Élcio Braga (Enviado especial a São Paulo)
Rio - O Papa Bento XVI bateu de frente com os traficantes. Na visita à Fazenda Esperança, em Guaratinguetá, sábado de manhã, ele os advertiu: “Deus vai lhes exigir satisfações. A dignidade humana não pode ser espezinhada desta maneira”, disparou, diante de 1.500 jovens que tiveram problemas com o vício e o tráfico e hoje se recuperam na obra lançada pelo frei alemão Hans Stapel, amigo de longa data de Bento XVI. Satisfeito com os resultados, o Papa doou 100 mil dólares (cerca de R$ 200 mil) ao projeto. Mas só a reforma do complexo para recebê-lo custou R$ 4 milhões.
“Vocês devem ser os embaixadores da esperança! O Brasil possui uma estatística das mais relevantes no que diz respeito à dependência química. E a América Latina não fica atrás. Por isso, digo aos que comercializam a droga que pensem no mal que estão provocando a uma multidão de jovens e de adultos de todos os segmentos da sociedade”, atacou.
O Papa deixou o Seminário Bom Jesus, em Aparecida, onde está hospedado, e chegou de carro pontualmente às 10h30 à sede principal da Fazenda Esperança. Ele inaugurou a Igreja de Santo Antônio de Sant’Anna Galvão e Santa Crecência, logo na entrada da fazenda. Depois, caminhou até o palco da festa. Animadas, as quase 6 mil pessoas o saudaram gritando “Benedito” e cantando hinos.
Relato de jovens emociona
Frei Hans fez um resumo sobre a história da fazenda. Jovens que se drogavam numa esquina em Guaratinguetá o procuraram para pedir ajuda. Juntos, fundaram a primeira fazenda. Hoje já são 43 no mundo inteiro, 33 das quais no Brasil — uma, na Região Serrana do Rio. Há unidades na Guatemala, México, Alemanha e Argentina. Em todas, internos aprendem a fazer produtos de limpeza, peças e móveis.
Cinco ex-internos deram o testemunho da recuperação. Bento se levantou e os cumprimentou. A maioria chorou. Um deles, Ricardo Ribeirinha, contou que levou 6 anos em tratamento. “Era na cadeia ou no cemitério que muitos esperavam me encontrar”, disse. Contou ter se revoltado ao saber que era filho adotivo. Passou a se drogar, traficar e foi preso. “Após levar dois tiros, conheci a fazenda. Faz 19 anos”, lembrou.
Após a visita do Papa, religiosos e fiéis experimentaram o trono de madeira usado por Bento XVI. Fila se formou para tirar fotos no local.