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Acadêmicos do Samba: A crítica à crítica de samba-enredo Bruno Filippo
Quem quer que se interesse por carnaval e escola de samba já se cansou de ouvir, na internet, as faixas do CD. Esse é um dos motivos, o principal mas não o único, pelos quais o lançamento do CD já não desperta o interesse de antes. Mesmo assim, os meios de comunicação, principalmente os jornais e os sites especializados, têm dado destaque considerável ao fato, convocando críticos para avaliar a qualidade das obras. A emergência da internet, ao quebrar a espinha que verticalizava a relação entre o público e os meios de comunicação – fenômeno que se observa com intensidade em assuntos ligados ao carnaval -, expõe a crítica à contradita. Enquanto você, leitor, acompanha este texto, algum internauta está postando mensagens a respeito das críticas, minhas e de meus colegas de júri, que foram publicadas neste domingo, dia 16, no jornal O Dia e no Dia na Folia. Concordâncias e discordâncias à parte, é fácil observar que muitos desses comentários carregam forte carga passional. São torcedores e membros de escolas de samba que, irritados com as críticas negativas ou extasiados com os elogios, tentam desqualificar ou sobrevalorizar o teor das análises. Quase sempre, os incomodados deixam de lado os méritos da questão e partem para a agressão pessoal. Mas é utópico, e até injusto, pedir que eles sejam mais racionais. Carnaval, assim como o futebol, é movido pela paixão, pela emoção, e nessa dialética entre razão e emoção está o grande dilema das transformações mercantilistas por que têm passado o carnaval. É nela, também, que se move o papel da crítica carnavalesca. No entanto, há um tipo de crítica à crítica dos samba-enredos que merece análise mais acurada. É aquela que entende que a obra só pode ser julgada depois do carnaval, ou seja, depois do desfile da escola. Por esse raciocínio, a qualidade da obra está atrelada de maneira intrínseca à sua funcionalidade. Se tirou as quatro notas máximas e ainda ajudou a escolas nos outros quesitos, é um bom samba. O samba “funcionou”, diz-se nesta canhestra semântica. Aos críticos caberia, no máximo, tentar antecipar como os sambas vão apresentar-se na avenida, o que tornaria a crítica um mero exercício de pitonisa. Ocorre que os samba-enredos são obras que demandam um processo criativo que se pode valorar por meio de sua análise estética. Profissionais da música – arranjadores, instrumentistas, intérpretes, produtores, coristas – dedicaram-se, no estúdio de gravação, a moldar-lhe essa estética, a dar-lhe uma “cara”. O juízo de valor de um samba-enredo assenta-se sobre sua apreciação melodia, poética e harmônica. Quando o CD é gravado, registram-se seus sambas para a posteridade; e é sobre esses registros que se fazem valorações, e não sobre o uso que se fará deles. Uma escola que foi campeã desfilando com um samba ruim – e isso tem acontecido com muita freqüência – não vai alterar sua qualidade musical. Continuará a ser um samba ruim. Não é diferente em outros gêneros musicais. Uma canção do Tom Jobim não é uma obra-prima pelo modo como foi interpretado num show. É obra-prima porque há toda uma maneira de balizá-la assim. Se um cantor a interpretou mal, se o arranjo a descaracterizou, o problema está no cantor e no arranjador, não na música. Os gênios da música clássica compuseram várias daquelas maravilhas por encomenda. Saber se elas “funcionaram” não vai alterar o patamar que alcançaram. Não é somente o crítico das gravações do samba-enredo que encarna o papel de esteta. Essa possibilidade é aberta ao próprio julgador oficial pelos critérios de julgamento, que nada têm de objetivos. Quando o regulamento diz que o julgador deve analisar a qualidade poética do samba, permite que ele tire pontos da Unidos da Tijuca pelo cacófato produzido pela expressão “minha Tijuca”. Esse exemplo é extremo, mas ilustrativo de como os juízos de valores interferem na avaliação de uma obra. Para o jurado, o cacófato não poderia ser relevado – como muitos apontaram – porque comprometia a sonoridade do samba. Um juízo puramente estético. A análise funcional do samba-enredo ainda enfrenta o problema do acaso. Porque ninguém, nem os expertos, é capaz de antever como a escola desfilará, como o samba-enredo “funcionará”. Assim, o samba está sujeito ao imponderável, aos desígnios e às contingências. Avaliar o samba-enredo utilizando como critério a substituição do juízo de valor pelo juízo de fato, pondo ênfase somente no resultado do desfile, é negar-lhe o status de arte, é subestimar seus criadores, é subjugá-lo ao acaso, é transformá-lo em mero instrumento, é desrespeitar o ouvinte. É minimizar suas qualidades, é igualar a excelência à mediocridade. Quem pensa dessa forma tem a obrigação de considerar “Os sertões”, com o qual a Em Cima da Hora foi rebaixada em 76, um dos piores sambas da história do carnaval, sob risco de incorrer numa insolúvel contradição na lógica do raciocínio. * Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval
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