ACADÊMICOS DO SAMBA

A imprensa carnavalesca, de novo


'Precisamos formar massa crítica capaz de pensar o
carnaval sem as amarras do politicamente correto, sem
os radicalismos que há décadas permeiam o debate carnavalesco'



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Bruno Filippo - Jornalista, sociólogo, professor
do Instituto do Carnaval

Quando a discussão sobre o papel da imprensa está em pauta devido à revogação, pelo Supremo Tribunal Federal, da Lei de Imprensa, volto a um assunto que me tem sido caro desde que comecei a escrever esta coluna, há quase três anos – o papel da imprensa carnavalesca na era do espetáculo.

O período de entressafra das escolas de samba sempre é marcado pelas novidades – troca-trocas, contratações e demissões que, dependendo dos profissionais, causam surpresa e geram expectativa. Isto está sendo muito intenso este ano, não só nas agremiações, mas também na própria imprensa especializada em cobertura de carnaval. Alguns dos principais sites anunciaram estreias de profissionais de grande gabarito, que agregarão muito valor à cobertura rotineira.

Felipe Ferreira, nos encontros que promovia para discutir a relação entre internet e carnaval, certa vez apresentou uma visão pouco otimista da cobertura carnavalesca. Disse ele que os sites, ao suprir a demanda por notícias de carnaval durante o ano, não se libertou dos vícios da imprensa não especializada, reproduzindo o mesmo modelo baseado na exaltação da futilidade e do secundário. De fato, lemos nos sites carnavalescoso que se encontram nas colunas de fofoca dos jornais impressos e nos programas de televisão: notícias sobre rainhas de bateria, modelos, beldades, pseudocelebridades.

Pode-se alegar que isso, bem ou mal, já faz parte da cultura do carnaval, e que há uma demanda por esse tipo de notícia por parte dos afeitos ao universo das escolas de samba.Poucosadmitem gostar de saber notícias sobre mulheres lindas; mas também poucos deixam de acessá-las por não as considerarem interessantes. São fatos jornalísticos, e não podem ser ignorados. O problema está em sua dimensão, em sua valoração - na atividade jornalística que define quais as notícias mais importantes.

Mas a verdade é que os sites de carnaval ampliaram a extensão de sua cobertura, no que cumprem um papel histórico da mais alta relevância: dar voz e espaço aos personagens e aos bastidores das escolas de samba e das demais entidades carnavalescas. Com isso, recuperam uma tendência que a grande imprensa deixou de cumprir, paulatinamente, desde o início dos anos setenta. Ao lado das beldades e dos globais, desfilam os diretores de bateria, os casais de mestre-sala e porta-bandeira, os compositores, os diretores de carnaval, os diretores de harmonia - aqueles personagens que não interessam à indústria do espetáculo, a não ser pontualmente.

O contraponto à 'espetacularização' da cobertura não deve limitar-se somente a noticiar fatos de bastidores. É importante que divulguemos que a escola trocou seu diretor de bateria, que a porta-bandeira está insatisfeita, que o carnavalesco não se entende com o diretor de carnaval; mas tão ou mais importante é aprofundar a análise, é oferecer ao público conhecimento capaz de elevar seus conhecimentos sobre o assunto. Precisamos formar massa crítica capaz de pensar o carnaval sem as amarras do politicamente correto, sem os radicalismos que há décadas permeiam o debate carnavalesco.

Nos últimos anos, os sites estão investindo em profissionais que procuram analisar o carnaval tendo por base seus fundamentos históricos, sociológicos e antropológicos.Tenho orgulho de ser um dos primeiros colunistas a apostar nesse tipo de crônica carnavalesca em site jornalístico. Foi aqui, n’O Dia na Folia. A mim seguiram-se, aqui e acolá, Luis Carlos Magalhães, Fábio Fabato, Walter Nicolau, Gustavo Melo, o trio Simas-Mussa-Edgar.

Acostumar o público a esse tipo de texto é outra tarefa importante, às vezes penosa, quase sempre recompensadora. Com frequência, leio comentários que questionam a utilidade das colunas. “Vocês escrevem bem, mas o assunto que abordam está longe do interesse do povão”, escreveu um internauta recentemente sobre os colunistas. O argumento é fraco, pois pressupõe que, no universo tão amplo dos amantes do carnaval, o “povão” seja uma unidade homogênea que partilha dos mesmos gostos e dos mesmos interesses. Há os que desejam ler fofocas. Há os que só querem notícias curtas. Há os que só querem ver as coxas femininas. E há os que querem pensar, discutir o carnaval, acumular e trocar conhecimento sobre o assunto. A esses, o tempo é propício.

* * *

Orgulha-me sobremaneira ter como colega de O Dia na Folia o amigo, vizinho e ex-aluno Luis Carlos Magalhães. Conversei com ele dias atrás, para congratulá-lo pelo espaço conquistado. Observei-lhe a alegria de um jovem iniciante. Aos cinqüenta e poucos anos, quando muitos tentam redescobrir o sentido da vida, Luis Carlos encontrou-o no samba e no carnaval, pelos quais é apaixonado desde criança. Agora ele voltou a ser menino.

Foi com essas palavras que, faz quase dois anos, saudei a chegada de Luis Carlos Magalhães a este site. Com as mesmas, desejo-lhe sucesso nesta nova empreitada profissional. Saudações portelenses.

 

 

* Bruno Fillipo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá

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