5/1/2008 00:22:00

Acadêmicos do Samba: A data do carnaval

Proximidade do carnaval serve de pretexto para a discussão de uma idéia polêmica - a fixação de uma data para o desfile das escolas de samba

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)

O carnaval de 2008 está às portas. Começará em 2 de fevereiro. Por estar tão próximo das festas de fim de ano, serve de pretexto para a discussão de uma idéia polêmica - a fixação de uma data para o desfile das escolas de samba, na última semana de fevereiro ou na primeira de março, independentemente do calendário do carnaval. Abraçam-na setores ligados à economia do entretenimento (turismo, hotelaria, comércio formal e informal) e, ainda que de maneira velada, alguns dirigentes do carnaval.

Os argumentos são baseados em cifras: em havendo mais tempo para ensaios nas quadras, no Sambódromo, para desfiles de bandas e blocos, a economia da cidade robusteceria. Isso proporcionaria às escolas de samba, além do faturamento dos ensaios, mais tempo para preparar o desfile.

Não existe nada de concreto quanto a essa proposta. O próprio prefeito César Maia, consultado sobre o assunto, disse não estar convencido dos benefícios econômicos que a mudança da data trará para a cidade. Não há estudos que comprovem isso. É apenas uma idéia, apoiada em deduções econômicas, com a qual poucos concordam publicamente, e da qual muitos discordam com veemência. Além disso, é necessário analisar o outro lado da questão: quais setores da economia seriam prejudicados com a medida? Porque a economia estadual não se resume ao turismo e ao entretenimento.

Por isso, há mais dúvidas do que certezas. O que se pretende mudar, no Rio de Janeiro, é a data do carnaval de maneira geral ou o desfile das escolas de samba, com o que haveria na cidade dois momentos, um próximo do outro, de festa e espetáculo?

Seria, nesse caso, a consagração, ou a institucionalização, do “espetáculo”, ao passo que caberia às outras manifestações carnavalescas seguir a tradição de festa, de espontaneidade, de participação popular. Ou se pretende dissociar o carnaval carioca dos outros estados brasileiros, de modo que teríamos dois carnavais no país – o que confirmaria o velho axioma de que o Brasil é o país do carnaval.

A dissociação entre carnaval e escola de samba, e entre carnaval universal e local, não é menos problemática. Ao raciocínio econômico contrapõe-se a história da civilização cristã ocidental. Não é exagero – e um pouco de história é sempre esclarecedor.

* * *

O cristianismo, em vez de combater as festas pagãs que ainda perduravam na Idade Média, resolveu adaptá-las ao calendário cristão. Assim, os festejos do Solstício de Verão deram origem ao Natal; os do Solstício de Inverno, à festa de São João Batista, o anunciador de Cristo; e os do Equinócio da Primavera, à Páscoa. (Solstício é o momento em que o sol atinge maior afastamento em relação ao Equador; equinócio é o momento em que o sol corta o Equador, tornando os dias iguais às noites. As estações do ano referem-se ao Hemisfério Norte)

A Páscoa, data em que se lembra a Ressurreição de Cristo, é a mais importante do calendário cristão, e não o Natal. Mas é também a Páscoa que vai dar origem à data do carnaval, por mais estranho que pareça hoje. No ano de 604, o papa Gregório I determinou que os fiéis deveriam, numa época do ano, abdicar da vida cotidiana, para dedicar-se exclusivamente às questões espirituais.

O período de jejum e abstinência seria de quarenta dias, para lembrar as provações passadas por Jesus no deserto. Daí o termo Quaresma. Em 1091, o Sínodo de Benevento – reunião dos representantes da Igreja – estabeleceu uma data oficial para a Quaresma. Começaria antes do Domingo de Páscoa, e o primeiro dia receberia o nome de Quarta-Feira de Cinzas, porque havia o costume de marcar a testa dos fiéis com uma cruz feita com cinzas de fogueira, em sinal de penitência.

Tornou-se hábito festejar, com abundância de alimentos e divertimentos mundanos, o período imediatamente anterior ao início da Quaresma. Era o carnaval. “O carnaval é uma forma autorizada e institucionalizada de celebração – área dos impulsos em que a sociedade arcaica preservava a memória dos primitivos cultos mágicos e das celebrações dionisíacas”, escreveu o filósofo José Guilherme Merquior no livro Saudades do carnaval – Introdução à crise da cultura, tão brilhante e importante quanto esquecido.

Como saber, então, sua data no calendário? É preciso saber, antes, a data da Páscoa. Como se viu, a Páscoa está ligado ao fenômeno do Equinócio da Primavera (ou do outono, no Hemisfério Sul), que acontece no dia 21 ou 22 de março. Com base nessa data, vê-se quando será a próxima lua cheia. O primeiro domingo após a lua cheia será o Domingo de Páscoa. O domingo de carnaval será sete domingos antes da Páscoa.

* * *

Os defensores da data fixa não consideram a Quaresma um empecilho. Para eles, a laicização da sociedade reservou somente aos mais carolas o período de abstinência, embora a celebração da Páscoa seja forte costume nosso. O carnaval da Bahia, que se prolonga para além da Quarta-Feira de Cinzas, e o próprio desfile das campeãs são provas de que a influência das questões religiosas, sobretudo da Igreja Católica, não é rígida a ponto de impedir os excessos mundanos na Quaresma.

É verdade – mas algo falta ao debate: o componente simbólico. Aqui, é necessária a distinção entre carnaval e carnavalização. Carnaval é uma data, com marcos balizados pelo calendário lunar e pelo calendário cristão. Qualquer festa ou evento que se pareça com o carnaval, mas que aconteça fora da data, é carnavalização, não carnaval. (É errada, portanto, a expressão usual “carnaval fora de época”) As festas pagãs não eram carnaval, e sim carnavalização, porque o carnaval não havia sido estabelecido. O desfile das campeãs não é carnaval. Trata-se, isto sim, de um evento carnavalizado.

Se o carnaval do Rio dissociar-se do calendário universal, estará rompendo, como vimos, uma tradição milenar. Se as escolas de samba deixarem de desfilar no carnaval, estarão rompendo uma tradição de mais de setenta anos. De seu surgimento até hoje, estão associados ao carnaval. Será que, desfilando na Quaresma, as pessoas vão libertar-se do simbolismo do período? Não vão associar o desfile ao carnaval, e sua intromissão na Quaresma?

Uma tradição muda-se, inventa-se, reinventa-se. É pouco provável que a data fixa seja implantada, ao menos a médio prazo, pela reação que provocará. A pergunta, talvez um pouco ingênua para a época em que vivemos, é: deve-se mudar uma tradição apenas por interesses econômicos?

* * *

Feliz Ano Novo

* Jornalista, sociólogo, professor do Instituto do Carnaval

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