Rio - Internautas brasileiros estão usando o site de relacionamentos Orkut para oferecer seus órgãos para venda. Uma jovem de Maceió, de 28 anos, está oferecendo um rim, um pedaço do fígado e até um pulmão por R$ 50 mil cada um, de acordo com uma reportagem veiculada ontem no ‘Jornal da Band’.
De acordo com a moça, ela já chegou a fazer exames para doar um pedaço de fígado. O órgão, no entanto, não era compatível com o do comprador. A oferta pode parecer insana, mas não é a única. Pelo menos outras duas pessoas, em comunidades dedicadas a doações de órgãos, também pretendem vender um de seus rins, mas não especificam um valor para a negociação.
M. alega ter uma ótima saúde e acredita que um de seus órgãos não vai lhe fazer falta no futuro. Ele diz estar precisando do dinheiro para ajudar um amigo. “Infelizmente, tenho uma pessoa muito querida que está passando por dificuldades financeiras e, portanto, gostaria de ajudá-la. Sei que é contra a lei, mas é por uma boa causa. Estarei ajudando duas vidas ao mesmo tempo”, escreveu. Já o outro internauta, que preferiu não se identificar na página virtual, disse não aceitar críticas: “O rim é meu e faço dele o que bem entender”.
Cerca de 66 mil pessoas no Brasil esperam por um transplante. O presidente da Associação dos Renais e Transplantados do Estado do Rio, Gilson Nascimento da Silva, não concorda com a atitude: “Na maioria das vezes, esse tipo de transação não dá certo: o índice de rejeição chega a 85%. A doação é, antes de tudo, um ato de amor e não uma negociata”. A venda de órgãos é ilegal e pode ser punida com até oito anos de prisão.
Médico diz que iniciativa é irresponsável
Membro do Programa de Transplante Hepático do Hospital do Fundão, o médico Eduardo Fernandes acredita que a venda ilegal denigre a imagem do transplante de órgãos.
“Vai contra todo o trabalho que nós desenvolvemos. Há toda uma equipe empenhada na captação de doadores em potencial, e pessoas irresponsáveis jogam por terra o trabalho que fazemos. É muita irresponsabilidade e, pior, aumenta a negativa familiar”, lamenta Eduardo, lembrando ainda que quem não conhece pode pensar que equipes sérias compactuem com este tipo de atitude. “Em alguns momentos, a negativa familiar chega a 50%. É muita coisa.” Gilson Nascimento reclama da má-fé de algumas pessoas. “Já recebi inúmeras propostas na Associação de interessados em ganhar dinheiro através da venda ilegal de órgãos. Nessas horas, sempre pergunto: ‘Quer ajudar? Há inúmeras outras formas’”, afirma.