Rio - A Força Aérea Brasileira (FAB) entrou na guerra dos aeroportos participando de uma verdadeira operação resgate dos passageiros da TAM, reféns da falta de aeronaves no País, às vésperas do Natal e do Ano Novo. A companhia aérea anunciou o fretamento de sete aviões, com capacidade para 432 passageiros, em trechos com mais atraso e cancelamento.
O primeiro a decolar ontem foi o Sucatinha, um Boeing 707 que transportava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e trouxe os brasileiros que escaparam do Líbano, em julho. A aeronave partiu de Brasília (DF) com destino a Confins (MG).
Os aviões foram fretados pela TAM, por determinação do presidente Lula. “Quero um diagnóstico diário do que está acontecendo em cada aeroporto. Eu quero a verdade absoluta, para que o povo possa xingar quem é de direito”, avisou.
Além do reforço oficial, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) também pediu ajuda à Varig. De acordo com a assessoria, a companhia já fez um vôo (Santos Dumont-Congonhas), ontem à noite. Pela manhã, a TAM informava que os seis aviões tirados do ar deveriam voltar a circular hoje.
A Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) informou que ontem foi o segundo pior dia nos aeroportos, desde o início da crise — após o acidente com o jato Legacy e o Boeing da Gol, em setembro, que matou 154 pessoas.
Contra as previsões das autoridades na véspera, os aeroportos amanheceram com mais filas e atrasos. Em Brasília, revoltados, 30 passageiros voltaram a invadir a pista. Ontem, dos 1.214 vôos programados, 583 tiveram atraso de mais de uma hora e 40 foram cancelados.
Para tentar conter os efeitos do pessoal amotinado nos aeroportos, a Anac, em comum acordo com a TAM, decidiu suspender a venda de passagens aéreas até amanhã. Para assegurar que os bilhetes não fossem vendidos, funcionários da Anac passaram o dia nos centros de vendas e balcões da TAM.
Pela Internet (www.tam.com.br), não era possível comprar bilhete. O DIA conseguiu reservar um bilhete para o vôo 3041, que partiria às 17h30 do Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), no Rio, com previsão de chegada às 18h25, em Congonhas, São Paulo. A empresa chegou a emitir o código localizador: GWPOCF.
Segundo a TAM, as providências para encerrar as vendas já foram tomadas pelo presidente da empresa, Marco Antônio Bolonha, a pedido do presidente da Anac, Milton Zuanazzi. A agência autorizou ontem o funcionamento de Congonhas, que fecha à 1h, por 24 horas.
Sem informação, sem bagagem e sem rumo
No fim da madrugada, no Rio, houve início de tumulto, quando passageiros prontos para embarcar foram informados que deveriam esperar mais duas horas. Outros que aguardavam há mais tempo ocupariam seus lugares. Policiais militares do posto de policiamento do Batalhão de Turismo (BPTur), funcionários da Infraero e policiais federais contiveram os mais exaltados.
Para agilizar o trabalho no portão de embarque, um policial federal fazia o papel de funcionário da TAM, anunciando vôos e conferindo passagens. Grupo de passageiros do vôo 3350, que chegou ao Rio às 20h de quarta-feira para conexão e seguiria para Maceió (AL), passou mais de 27 horas tentando embarcar. O economista José Júnior Melo, 47 anos, registrou reclamação e pretende processar a empresa: “Não nos dão notícias. Não nos dão satisfação e não nos embarcam. Estou há mais de 24 horas aqui, sem bagagem, sem trocar de roupa. E o pior é que as autoridades nos tratam como se fôssemos os culpados”.
O vendedor Alexsandro Simões, 24, saiu de São Paulo às 20h50 de quinta-feira e deveria chegar a Salvador, na Bahia, às 22h55, mas foi mandado em outro avião para o Rio. Chegou às 23h20 e deveria fazer conexão. “Ia ficar 10 dias lá, mas eles estragaram tudo”, contou.
Ontem, o menino Gabriel Barbosa Machado, 1 ano, que não pôde fazer um transplante de fígado por causa dos atrasos nos vôos no início do mês, perdeu a segunda oportunidade. Desta vez, por uma incompatibilidade com o órgão doado, a cirurgia acabou suspensa.
Setor terá R$ 540 milhões
Entre as medidas anunciadas ontem para solucionar a crise no longo prazo, está a liberação de R$ 540 milhões em investimentos no setor aéreo, previstos no Orçamento 2007 — valor requisitado pelo comandante da Aeronáutica, Luiz Carlos Bueno. Por enquanto, para conter a emergência, a TAM vai destinar um dos Boeings 707 fretado da FAB para o trecho Galeão/Confins/Salvador/Maceió, ida e volta, enquanto outro fará Galeão/Brasília/Galeão e Galeão/Guarulhos/Galeão. Podem transportar 212 passageiros.
Os quatro ERJ 145 da FAB vão percorrer Galeão/Brasília (ida e volta), com 45 pessoas, cada um. O Boeing 737, com 40 assentos, cobrirá o trecho Brasília/Confins.
Os vôos serão 3382 (Galeão/Confins), 3376 (Confins/Salvador/Maceió), 3377 (Maceió/Salvador/Confins), 3383 (Confins/Galeão), 3836 (Galeão/Brasília), 3833 (Brasília/Galeão), 3557 (Galeão/Guarulhos) e 8005 (Guarulhos/Galeão). Uma segunda aeronave, do tipo Boeing 737, foi oferecida pela FAB, mas a TAM ainda não informou se pretende utilizá-la.