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A importância do mestre Fernando Pamplona Esse artigo é dedicado aos jovens que só conheceram o Pamplona comentarista de carnaval Jaime Cezário O carnaval feito pelas escolas de samba carioca até a década de 60 era desenvolvido por pessoas da própria comunidade que, com habilidade para desenhar, ajudavam na criação das fantasias e alegorias. Mas graças a um presidente visionário de nome Nelson Andrade, que vai assumir o Acadêmicos do Salgueiro, tudo começará a mudar, e a festa irá tomar rumos definitivos para o atual mega-espetáculo visual. Em 1954 a união de três escolas de samba do Morro do Salgueiro na Tijuca, zona norte do Rio, faz surgir o Acadêmicos do Salgueiro, escola que iria trazer mudanças profundas nos desfiles. Foi a primeira escola a fazer enredos que colocassem os negros em destaque e não na figuração, como em 1957, com enredo sobre Navio Negreiro. Esse desfile foi feito por artistas plásticos. Surge, então, a figura do carnavalesco. Com um enredo sob a batuta dos artistas plásticos Dirceu Neri e Marie Louise, da Escola Nacional de Belas Artes, o Salgueiro traz em 1959 o enredo “Viagens pitorescas do Brasil - Debret”, que obteve o vice-campeonato. Dois detalhes curioso deste carnaval: aboliram-se as cordas laterais que distanciavam o público de seus desfilantes; e, entre os jurados, estava o professor da Escola Nacional de Belas Artes e cenógrafo do Theatro Municipal Fernando Pamplona. Empolgado com o desfile, Pamplona decidiu passar de pedra à vidraça: a convite de Nélson de Andrade, assumiu o Salgueiro e, a partir do ano seguinte, seria a principal figura de transformação da estética do carnaval das escolas de samba. A primeira grande mudança foi nos enredos, que até aquele momento tratavam apenas de abordar assuntos ligados à nossa história oficial e os “heróis fabricados”. Daquele momento em diante, descortinou-se uma nova abordagem, em que se falará de assuntos totalmente desconhecido ao povo brasileiro. Pamplona revelará heróis populares da história brasileira que foram discriminados pela história oficial, como Zumbi dos Palmares, Chico Rei e Aleijadinho. Vai fazer o povo redescobrir a herança africana e sentir orgulhoso dela, abordando o poder do candomblé e os deuses africanos. Trará a figura feminina em destaque, mostrando heroínas que causaram a inversão do poder na sociedade colonial brasileira ,como Dona Beija e Chica da Silva. Pamplona vai fazer aquilo que deve ser a obrigação de todas as escolas de samba e de seus profissionais, que é de trazer informação, cultura e diversão em seus enredos. Já no seu primeiro enredo no Salgueiro, “Quilombo dos Palmares”, aborda a saga de negros que não se curvaram à escravidão imposta pelos portugueses. Esta história – o enredo - já seria uma mudança radical; mas com ela houve uma mudança visual que vai marcar esse período: pela primeira vez os componentes de uma escola de samba iria ter que se fantasiar de escravos no carnaval. Até aquele momento os figurinos de carnaval seguiam o padrão “Luis XV” que era a roupas de nobre, com perucas de algodão inspiradas no mais rico figurino do nobre europeu. No carnaval, vestia-se de nobre, “reis e rainhas” e desfilava-se na escola de samba para esquecer a mazelas e a pobreza da vida real. Fazer o componente da escola de samba abraçar a idéia de se vestir de escravo no carnaval não seria uma tarefa fácil, além de sofrer crítica dos “ditos especialistas” em carnaval, pois estava quebrando com uma tradição. O Salgueiro desfilaria com fantasias, alegorias e adereços com o objetivo de retratar a escravidão, as nações africanas e elementos da cultura negra. Para traduzir isso nos desenhos de figurinos, Pamplona traz a maestria de Arlindo Rodrigues; para alegorias e adereços, Nilton Sá; e, na coreografia, Mercedes Baptista. Para traduzir o visual novo em fantasias e alegorias novos materiais serão inseridos ao carnaval. Daí a frase: tirar da cabeça o que do bolso não dá, pois as agremiações não tinham dinheiro para comprar materiais muito caros. O espelho será introduzido em substituição às antigas lâmpadas que cada sambista carregava alimentada por pilhas; pompons substituem bordados, novos tecidos são incorporados e muitos materiais alternativos irão receber o toque de “Midas” do carnavalesco e se transformarão no luxo visual. O primeiro desfile dessa nova estética informativo-visual vai causar um enorme impacto, a ponto de ser registrada, na hora do desfile oficial , a emoção da jornalista Eneida, que que fazia parte do júri, ao perceber que estava ali ocorrendo um momento marcante para a história do carnaval, grita emocionada para todos ouvirem: “Vocês estão ensinando História do Brasil para o povo!”. O Mestre Pamplona nos presenteou lapidando profissionais do quilate de Arlindo Rodrigues, Joãozinho Trinta, Nilton Sá, Maria Augusta, Max Lopes entre outros que se tornaram figuras exponenciais da qualidade e dignos de receber o título de carnavalesco, jóias do nosso carnaval. Não podemos deixar de registrar que foi com Pamplona que o grande Mestre Laíla iniciou seus trabalhos no carnaval na Acadêmicos do Salgueiro. Esse período da década de 60 é chamado de forma “jocosa” por alguns críticos e pesquisadores de carnaval como a década do “embranquecimento do samba”. Segundo essa idéia, os carnavalescos expulsam da confecção, ou melhor, da idealização do carnaval as pessoas da comunidade da escola de samba. Considero uma grande injustiça, pois foram esses artistas liderados por Fernando Pamplona que realmente fizeram a “escola” de samba exercer sua função institucional e cultural que é a de ensinar, levar a luz da sabedoria e do conhecimento ao povo. É nesse período que começamos a descobrir que não devemos nos sentir diminuído pelas nossas raízes africanas, muito pelo contrário, temos que ter muito orgulho e saber que se temos samba, escolas de samba, blocos, carnaval e muito mais é conseqüência dos ritmos e da cultura de nossa ancestralidade africana. Hoje, passado quase 50 anos desse período é interessante que as novas promessas carnavalescas, redescobrissem e se espelhassem na ousadia do grande mestre Pamplona. Levar informação nos seus enredos, redescobrir nossa história e valorizar nossas raízes africanas e nossa cultura é algo que as escolas de sambas e seus carnavalescos não podem nunca se afastar. Vivemos um momento de transição, de carnavalescos amaneirados, de enredos “blasês” e pueris que não têm compromisso com nada além de se tentar tirar o máximo de efeitos visuais e uma pseudo-plástica fazendo da passarela uma Brodway Tupiniquim cheio de enlatados e clichês americanizados e sem identidade. Seria bom que o carnaval voltasse ao trilho do redescobrimento de nossa história e cultura. Nós amantes do carnaval estamos ávidos de ver a nossa “Tupinicópolis” voltar a ser uma terra de “todos os deuses”, enfeitiçando a passarela numa “aurora Yorubá” e “Mallet”!!! Protegidos pela luz da “estrela Dalva” para novamente fazermos “festa para um rei negro” na “Ilha da assombração” ou nas “Minas do Rei Salomão”!!! E que tenhamos novamente identidade com esse Carnaval!!!!
* Jaime Cezário é professor do Instituto do Carnaval, arquiteto, decorador e carnavalesco
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