Força Aérea Brasileira, com sua mulher, Verônica Calheiros, para viagem de descanso em local não-revelado — provavelmente Maceió (AL) ou Curitiba (PR). Ele volta a Brasília segunda-feira para enfrentar o segundo processo no Conselho de Ética, mas sem a mesma tensão de antes: o relator João Pedro (PT) já deu sinais de que deve propor o arquivamento do processo, alegando que existem “poucos elementos” e que o caso já está sendo investigado pela Câmara, pois envolve o deputado Olavo Calheiros (PMDB-AL), irmão de Renan.
O segundo processo apura se houve favorecimento de Renan à cervejaria Schincariol, que teria sido beneficiada com isenção de dívidas federais em troca de comprar, por preços acima dos de mercado, uma fábrica de refrigerantes da família Calheiros. João Pedro deve apresentar seu relatório terça ou quarta-feira.
As outras duas representações contra Renan podem ser unificadas pelo presidente do Conselho de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO). Alegando que o primeiro processo foi muito demorado, ele pretende consultar os líderes partidários para transformar em uma só representação a denúncia de compra de veículos de comunicação em Alagoas usando nomes de outras pessoas e a denúncia de arrecadação de propinas em ministérios comandados pelo PMDB.
Ontem os líderes da oposição falaram em criar uma ‘presidência paralela do Senado’ para tirar o poder de Renan, pressionando pela sua renúncia ao cargo. Esse grupo de senadores faria reuniões sem o presidente do Senado para definir a pauta da Casa, numa ação complementar ao boicote anunciado quinta-feira.
Lula se irrita com pergunta sobre absolvição
Em visita à Noruega, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se irritou ontem ao ser perguntado por um repórter se o governo havia orientado os senadores do PT a absolver Renan. “Quando eu chegar ao Brasil, terça-feira, você me faça quantas perguntas quiser sobre o Renan, sobre o PT”, respondeu Lula, de braços abertos e balançando a cabeça em sinal de contrariedade. O presidente vai se encontrar com Renan na terça-feira.
Já ministro da Defesa, Nelson Jobim, tentou minimizar o caso, negando instabilidade no Senado. “Houve uma decisão da instituição, democrática. Está encerrado o assunto”, afirmou.
No Centro do Rio, o PSOL fez pela manhã um ato de protesto contra a absolvição, com pizzas e pequenos caixões representando os senadores fluminenses que votaram contra a cassação.
FIM DO VOTO SECRETO COMEÇA A SER DISCUTIDO
O Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que pode acabar com as votações secretas no Senado deve começar a ser analisado semana que vem, e o relator do projeto será o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). “Vamos passar a ser transparentes em todos os momentos aqui no Senado”, disse Paulo Paim (PT-RS), autor do projeto.
A confiança de Paim é justificável, pois a idéia ganhou o apoio de parlamentares que antes defendiam o voto secreto. “Os fatos provaram que eu estava errado”, reconheceu Heráclito Fortes (DEM-PI).
Em março de 2003, Tasso Jereissati e os outros oito senadores do PSDB votaram contra o fim do voto secreto, em projeto de autoria de Tião Viana (PT-AC).