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A volta do velho Cabral ao Sambódromo Em entrevista a Bruno Filippo, Sérgio Cabral, pai confessa: 'Continuo sem entender nada' Bruno Filippo
Há um ano, às vésperas do carnaval de 2008, Sérgio Cabral, pai concedeu-me uma entrevista em que deixava clara sua decepção com o carnaval das escolas de samba. (A íntegra da entrevista está no link “colunas anteriores”, ao fim da coluna) Perguntei a ele se costumava ir ao Sambódromo. Ao que ele respondeu, categórico: Não. Em 1991, eu iria comentar o carnaval pela TV Manchete, quando eu, o Pamplona e o Albino Pinheiro fomos afastados da transmissão devido às críticas que costumávamos fazer aos rumos do carnaval. Era uma emissora tão sem caráter que acabou. As pessoas não me defenderam, ninguém defendeu o Pamplona e o Albino. Nós três merecíamos uma defesa por parte do pessoal das escolas de samba. Aquilo me deu uma tristeza muito grande. Senti-me como os versos de Cartola: “Acontece que meu coração ficou frio/E o nosso ninho de amo está vazio.” Não tenho mais pelas escolas de samba o amor que tinha antes. Ditas por um dos maiores conhecedores do samba, do carnaval e da música popular brasileira, autor de livros de referência sobre a história das escolas de samba, essas palavras soaram chocantes. Antes de dizer que costumava passar o carnaval em seu sítio em Paraíba do Sul, ouvindo marchinhas e sambas antigos, complementou a resposta: Eu sofri muito com isso, muito!, você não pode imaginar. Foi uma vida dedicada a pesquisar e estudar as escolas de samba. No ano seguinte, a Globo me chamou para comentar, e eu só aceitei o convite porque o considerei uma deferência à minha pessoa. Mas eu não quis mais. Além disso, não entendo mais de escola de samba. Só entendo as de antigamente. Se Cabral não entende as escolas de hoje (desconfio que muitos cronistas de carnaval atuais, incluindo este colunista, também não as entendem!), elas, se quiserem ser entendidas, precisam de suas obras, sobretudo “As escolas de samba do Rio de Janeiro”, de meados dos anos 90, quando ele já estava divorciado delas. Como terá sido, para ele, voltar ao Sambódromo? Alguma sensação especial? - Não tive qualquer sensação especial. Entrei no camarote do governador e lá permaneci, dando, de vez em quando, uma dica (de caráter histórico) ao presidente Lula sobre a escola que se apresentava – responde Sérgio Cabral, pai, depois de voltar da viagem que fez logo após assistir somente às escolas que desfilaram no domingo. Nestes quinze anos em que esteve afastado da Sapucaí, será que ele notou alguma diferença? - Não percebi qualquer diferença, a não ser a aceleração do samba-enredo, agora em níveis insuportáveis. A resposta não deve surpreender, a não ser, talvez, pelo comedimento e pelo laconismo com as palavras ao analisar os sambas-enredos atuais. Um ano atrás, fora mais contundente. Dissera: (...) é um gênero decadente e lamento muito por isso, pois sei que há compositores excelentes que não conseguem fazer bons sambas porque as circunstâncias atuais exigem essa maneira apressada. Que, aliás, é uma maneira paulista. Eu me lembro de que freqüentava as escolas de samba no início dos anos 70 e eu brincava com eles dizendo: ”vocês correm muito, parecem que estão com pressa, que vão trabalhar amanhã cedo.” Hoje as escolas cariocas correm mais do que as paulistas. Como avaliaria o resultado do carnaval 2009 o homem que afirmou não entender mais de um assunto ao qual dedicou boa parte de sua vida? - Continuo sem entender nada. Não assisti ao desfile com os olhos de julgador, mas lamentei muito - muito mesmo - o último lugar atribuído ao Império Serrano. Agora, sou um torcedor, em especial, das escolas tradicionais, especialmente a Portela, a Mangueira, o Império e o Salgueiro (maravilhosa vitória!). Entendo apenas da história das escolas de samba. Como se entender essa história fosse simples, Sérgio Cabral, pai lança mão do advérbio “apenas”. É – aí sim – apenas por entender as escolas de hoje, sem entendê-las historicamente, que os atuais donos da festa magoaram um coração. No camarote, podia-se vê-lo sério, de semblante fechado. Triste. Mas a história das escolas de samba e a de Sérgio Cabral, pai entrecruzam-se, ainda que, nas derradeiras páginas, não haja espaço para final feliz.
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