Bruno Fillipo
(Colunista do Dia na Folia)
Sábado à tarde, enquanto a música brasileira absorvia mais uma perda, eu participava de um programa de rádio previamente produzido para homenagear Clara Nunes. A coincidência me permitiu lembrar que, há vinte e seis anos, Clara deu a Dorival Caymmi as flores em vida, homenageando-o em “Nação”, faixa-título de seu último disco. A música, de João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio, é um samba-exaltação singular, provido de neologismos e de divindades da religião afro-brasileira.
Dorival Caymmi falou para Oxum
Com Silas tô em boa companhia
O Céu abraça a Terra
Deságua o Rio na Bahia
Jeje, minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris
Minha fome é tanta
Planta florimã da bandeira
A minha sina é verde-amarela
Feito a bananeira
Ouro cobre o espelho esmeralda
No berço esplêndido
A floresta em calda
Manjedoura d´alma
Labarágua, sete queda em chama
Cobra de ferro, Oxum-Maré
Homem e mulher na cama
Dorival Caymmi falou para Oxum
Com Silas tô em boa companhia
O Céu abraça a Terra
Deságua o Rio na Bahia
Jeje, tuas asas de pomba
Presas nas costas
Com mel e dendê
Aguentam por um fio
Sofrem, o bafio da fera
O bombardeiro de caramuru
A sanha de Anhanguera
Jeje, tua boca do lixo
Escarra o sangue
De outra hemoptise
No canal do Mangue
O uirapuru das cinzas chama
Rebenta a louca, Oxum-Maré
Dança em teu mar de lama
Quem é Silas, com quem Caymmi, na letra, diz estar em boa companhia? É Silas de Oliveira, que, em “Aquarela Brasileira”, também teceu loas às maravilhas de cenários do Brasil. E o Rio, que deságua na Bahia, é o Rio de Janeiro, que recebeu não só Caymmi, mas uma plêiade de cantores e compositores baianos.
A Bahia de “Nação” é, assim, sua capital, esteio das heranças culturais brasileiras; esteio do Brasil profundo, multicultural, quase sempre à margem das representações do Brasil oficial. Nesse sentido, “Nação” é o reverso da mesma moeda – o ufanismo musical – cunhada por Ary Barroso em “Aquarela do Brasil”. Não foi à toa que o historiador José Murilo de Carvalho classificou “Nação” de hermética, de difícil assimilação aos ouvidos desatentos.
No show que realizara quinta-feira em São Paulo, João Gilberto, o baiano de Juazeiro que revolucionou a nossa música, disse à platéia, depois de cantar “Bahia com H”, de Denis Brean: “Ele (Denis) nunca foi à Bahia. E olha o que ele fez!” Foi isto o que o paulista Denis Brean fez:
Dá licença, dá licença, meu senhô
Dá licença, dá licença, pra yôyô.
Eu sou amante da gostosa Bahia, porém
Pra saber seu segredo serei baiano também.
Dá licença, de gostar um pouquinho só
A Bahia eu não vou roubar, tem dó!
Ah! Já disse um poeta que terra mais linda não há
Isso é velho e do tempo que a gente escrevia Bahia com H!
Deixa ver
Com meus olhos de amante saudoso A Bahia do meu coração
Deixa ver
Baixa do Sapateiro Charriou, Barroquinha, Calçada, Tabuão!
Sou um amigo que volta feliz pra teus braços abertos, Bahia!
Sou poeta e não quero ficar assim longe da tua magia!
Deixa ver
Teus sobrados, igrejas, teus santos, ladeiras e montes tal qual um postal.
Dá licença de rezar pro Senhor do Bonfim
Salve! A Santa Bahia imortal, Bahia dos sonhos mil!
Eu fico contente da vida em saber que Bahia é Brasil!
Morando no Rio de Janeiro há mais de cinqüenta anos, Dorival Caymmi aqui foi enterrado. Mas seu nome, sua obra, sua vida será sempre associada à Bahia. Deixou em todos, mesmo naqueles que nunca foram à Bahia, a mesmo sensação de que se valeu Denis Brean.
* Bruno Fillipo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá