17/3/2008 10:39:00

'Fazendo Carnaval': Desconstruindo a avaliação do Carnaval Carioca

Em sua reestréia como colunista do Dia na Folia, Alex de Oliveira analisa as justificativas dos jurados e dá nota zero para os erros de ortografia encontrados nos mapas de notas

Alex de Oliveira
(Colunista do Dia na Folia)

Saudações aos meus súditos. Infelizmente, acabou mais um carnaval, é o fim da folia. Estamos na Quaresma e, enfim começa o ano. Portanto, aproveito para desejar-lhes saúde, sorte e sucesso! Porém, a despeito do término de meu 10º reinado, vida que segue, volto ao assunto. É o samba, que nos faz feliz, em sua raiz, tem Arte e Poesia.

É por ele que trabalhamos, lutamos, brigamos, reivindicamos e dedicamos nossos momentos de prazer e dor, por conseguinte, a dedicação é recompensada pelos minutos de reconhecimento ao soar da sirene no start do cronômetro e, justamente, após o desfile que, se inicia um novo carnaval.
 
É a hora do “troca-troca”, das modificações, das novas contratações e da renovação de esperanças e expectativas, sobretudo no afã de encontrar aqueles que obtiveram maior destaque em termos de resultado.

Contudo nosso enfoque nessa primeira coluna será o resultado das escolas do Grupo Especial da LIESA, através do julgamento oficial dos jurados e, suas respectivas justificativas que, servirão de referência de trabalho nos meses vindouros a todos os profissionais das escolas. Inicio meus comentários pelos jurados do quesito Alegorias e Adereços:

1. Módulo 1 - Bruno Chateaubriand:
Avaliação irregular. Faltou critério em relação à perda de pontos. NOTA: 9.0

2. Módulo 2 - Vitor Wanderley
Avaliação péssima: o julgador escreveu ASA | VISUAL | FANTASIA com Z, lastimável e inadmissível esse erro...Cadê a qualidade acadêmica? NOTA: 0

3. Módulo 3 - Carlos Alberto A. Marques
Avaliação corretíssima, entendedor do quesito e coerente nas justificativas. NOTA: 10.0

4. Módulo 4 - Walber Ângelo de Freitas
O melhor julgador no quesito, extremamente qualificado. NOTA: 10

Colocação final no quesito; Alegorias & Adereços:

1ª colocada: Beija – Flor: sem perda de pontos
2ª colocada; Tijuca: -0.1.
3ª colocada: Vila Isabel | Portela: -0.2
5ª colocada: Imperatriz Leopoldinense: -0.3
6ª colocada: Grande Rio: -0.4
7ª colocada: Salgueiro: -0.6
8ª colocada: Viradouro: -0.8
9ª colocada: Mangueira: -1.1
10ª colocada: Mocidade Independente: -1.4
11ª colocada: São Clemente: -1.6
12ª colocada: Porto da Pedra: -2.3

Avaliação sobre as justificativas das notas dos julgadores: Domingo (03|02)

1. São Clemente: (-) 0.6| 0.3| 0.5| 0.2 = -1.6

Volumetria arquitetônica (forma) X função: A plástica da escola segundo os jurados obteve pouco impacto visual proveniente da simplicidade das formas utilizadas, portanto, faz-se necessário, estudar a alegoria como um palco móvel, com cinco vistas diferentes, criando-se “claros e escuros” para melhor disposição dos níveis de altura. Hoje em dia, é inadmissível a criação de um carro com um elemento central, destaques simétricos e vários “queijos” de composições circundantes.

2. Porto da Pedra: (-) 0.9| 0.2| 1.0| 0.2 = 2.3

A escola teve a responsabilidade de traduzir em carnaval, o país que revoluciona os mundos: real e imaginário e que, harmoniza o passado e o futuro, respeitando seus valores e costumes. Portanto, aguardaram-se inovações estéticas oriundas dessa cultura tecnológica, porém as alegorias ficaram abaixo das expectativas, dever-se-ia soluções arrojadas de arquitetura (vários níveis de volumes) e luminotecnica numa ousadia virtual. Além de outros erros inadmissíveis como: motorista do carro um com roupa de empurrador, destaque do carro quatro sem chapéu e escultura coberta por muitas composições _ “condomínio”.

3. Salgueiro: (-) 0.4| 0.1| 0.1| / : -0.6

É sabido e notório que grandiosidade alegórica não significa quatro notas máximas. Para alguns, inclusive com o advento da Cidade do Samba, o excesso de acoplamento só acarreta transtorno e dificuldades, portanto, a alegoria existe para compor a plástica (visual) da escola no desenvolvimento do enredo. Contudo, para o julgador Bruno Chateaubriand, do modulo um, as alegorias quatro e 5 eram de um nível inferior e de dimensão pequena, porém, estavam inteiramente inseridas no contexto e de fácil visualização e entendimento, ou seja, justamente para isso que elas se propõem.

4. Portela: (-) 0.1| / | 0.1| /|: -0.2

Excelente desfile, porém a escola foi penalizada pela ausência de destaque na alegoria quatro, obrigatoriedade que, independe diretamente do carnavalesco, mas que recai sobre o responsável pelos destaques, o responsável pela direção da alegoria e, principalmente pela direção de carnaval. Assim como também, o “esquecimento” de saco plástico preto com pertences dos componentes da alegoria cinco. É de suma importância que haja fiscalização e supervisão com os objetos pessoais dos componentes e que, sejam guardados num local apropriado com essa finalidade.

5. Mangueira: (-) 0.1| 0.2| 0.7| 0.1 = -1.1

A utilização de efeitos em Néon, no carro Abre-alas, foi um recurso que, acentou os problemas da escola, pois o mesmo requer total cuidado, zelo e proteção devido ao alto risco de quebra da corrente elétrica e, conseqüentemente a interrupção do circuito elétrico, apagando algumas lâmpadas. Além disso, os refletores do carro dois não funcionaram. A cabeça do dragão do carro quatro quebrou, a fantasia do destaque do carro seis...Enfim, uma série de erros que, acredito foram ocasionados devido às intempéries, inclusive um componente perdeu a compostura e o sapato branco na alegoria 8.

6. Viradouro: (-) 0.4| 0.1| 0.2| 0.1= -0.8

Congratulações à Unidos do Viradouro por permitir total liberdade de criação ao carnavalesco Paulo Barros, afinal seu maior mérito é tentar, arriscar, por à prova, deixar-se seduzir pelas soluções diferenciadas apresentadas. Experimentar é preciso! Portanto, parabenizo às escolas que mantêm suas características aliadas à assinatura do responsável em prol da qualidade e do nível de espetáculo apresentado. Contudo, faz-se necessário, segundo os jurados, maior cuidado com a defesa de enredo e seu desenvolvimento apresentado no manual do julgador, afinal tudo que houver no desfile tem por obrigatoriedade estar especificado no organograma.

Desfile de Segunda-feira: (04|02)

1. Mocidade Independente: (-) 0.8| 0.2| 0.2| 0.2= -1.4

É de suma importância que os responsáveis tenham bom gosto e senso crítico e, que saibam tirar proveito do uso das cores, através da harmonia da escala cromática, afinal as dezenas de refletores do Sambódromo interferem diretamente no trabalho, ofuscando as cores das fantasias e alegorias, e modificando o resultado final, devido à quantidade excessiva de luz fria, tipo; alvorada_ “chapada”. Dificultando assim, o efeito esperado, e, por isso, dever-se-á criar claros e escuros para conseguir realçar e destacar à volumetria, e não simplesmente colocar um refletor exposto no meio do “queijo”. Agora, quanto à utilização das cores é fundamental que haja a reprodução de todos os figurinos das alas, em vista superior, montando-se a aquarela, o conjunto de cores harmônicas, é a simulação de toda escola montada.

2. Tijuca: (-) |\ | 0.1| \| \ |=-0.1

Pelo resultado das notas obtidas, está comprovado que o binômio: criatividade X fácil leitura andam numa linha tênue, afinal, o critério de julgamento dos jurados diz respeito à leitura plástica das citações no Manual do Julgador, onde detalhes e acabamentos são primordiais, e independente de luxo, riqueza e excesso de materiais nem sempre são sinônimos de bom gosto...

3. Imperatriz: (-) |/ | / | /| 0.3| = -0.3

Apesar da mestra ser extremamente conhecedora da causa, a escola acabou penalizada pelo projeto de luminotecnica insuficiente em suas alegorias pelo 4º julgador e por questões de proporções das figuras vivas em relação ao tamanho do carro, como por exemplo, na alegoria três, a dimensão dos cavalos estava fora de proporção em relação à carruagem e a fachada do edifício neocolonial ao fundo do carro.

4. Vila Isabel: (-): 0.2| / | / | / | = -0.2

Somente pelo descuido da direção de carnaval que, devido ao posicionamento errado dos tripés que, constava no Mapa de Jurados esses tripés dever-se-iam à frente da alegoria, portanto infelizmente houve esse deslize que, ocasionou a perda de dois décimos no 1º modulo. No meu entender, gosto é extremamente pessoal e subjetivo, por isso o julgamento tem a obrigatoriedade de ser técnico. Para mim, a escola teve o melhor conjunto alegórico do Grupo Especial.. Acabamento, escala gráfica e proporcionalidade, escala humana, aquarela e estudo cromático, volumetria de arquitetura, bom gosto e clareza de informação.

5. Grande Rio: (-) 0.2| / | 0.1| 0.1| = -0.4

Bom gosto aliado à tecnologia junto a excelentes recursos financeiros credenciaram a escola ao patamar das favoritas do carnaval, sob o talento de Roberto Szaniecki, um dos poucos e raros profissionais completos. A escola foi penalizada pela falta de chapéus das composições de “cobras” e pela dificuldade de acoplamento do carro oito, pelas avarias causadas no transporte das alegorias da Cidade do Samba até à concentração (elementos decorativos e esculturas) e, por fim, a manobra desastrosa do carro seis, em frente ao setor quatro / 11, quando o carro com as onças atingiu o setor e as pessoas das frisas.

6. Beija-Flor: (-) | / | / | / | / |: sem perda de pontos (quatro notas máximas)

A campeoníssima agremiação nilopolitana é a maior referência atualmente em termos de carnaval, em todos os setores existentes de parâmetros de qualidade. Afinal o julgamento é comparativo, e em termos financeiros, é outro destaque...Riqueza, luxo e comunidade fervorosa são os pontos altos. Contudo, acho o visual exagerado, carregado e cafona...É um festival de má informação, é muita aplicação de material sob material desnecessário, excesso pelo excesso. Mas, que traduzem o poder da escola. Porém, o que é Belo.

* Alex de Oliveira é arquiteto, professor da Universidade Veiga de Almeida e Rei Momo do Carnaval Carioca

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