Acadêmicos do Samba

O outro Jamelão


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Bruno Filippo - Jornalista, sociólogo, professor
do Instituto do Carnaval

Morto Jamelão, imediatamente a Mangueira e o mundo do carnaval reclamaram seu corpo e seu legado. Foi muito justo – pois Jamelão pôs o ofício de interpretar samba-enredo num patamar que, até os anos 50, era desconhecido.

Em verdade, Jamelão, tendo sido o primeiro a cantar com microfone, com a amplificação do som, criou a figura do moderno puxador, ops!, do moderno intérprete. Sua aversão à palavra puxador rendeu uma pérola de seu conhecido mau humor, muito lembrado nestes dias de despedida: “Puxador é quem puxa carro, é quem puxa maconha. Eu sou é cantor!”

O verbo puxar dava sentido à atividade daqueles que, em não havendo amplificador, tinham de usar a potência da voz para fazer os componentes cantar, puxando o coro da escola, formado pelas pastoras. Foi somente no início dos anos 60 que Jamelão inovou ao cantar samba-enredo com o recurso de som. A permanência da palavra “puxador”, portanto, relembra esses tempos rudimentares; e Jamelão, que os modificou, incomodava-se com isso, pois era como se sua importância não fosse reconhecida por completo.

Ninguém desgosta de um nonagenário. Por isso, foi engraçado ver, em entrevistas, declarações e artigos, elogios à sua rabujice. Se fosse algumas décadas mais jovem, seria tachado de antipático, rude. Aos 95 anos, no entanto, esse traço de sua personalidade foi amenizado – e até exaltado! Tudo muito fiel aos versos de Guilherme de Brito e Nélson Cavaquinho:

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração

O bom coração de Jamelão carregava um ressentimento, como certa vez me disse em entrevista: “Todos me conhecem como cantor do samba da Mangueira, mas gosto mesmo é de música romântica. Queria que soubessem que sou cantor de música popular brasileira”. Jamelão se referia ao samba-canção, que o consagrou no passado, e aos jovens que só sabiam de sua faceta como intérprete da Mangueira.

Quando o samba-enredo não era sequer gravado em disco; quando as marchinhas e os sambas carnavalescos embalavam a folia, o samba-canção foi o gênero musical romântico de maior sucesso na Era do Rádio. Cantando amores trágico-românticos, infelizes, desfeitos e impossíveis, numa atmosfera de dor-de-cotovelo, de “fossa”, o samba-canção encontrou no gaúcho Lupicínio Rodrigues um de seus grandes representantes. E, em Jamelão, Lupicínio encontrou o seu maior intérprete.

Lula Branco Martins, no que melhor se escreveu sobre Jamelão, destacou que sua imagem sempre foi envelhecida, triste. É verdade: nas capas de antigos vinis, mesmo que tentando esboçar um tímido sorriso, lá está o Jamelão sério, como que incorporando as dores de amor que cantava. Nada havia mais apropriado do que seu vozeirão imponente, do que essa imagem nada carnavalesca, para cantar versos do tipo:

Esses moços pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
Não amavam..
Não passavam aquilo que eu já passei
Por meus olhos
Por meus sonhos
Por meu sangue tudo enfim
É que eu peço a esses moços
Que acreditem em mim
Se eles julgam
Que a um lindo futuro
Só o amor nesta vida conduz
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno
À procura de luz
Eu também tive nos meus belos dias
Essa mania que muito me custou
E só as mágoas eu trago hoje em dia
E essas rugas o amor me deixou!

Que belo conselho para uma época em que se buscam tanto a felicidade e a satisfação! Fábio Jr. também gravou esse música. Mas sejamos francos: com sua pinta de galã de novela das oito, com sua fama de conquistador de belas e famosas mulheres, com seus vários casamentos no currículo – com tudo isso sua interpretação soa falsa, cínica até. Jamelão, seu antípoda, dá veracidade à letra, transforma-a num conselho sincero aos jovens a quem se dirige.

A estética do samba-canção tradicional, da qual são representantes, além de Jamelão, Nélson Gonçalves, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Cauby Peixoto e tutti quanti, entrou em declínio no fim dos anos 50, quando sua vertente moderna desembocou na bossa-nova, que cantou as delicadezas e as delícias da vida. Soaria também cínico e falso ver Jamelão cantando:

Dia de luz, festa de sol
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão, o amor se faz
Num barquinho pelo mar
Que desliza sem parar

Ao contrário de Cauby e Nélson Gonçalves, que tiveram, em décadas recentes, de gravar canções totalmente inadequadas ao seu estilo para agradar às gravadoras, Jamelão nunca fez concessões. Ouvir Nélson, no fim da vida, cantando “O barquinho” foi o tipo de constrangimento a que Jamelão jamais se submeteu. Sem fazer concessões, cantando o que queria, o Jamelão dos samba-canções, o crooner das grandes orquestras, era o retrato de um momento musical que o Brasil moderno e bossanovista, em vão, queria esquecer – mas que estava sempre redivivo, sem jamais reocupar o espaço de antes. Sobrou o Jamelão intérprete de samba-enredo, com todos os estereótipos que ele mesmo fazia questão de reafirmar.

Foi esse Jamelão que se destacou nos obituários, nas homenagens, nas cerimônias. Mas o outro Jamelão a música popular brasileira, muito anos de sua morte física, já havia reclamado seu corpo.

* Bruno Fillipo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá

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