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Acadêmicos do Samba: 'Estados Unidos, o país do jazz e do...carnaval!' Numa histórica cidade americana, o carnaval é tão importante e famoso quanto o brasileiro Bruno Filippo Há alguns anos, durante transmissão do desfile das escolas de samba pela televisão, um famoso locutor soltou a pérola, com a entonação de slogan publicitário: “Carnaval, uma festa genuinamente brasileira.” É um erro primário, sobretudo quando cometido por um profissional da comunicação, que tem a missão de levar informação ao público. Mas, antes de lhe esfregarmos a gramática dos impropérios, podemos ser tolerantes para com seu erro. O discurso ideológico que associa atavicamente o Brasil ao carnaval, como se este fosse uma invenção de Pindorama - o país do carnaval como juízo de fato, e não somente de valor –, fabrica frases de efeito que, no senso comum e até entre formadores de opinião, são repetidas como mantras, sem questionamentos, sem reflexão, sem que se pergunte por quê. Essa decadência, que se desenha ainda no início do século XX, corresponde à ascensão do carnaval brasileiro, primeiro o do Rio de Janeiro, com suas múltiplas facetas, e depois o de Salvador e o de Recife - cidades que, em importância carnavalesca, rivalizam com o antigo Distrito Federal. Como vitrine, como modelo de exportação – invertendo o que se passou na segunda metade do século XIX, quando o Brasil via na importação da forma européia de brincar o carnaval uma etapa do processo civilizador -, o país do carnaval, no entanto, é o Rio de Janeiro das escolas de samba, que se encontram hoje em diversos países. (Por ironia, não há registro de escola de samba em países da África Negra). O centro de excelência do carnaval, para usarmos uma expressão cara a Hiram Araújo, deslocou-se da Europa para as Américas - e não somente para o Brasil. New Orleans, nos Estados Unidos, Port of Spain, em Trinidad e Tobago (!) , e Havana, em Cuba, também são cidades em que o carnaval é tão importante quanto o é para Rio, Recife e Salvador. Por aqui, conhecemos pouco, mas muito pouco, esses carnavais. Faltam livros, matérias jornalísticas, pesquisas acadêmicas - com o que poderíamos saber, por exemplo, que em Cuba o carnaval, que data do período colonial, após a revolução foi transferido para o meio do ano, depois da colheita da cana-de-açúcar. É digno de aplausos, portanto, a publicação, pela editora Língua Geral, de Antes do furacão: o Mardi Gras de um folião brasileiro em Nova Orleans, de Fred Góes, um intelectual dedicado, há quase três décadas, a estudar o carnaval. É uma pena que boa parte de sua produção acadêmica - a dele e a do Grupo Interdisciplinar de Estudos Carnavalescos, que coordena na Faculdade de Letras da UFRJ – esteja restrita a um público diminuto, posto que carece de publicação em livro. Entre 2003 e 2004, Fred Góes esteve em New Orleans (confesso que prefiro a pronúncia e a grafia em inglês) às custas de uma bolsa de estudos que recebera da Fundação Rockefeller em associação com a Universidade de Tulane, naquela cidade. Logo, o título é um achado: Antes do furacão faz referência ao furacão Katrina, que devastou New Orleans em 2005. Berço do jazz, New Orleans, no estado da Louisiana, sul escravista e segregacionista dos Estados Unidos, é um caldeirão de culturas. Antes de ser vendida por Napoleão ao governo americano, a Louisiana pertencera à França e a Espanha; e New Orleans foi a cidade em que a miscelânea cultural foi mais visível: recebeu, ao longo de três séculos, influências da cultura francesa, espanhola, alemã, africana, acadiana, hondurenha, cubana, haitiana, carabenha. Essa diversidade cultural e étnico-religiosa faz de Nova Orleans uma singularidade no perfil da população americana. Fred Góes chama-a de “Salvador dos Estados Unidos.” Mardi Gras – palavra em francês que ao pé da letra significa terça-feira gorda, mas que designa de forma genérica as manifestações carnavalescas em Louisiana desde a colonização francesa – é o carnaval que se tornou sinônimo de New Orleans, com suas associações carnavalescas (krewes), suas tribos dos índios negros e seus rituais de flashing. Em menos de 150 páginas, em linguagem acessível, sem o pedantismo acadêmico, Antes do furacão se propõe a apresentá-lo ao público brasileiro a partir da experiência pessoal do autor. E, ao fim da leitura, chega-se à conclusão de que as semelhanças e as diferenças entre o nosso carnaval e o deles são importantes para fazer uma das muitas leituras possíveis da dinâmica social do Brasil e dos Estados Unidos. Como afirma Fred Góes, na introdução: Sendo manifestações nascidas em