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Acadêmicos do Samba: A profecia de Antônio Caetano Entre 1935 e 2000, sessenta e cinco anos, dois carnavais, um baluarte Bruno Filippo
Exceto a efeméride, nada parecera original. Não fora a primeira vez que as escolas de samba desfilaram com enredos monotemáticos. Acontecera em 1965, no IV centenário do Rio de Janeiro. Assim como não fora surpresa a reação à vitória da Imperatriz, acusada pelos adversários de fazer desfiles frios. Já é tradicional o choro da Quarta-Feira de Cinzas. Em outras épocas, as confusões no dia da apuração das notas eram maiores. Houve uma, no longínquo 1960, que obrigou os organizadores a declarar cinco campeãs. Mas havia uma novidade no carnaval de 2000 - e não viera da imaginação fértil dos carnavalescos. Em verdade, a novidade fora apresentada dias depois do carnaval, em 11 de março, sábado, no Desfile das Campeãs, quando as primeiras colocadas voltaram ao Sambódromo. Por isso, passou despercebida, ou não teve a atenção devida. Chamava-se Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Mundo, ou, mais apropriado para uma festa que, tornada bilíngüe, conta com dois locutores oficiais, United World Samba School. Foi a primeira escola a desfilar. A bandeira da agremiação era formada por um globo terrestre em forma de pandeiro, e a primeira alegoria da escola era um globo terrestre giratório. Seus componentes, recrutados pela internet, eram estrangeiros, membros de escolas de samba espalhadas por países tão distantes quanto Finlândia, Japão, Israel, Jamaica e Indonésia. Meu amor, meu prazer Singrei os mares tal qual navegantes de Sagres Eu te amo, eu te amo Ouvindo bons sambas O carnaval foi trazido ao Brasil pelos portugueses e, ao longo de três séculos, adaptando-se às condições sócio-culturais do país, desaguou no que se convencionou chamar O maior espetáculo da Terra. O United World Samba School simbolizava que o carnaval fazia o caminho inverso – voltava, abrasileirado, não só para a Europa mas para outros continentes. Daí a homenagem, um agradecimento ao Brasil e à sua invenção. * * * Antônio da Silva Caetano nasceu no Rio de Janeiro em 10 de setembro de 1900, na Rua Senador dos Passos. Filho de João Manuel Caetano e Raquel da Silva Caetano, cursou todo o primário e o secundário no Colégio Salesiano e na Escola de Marinha Mercante, nas docas do Lloyd. “No meu tempo a escola era risonha e franca”. Ingressou no Lloyd Brasileiro, no Mocanguê. Trabalhou como aprendiz de máquinas, prestando exame na Capitania dos Portos e embarcou, em seguida, no navio Bocaina. Viajou muito tempo, por todo o Brasil e por diversos países da América do Sul. Quando desembarcou, trouxe um atestado do comandante do navio para prestar exames e, posteriormente, ingressar na Escola Naval. Tornou-se desenhista da Imprensa Naval. Em 1923 Caetano conheceu Diva. Apaixonou-se. Por causa dela, viviam em Oswaldo Cruz, mesmo morando em Quintino. Apesar de ser um rapaz sério, compenetrado e trabalhador, Caetano adorava carnaval. Antes do Baianinhas, fez parte de dois outros blocos, Felismina Minha Nega e Felisberta Minha Branca, que abandonou. Tocava um bom violão, por música, que aprendeu na Banda do Colégio Salesiano. Começou como corneteiro da banda, “para apanhar embocadura”. Pegou então o saxofone e depois piston. Ao encontrar o violão, parou nele. Além da música, pintava e esculpia, por vocação. Seu nível cultural era altíssimo em comparação com os outros dois amigos (Paulo da Portela e Antônio Rufino dos Reis). Paulo dizia: - Quem tem estudo é esse aí! Marinheiro, desenhista, compositor, Antônio Caetano fundou, com Paulo da Portela e Antônio Rufino dos Reis, o Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz, que depois deu origem à Vai como Pode e, depois, à Portela. Na década de 40, tendo colaborado com a escola de samba Prazer da Serrinha, aderiu à dissidência que culminou com a criação do Império Serrano. O primeiro campeonato da Portela foi em 35, quando ainda se chamava Vai Como Pode. A escola desfilou na Praça Onze cantando dois sambas: Alegria tu terás, de Antônio Caetano, e Guanabara, de Paulo da Portela. No livro As escolas de samba do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral relembra: Foi a primeira vitória de uma série que faria da Portela a escola com maior número de conquistas no carnaval do Rio de Janeiro. (...) Houve protestos contra o resultado. A partir de 1935, as vitórias da Portela e os protestos foram tão freqüentes que Natalino José do Nascimento, o Natal, concluiu que só haveria uma saída para acabarem os protestos: sua escola não ganharia mais. O carnaval de 1935 foi o primeiro reconhecido oficialmente pelo poder público. A então prefeitura do Distrito Federal passou a subvencionar as escolas de samba, além de incluí-las entre as atrações turísticas da cidade em panfletos que era distribuídos no exterior. Em retribuição ao que consideravam uma conquista dos sambistas, as escolas resolveram elaborar enredos que falassem da “vitória do samba”. Foi então que a Portela desfilou com o enredo proposto por Antônio Caetano: O samba dominando o mundo. No início do desfile, um globo terrestre giratório sobre o qual havia uma baiana. A concepção da alegoria - considerada a primeira de uma escola de samba – também foi de Antônio Caetano. * * * Entre 1935 e 2000, entre os dois globos terrestres que abriram o desfile da Vai Como Pode e da Unidos do Mundo, sessenta e cinco anos e uma profecia que, cumprida, transformou-se em carnaval. É bastante provável que, naquele sábado de março que já parece distante, a maioria dos componentes da Unidos do Mundo e o público não soubessem quem foi Antônio Caetano. Relembrá-lo, além de ser uma homenagem, serve a um propósito histórico – não subestimar a importância que os sambistas davam, naqueles tempos incertos para eles e para o mundo, ao samba. * Bruno Filippo é jornalista, sociológo e coordenador do Instituto do Carnaval da Estácio de Sá
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