16/1/2008 15:39:00

Acadêmicos do Samba: Dificuldades de Julgamento

Bruno Filippo
(Colunista de O Dia na Folia)

No primeiro carnaval após as denúncias de manipulação de resultados, a Liesa escolheu, para compor o corpo de julgadores, o socialite Bruno Chateaubriand, figura fácil nos camarotes do sambódromo e nas festas grã-finas da cidade. O nome dele vem recebendo muitas críticas, como se sua agitada vida social e sua figura pública o tornassem incapaz de julgar escola de samba. Por que ninguém levantou objeção contra Mariza Maline, novata que julgará enredo? Ou contra Carlos Alberto de Araújo Marques, Vitor Wanderley e Walber Ângelo de Freitas, também novatos, que terão, juntamente com Chateaubriand, a responsabilidade de dar as notas do quesito alegorias e adereços?

Não conheço pessoalmente Bruno Chateaubriand, não sei se tem competência para a tarefa; mas, por princípio, ninguém está menos gabaritado do que outros apenas pelo nome. Lembro-me até hoje da execração pública a que o grande músico Wilson das Neves foi exposto por ter tirado ponto, no carnaval de 98, da bateria da Viradouro, que naquele ano fizera a tão copiada paradinha funk.

Nome consagrado da música popular, baterista histórico e compositor inspirado, oriundo das camadas populares, Wilson das Neves foi uma escolha quase hours-concours. No entanto, ele foi o responsável pela maior polêmica do carnaval, ao dizer uma coisa óbvia: funk não é samba!

Em qualquer instância - jurídica, esportiva, familiar, profissional -, o poder arbitrário de avaliar e sentenciar é desconfortável, pelo poder de influir na vida de terceiros, pelo fato de o julgamento, quase sempre, ser irreversível. E, sobretudo, pela subjetividade que lhe é inerente, mesmo que leis, regras e regulamentos tentem racionalizá-lo. Não é diferente com o julgador de escola de samba.

Em julgamento de escola de samba, há questões mais prementes do que o nome do julgador. É um assunto pouco explorado pela imprensa e pelos pesquisadores. Para saber como se julga é preciso entender os quesitos, saber o que se lhes atribui  tarefa de que poucos se ocupam. O desinteresse por esse aspecto tão importante significa que as polêmicas da Quarta-Feira de Cinzas continuarão, para a maioria, indecifráveis.

Não é exagero, tampouco presunção, afirmar que julgamento de escola de samba é algo demasiado complexo, repleto de nuances que são despercebidas por quem desconhece seus meandros. Alguns exemplos:

A preferência popular normalmente recai sobre a escola mais empolgante ou sobre a mais luxuosa. São requisitos básicos para creditar às escolas o favoritismo. Mas empolgação e beleza são julgados dentro de critérios técnicos. Sozinhos, não bastam para garantir a vitória.

A palavra empolgação aparece num único quesito - evolução. E a empolgação refere-se à participação do desfilante. O que conta pontos, o que está sendo observado pelo julgador, é a empolgação do componente da escola, e não do público. Isso não quer dizer que a participação popular seja desprezada. A vibração do público contagia a escola, empolgando os componentes.

A história do carnaval registra momentos em que o ânimo das arquibancadas, das cadeiras e dos camarotes foi essencial para garantir à escola uma boa colocação ou até o campeonato, como o Estácio em 92 e o Salgueiro em 93. No entanto, a animação do público não é previsível. Tanto pode se animar quanto receber a escola com frieza.

A beleza da escola é avaliada pelos quesitos conjunto, fantasia, alegorias e adereços. O julgador estará sempre atento, para além da luxuosidade, ao significado que o visual representa na concepção do enredo. Não adianta muito luxo se as fantasias e as alegorias não corresponderem ao tema proposto.

Ainda que o público, empolgando-se, contagie os componentes da escola, ainda que o luxo esteja de acordo com o enredo, existem os demais quesitos. Os jurados são distribuídos em módulos (cabines) ao longo de toda a Avenida Marquês de Sapucaí. Dessa forma, cada um analisa partes diferentes do desfile, já que é impossível obter uma visão global.

Dependendo do ponto em que se observa, o desfile pode ganhar contornos diferentes. Se a escola passou corretamente num ponto, em outros incidentes podem ocorrer - ou um carro quebra, ou as alas se embolam, ou a bateria atravessa, ou as fantasias arrebentam, ou o chapéu do mestre-sala cai, ou o puxador perde o ritmo.

Por isso, jurados do mesmo quesito dão notas diferentes para a mesma escola. A visão do comentarista, do torcedor, do jurado é a visão de um pedaço do desfile. Nem a transmissão de TV é capaz de mostrar a totalidade. Não se assiste ao desfile. Assiste-se, em verdade, a um pedaço do desfile.

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