contextos culturais diversos, tanto o Mardi Gras quanto o carnaval carioca se fixam na segunda metade do século XIX, sob inspiração dos carnavais europeus, em especial o carnaval burguês parisiense, tendo as krewes (associações carnavalescas) e as grandes sociedades como expressão “civilizada” oficial da população branca. Em contrapartida, os grupos e blocos negros fantasiados de índios, em ambas as celebrações, se apresentam como formas não oficiais, que parecem revelar, sob aspectos diversos, tanto a possibilidade de afirmação de pertencimento dos afro-descendentes ao continente americano, através da identificação com os aborígenes, os “donos da terra”, quanto uma contraposição do carnaval branco, fato evidente em Nova Orleans. Não importa o segmento social e tampouco a etnia, o certo é que a carga significativa da festa tem tanto peso cultural para os nova-orleanenses quanto tem para nós brasileiros. As Grandes Sociedades do carnaval carioca sobrevivem somente nos livros; mas as krewes permanecem como a principal atração de New Orleans, é seu carnaval oficial. São compostas por homens brancos de classe média e alta da cidade, e promovem desfiles e bailes durante a Mardi Gras. Os desfiles das krewes tratam de temas contemporâneos, muitas vezes de forma satírica e corrosiva, embora Fred Góes assinale isso esteja menos recorrente, e apresentam carros alegóricos - puxados hoje por tratores, décadas atrás por cavalos -, em cima dos quais desfilam destaques mascarados, que atiram mimos à multidão. Não há competição entre elas, e o número de componentes varia de duas dezenas a três mil, que se vestem de luxuosas fantasias aristocráticas. As krewes desfilam ao som de dobrados militares executados por bandas de escolas, sem amplificação do som. A estrutura hierárquica é rígida. Todo ano, os membros das cada krewe elegem um rei, a quem cabe administrá-la até o próximo carnaval, no que é secundado por membros que ocupam funções de capitão, oficial, tesoureiro, secretário. Já os blocos negros fantasiados de índios são compostos por membros ligados a “igrejas espiritualistas” – expressão que Fred Góes adota para designar as seitas onde se pratica culto às entidades indígenas ancestrais. À diferença das krewes, que se apresentam na zona nobre da cidade ladeadas por mansões, os negros índios não desfilam para multidão; saem às ruas de suas comunidades, bairros negros e pobres, sem pedir autorização à polícia, sem a grandiosidade e o luxo das krewes, cantando canções tradicionais; e, sobretudo, sem que haja qualquer contato, qualquer interseção entre esses dois carnavais. Segregam-nos diferenças culturais, econômicas e religiosas. Há ainda uma outra prática em New Orleans: a do flashing, em moças exibem os seios nas ruas em troca de colares e outras benesses. Nada parecido, adverte o autor, com o que se vê no desfile de escolas de samba, no qual as moçoilas que desfilam com seios nus não mantêm contato direto com o público, estão lá para serem admiradas como um bem inacessível. * * * Uma análise comparativa entre o carnaval brasileiro e o de New Orleans revela, de imediato, que o processo histórico de ambos, se no início apresentava propósitos semelhantes, como escreveu Fred Góes, no século XX diferenciou-se. O Brasil alterou radicalmente a construção ideológica em que baseava seu discurso carnavalesco: de modelo importado a uma brasilidade totalizadora, homogênea, inclusiva, sem hierarquias, antípoda de sua sociedade hierárquica, excludente, cartorial. Ao passo que o modelo de New Orleans permaneceu inalterado: segregacionista e aristocrático, reafirmando o discurso do século XIX numa sociedade como a americana, que prega os valores igualitários e individualistas. Roberto DaMatta, no clássico Carnavais, malandros e heróis, fizera essa leitura. Tanto o carnaval brasileiro quanto o de New Orleans, em se caracterizando uma inversão do cotidiano, projetam, em suas representações, em seus símbolos momescos, a imagem idealizada de seu povo, de suas relações sociais. Após a passagem do furacão Katrina, assistiu-se àquelas cenas de destruição, desespero, morte, selvageria – e segregação social. Negros e pobres, sem ter para onde fugir, foram as principais vítimas da tragédia. Três anos e três carnavais depois, como está o Mardi Gras? A tragédia alterou as tradicionais práticas carnavalescas? Diminuiu o interesses de brancos e negros índios? A relação entre eles tornou-se mais tensa ou mais solidária? Está na hora de Fred Goés escrever Depois do furacão.
* Bruno Fillipo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá
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