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'Memória da Folia': Para Donga e Cartola Ao lembrar de Cartola e Donga, Luis Carlos Magalhães 'freqüenta' a farra da Casa da Tia Ciata em 1916 Luis Carlos Magalhães
De Donga vou buscar em Edigar de Alencar, em seu apetitoso “Claridade e Sombra na Música do Povo”, duas ou três coisas que esse autor sabia dele.
Quando se refere ao “samba” o autor destaca que seu surgimento se deu em 1916 deixando, entretanto, muito claro está se referindo à composição musical assim chamada e não ao “ajuntamento dançante, festa, forró ou bailarico”, ensinando assim que a “brincadeira” do samba já rolava por aí muito antes. E vai deliciosamente mais longe. . . Chega a dizer que naquele ano, quase afirmando ter sido no dia 6 de agosto, houve uma especial reunião festiva na casa da Ciata, na Rua Visconde de Itaúna 117 (ou teria sido no 119?). Chamo de especial porque reuniões como aquela se fazia com regularidade. E ele a destaca porque foi ali, naquele sagrado e desaparecido endereço, que se entoou “..a muitas vozes os acordes de um improviso que seria mais tarde o primeiro samba impresso com essa designação, que ficaria em definitivo classificado como um novo gênero músico-popular”. E refere-se à casa da Ciata como já sendo um reduto de samba, o samba dançado, bem claro, certo? E que nesse reduto, nessa noite (ah! suprema inveja ...)estavam presentes “...João da Mata, Mestre Germano, Sinhô, Hilário Jovino Ferreira, o bom Hilário, Mauro de Almeida (...). (A 'suprema' inveja aqui é minha, não está no texto citado) E prossegue o autor: “A cantiga, entoada entre risadas e palmas, era uma salada de ritmos na qual havia muito folclore. De início apenas um ‘partido alto’ a que iam sendo acrescentados novos trechos, entre os quais o motivo folclórico do nordeste: Olha a rolinha, (Cabe aqui registrar que, segundo Almirante, o tal estribilho veio do folclore português). Sobre as festas da Ciata, e não menos saboroso – como veremos, literalmente – , o texto extraído de Haroldo Costa em seu “100 anos de carnaval no Rio de Janeiro”: “Curimas, maxixes, chulas, batuques, eram os sons que rolavam no quintal da Tia Ciata nas festas que começavam na sexta-feira `a noite e iam até o raiar da segunda-feira. (...) Aos preceitos religiosos afro seguiam-se monumentais peixadas (huumm !!!) feijoadas incríveis e carurus magníficos, tudo regado com uma branquinha e cerveja preta ou branca”. (O huumm!!! também é meu!) Mas nem tudo foi festa... muita história se contou de lá para cá sobre esse pioneirismo. Tendo participado daquela farra do dia 6 de agosto na casa da Ciata, Donga certamente olhou “para frente”, muito para frente, e viu o que tinha nas mãos. Em aprofundado estudo em seu “Feitiço Decente”, Carlos Sandroni esclarece. Refere-se ele a um estudo de Flávio Silva, uma dissertação de Mestrado de 1975, sob o título “Origenes de la Samba Urbaine à Rio de Janeiro”. Ali, a partir das informações trazidas pelo mestrando, Sandroni destaca o que ficou de mais relevante nisto tudo:
E prossegue melhor ainda:
“No final da década seguinte – isto é, pouco mais de 20 anos – o samba será reconhecido em todo o país, e mesmo no exterior, como símbolo musical do Brasil.” Mas e Cartola... onde entra Cartola nessa história? Bem, Cartola era de outros tempos. O samba de Cartola era outro... Naqueles “idos” o menino Angenor desfilava as cores verde-rosa de seu Rancho Arrepiados, da Fábrica de Tecidos Aliança, em Laranjeiras, bairro em que morava com seus pais pouco antes de se mudar para a Mangueira, para o morro que o imortalizaria. O samba de Cartola era bem outro, seu tempo de sambista também... tempos que tão bem descreve com Carlos Cachaça em seu memorável samba “Tempos Idos”.
Tempos que a ele certamente trouxeram saudades ao recordar coisas remotas que não lhe vinham mais... Uma escola na Praça XI, assistindo a tudo, ao lado da “Balança” onde malandros de seu tempo iam sambar. Tempos que deram lugar a outros que assistiram o samba se aprimorar, evoluir e entrar sem cerimônia pelos salões da sociedade; que deixou de pertencer àquela Praça XI mítica, deixou de ser de terreiro e vitorioso conquistou o “estrangeiro”. O samba que teve nele a majestade suprema, e que foi tão bem representado por artistas geniais, humildemente conquistando espaço. Até chegar ao Municipal - primeiro Orfeu, depois Clementina , e ela mesma sua Mangueira – até chegar ao universo – com Beth e Jorge Aragão –com a mesma roupagem , representando a arte de seu país junto à duquesa de Kent, no Itamaraty. Agora, em agosto e outubro. Tempos idos... Não podemos esquecer... A benção Donga...a benção Cartola...
1- Casa da Tia Ciata, na Rua Visconde de Itaúna, 117; única foto existente, acervo do AGCRJ. Os livros indicam ser a de n° 117, as descrições dos freqüentadores indicam ser a de n° 119, segundo Oswaldo Porto Rocha em “A Era das Demolições”, biblioteca carioca. Séc. Mun. Cultura, 1986, pg. 87. 2- O carnaval de 1917 na Avenida Rio Branco. 500 anos da Música Popular Brasileira. Marilia Barboza e Arthur Loureiro Filho, Séc. Estadual de Cultura, Museu da Imagem e do Som, Faperj, 2001, pg. 57; 3- Rancho dos Arrepiados de Laranjeiras, Revista da Semana; 4- A Praça Onze e a Escola Benjamin Constant de cuja escadaria era julgado o _____________________________________________________________________ BIBLIOGRAFIA: Feitiço Decente, de Carlos Sandroni, editora Zahar/UFRJ, 2001; 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro, de Haroldo Costa, editora Irmãos Vitale, 2001; Claridade e Sombra na Música do Povo, de Edigar de Alencar,editora Francisco Alves, 1984.
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