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Acadêmicos do Samba: 'Evaldo Gouveia e Jair Amorim, uma dupla no limbo do carnaval' Bruno Filippo Na história da música popular brasileira, a dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim ocupa posição singular. Seus sambas-canções, que abasteceram o repertório de nomes como Anísio Silva, Ângela Maria e, sobretudo, Altemar Dutra, superaram o preconceito que havia contra a influência do bolero – tido como cafona e piegas – e se converteram em clássicos da MPB, com inúmeras regravações de intérpretes contemporâneos.
Quem nunca se identificou com Brigas – eleita por especialistas uma das cem músicas brasileiras mais bonitas do século XX –, gravada em 1966 por Altemar Dutra? É aquela que diz: Veja só que tolice nós dois Quem – confesse! -, em momentos de dor de cotovelo, desejou dizer o que eles mordazmente escreveram na primeira parte de Alguém me disse, sucesso de 1960 na voz de Anísio Silva? Alguém me disse que tu andas novamente Na comovente carta que escreveu à Danielle Nascimento, nova porta-bandeira da Portela, Luis Carlos Magalhães escolheu como fundo musical O conde, de 69, gravada por Jair Rodrigues, homenagem da dupla à mãe de Danielle, a inesquecível Wilma. Há uma ironia perversa nessa música, porque, na história do carnaval carioca, Evaldo Gouveia e Jair Amorim também estão em posição singular - mas no limbo, tentando pagar dois pecados de três décadas cometidos justamente na Portela de Wilma e agora de Danielle. Quatro anos depois d’O conde, a relação deles com a escola de Natal, que era apenas de admiração, intensificou-se: ingressaram, a convite da direção, na ala de compositores, e participaram, em parceria com o compositor Velha, da disputa de samba-enredo para o carnaval de 74, cujo enredo era O mundo melhor de Pixinguinha. Como se sabe, foram vitoriosos. O samba, de letra e melodia belas, é sempre lembrado com um clássico do gênero: Lá vem Portela Pizindin! Pizindin! Pizindin!
A escola, que desfilou na Av. Presidente Antônio Carlos, conquistou o vice-campeonato, ficando atrás somente do Salgueiro. Mas qual foi o preço desse segundo lugar? Qual foi o preço da escolha do samba de Evaldo Gouveia, Jair Amorim e Velha? Com a palavra, o saudoso Roberto M. Moura, no livro No princípio era a roda: Nos últimos meses de 73, participei como jurado do processo de escolha do samba da Portela (...). O enredo era “O mundo melhor de Pixinguinha” e, entre outros concorrentes, estavam sambas de Zé Kéti e Picolino, David Corrêa e Dedé, Giza e João Nogueira, além do favorito, de Noca e Joel Menezes. Sérgio Cabral, em As escolas de samba do Rio de Janeiro, fez a seguinte constatação: Na Portela, a crise nasceu com a decisão de Carlinhos Maracanã de impor os nomes de Jair Amorim e Evaldo Gouveia como autores do samba-enredo. Vários compositores e outras figuras da escola protestaram. Candeia deixou de comparecer à Portela, assim como Paulinho da Viola e Zé Ketti. (...) A entrega a eles da responsabilidade de compor o samba quebrava a tradição das escolas de samba, que só admitiam nos concursos internos os sambistas com mais de um ano de filiação na ala de compositores. Tomando decisões desse gênero, Carlinhos Maracanã começava a enfrentar uma oposição que geraria, depois, duas novas escolas de samba, ambas constituídas de sambistas egressos da Portela. As críticas e a crise provocadas pelo samba escolhido não impediram que, carnavais depois, novamente a direção da escola optasse por uma nova composição da dupla. “Mulher à brasileira”, de 1978, foi o estopim para outras insurreições portelenses – e com o agravante de que, naquele ano, o samba era de fato inferior ao do favorito Luiz Ayrão. * * * Em todos os livros sobre carnaval em que são citados, o nome deles evoca um espectro que há algumas décadas ronda as escolas de samba: a das influências externas que, em princípio, corrompe os fundamentos da autêntica manifestação popular. Eles sempre aparecem qualificados como “compositores de boleros”, uma referência pejorativa que ignorava outros gêneros que compunham, como marchas e sambas, de que O Conde é exemplo. E – o que lhes é ainda mais agressivo – são responsabilizados, direta ou indiretamente, pela decadência da Portela e pela degeneração das escolas de samba e do carnaval. Essas reações são compreensíveis quando as percebemos escritas no calor do momento – o que, aliás, não é o caso dos livros citados. Mas, numa perspectiva histórica e sociológica, precisam ser relativizadas. O ingresso de Evaldo Gouveia e Jair Amorim na ala de compositores da Portela, assim como a escolha de seu samba – malgrado as denúncias de armação -, pode ser vista, a princípio, como conseqüência natural da penetração de setores de classe média nas escolas de samba. No entanto, diferentemente do que aconteceu com a estética das escolas de samba, cuja mudança está ligada à participação de profissionais com formação acadêmica (os carnavalescos), a dupla de “boleristas” não alterou as características do samba-enredo, nem criou um estilo que pudesse ser copiado por outros compositores. E aqui cabe uma provocação: o que foi pior para esse gênero do samba que dá nítidos sinais de decadência: Festa para um rei negro, de Zuzuca, e Alô alô taí Carmem Miranda, de Wilson Diabo, Maneco e Heitor, ou O mundo melhor de Pixinguinha? Ao contrário do que se supôs, compositores consagrados da música popular brasileira e desafeitos ao universo do carnaval não “invadiram” as escolas de samba. Contam-se nos dedos as vezes em que um deles emplacou samba-enredo - mesmo que as alas de compositores estejam abertas a quem quer que tenha disposição para concorrer. Se nos dermos ao trabalho de passar os olhos no encarte dos CDs das escolas de samba, veremos que os nomes que assinam as composições são, em sua maioria, desconhecidos do grande público, e muitos pertencem às bases da pirâmide social brasileira. E é à superfície desses compositores, e não à sua margem, que as excrescências atuais se apresentam: condomínios, escritórios, interesses escusos, armações. Se hoje, em nome da evolução, aceitamos como normais tantas coisas que no passado eram condenáveis, devemos a Evaldo Gouveia e Jair Amorim sua retirada do limbo do carnaval. E o reconhecimento de que compositores de boleros e outros gêneros também podem fazer belos sambas-enredos. Trocar de bem – eles e o samba – no fim.
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