17/7/2008 17:50:00

Acadêmicos do Samba: Mais do mesmo

Bruno Filippo analisa a ida de Paulo Barros para a Vila Isabel e lembra o impacto causado pelas obras do artista Marcel Duchamp para mostrar os embates do carnavalescos e a crônica carnavalesca

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)


Após o carnaval deste ano, escrevi artigo intitulado "O carnaval descarnavalizado de Paulo Barros", em que procurava dar sentido às estranhezas suscitadas antes e depois de seu desfile na Viradouro. É conveniente relê-lo, neste momento em que ele, como profissional do carnaval, conseguiu outra proeza  - a de ocupar as páginas dos grande jornais em pleno mês de junho.

Ao fim do desfile da Viradouro, as reações variavam. "Temos de tirar o chapéu para ele!", dizia um jornalista. "O desfile não arrepiou, merece no máximo nota 8", criticava um comentarista de carnaval. Opiniões opostas sobre o desfile de uma escola de samba são uma característica do carnaval. Com Paulo Barros, a divergência se radicaliza. 

Por quê?

Porque Paulo Barros não carnavaliza seu desfile, ou os momentos em que ele dá o que falar. As escolas de samba têm uma linguagem própria, que se sedimentou nos anos 60, com a participação de profissionais com formação erudita nas agremiações. Uma fantasia, uma alegoria, um adereço, mesmo fora do contexto do carnaval, serão sempre criações carnavalescas. Ou melhor, carnavalizadas. Uma pista de esqui na Sapucaí, bruta, sem ao menos uma decoração, uma estética que conote carnaval, é exatamente isso - uma pista de esqui levada a um desfile. Causa impacto, mas não é linguagem carnavalesca.

Seria assim com o famigerado carro do Holocausto. Pelas fotos que foram publicadas, Paulo Barros apostou na estética do grotesco, que em séculos passado na Europa foi a estética do carnaval, mas nunca a das escolas de samba, nunca a do carnaval do Brasil. Seria impactante, assim como o foi a solução que ele encontrou para substitui-la, com homens de branco com mordaça encimados pela figura do Tiradentes. Mas, da mesma forma, descarnavalizado. 

Para o julgador de alegorias e adereços, as inovações de Paulo Barros criam um sério problema: como criar um parâmetro de julgamento com as outras escolas? Como avaliar a alegoria em sua criatividade, conforme o regulamento, se uma pista para esquiar, em si, não é nada criativa, mas sim idéia de transpô-la para a avenida? Como reparar no acabamento, se não há acabamento?

Quando, em 2004, a alegoria humana do DNA encantou a todos, Paulo Barros emergiu como o inovador de uma festa que pedia inovação. A pecha de revolucionário tirou-lhe os freios da criatividade. Hoje, enquanto outras escolas incorporam as alegorias humanas ao desfile - como a sua ex-agremiação Unidos da Tijuca - Paulo Barros assumiu a identidade de um artista contemporâneo, procurando romper os cânones da arte. É o Duchamp do carnaval.  

A estética de Paulo Barros é tão polêmica que deixa em segundo plano outros quesitos que não são de sua responsabilidade, como harmonia, evolução, samba-enredo, mestre-sala e porta-bandeira. Carnaval são dez quesitos; mas, para a opinião pública, o carnaval da Viradouro é o do Paulo Barros. Um carnaval descarnavalizado.   

Paulo Barros está em toda parte: nos sites especializados, nos programas de rádio, nas listas de discussão. Hoje, o passado e o presente dele estão atrelados à sua obra e à sua personalidade forte. Demitido da Viradouro sob a alegação de que sua estética não se encaixava num enredo histórico; contratado pela Vila Isabel ante o espanto e a perplexidade de todo o mundo do carnaval, que sabe ser difícil a conciliação de dois estilos - o dele e o de Alex de Souza - completamente diferentes.  

A referência ao franco-americano Marcel Duchamp (1887-1968), guardadas evidentemente as devidas diferenças e proporções, está na ruptura com os cânones artísticos de fruição passiva e contemplativa. Ao dar a um urinol invertido um status de obra de arte, na década de 10, Duchamp revolucionava a arte, atribuía a seus objetos um valor subjetivo que só se completava quando lhes somava a interação do espectador. Tudo podia ser arte. E, por isso, nada era  arte. Assim é Paulo Barros: ao levar para a avenida um pista de esqui, um castelo de cartas invertido, fuscas prestos fundidos e - no início - as alegorias humanas, buscava mostrar que tudo pode ser arte carnavalesca, mesmo que esta não seja carnavalizada.           

Assim como Duchamp fazia a antiarte dentro da arte, Paulo Barros faz o anticarnaval dentro do carnaval. É isso que dá um nó na cabeça dos críticos e no público, em geral muito passionais - vai da adoração ao ódio - na análise do trabalho do carnavalesco.Pouco importa se não foi ele o primeiro a usar os recursos com os quais ficou conhecido. Tampouco se ele ainda é um novato, com uma longa estrada pela frente. (Pelo contrário: nesse aspecto, é sinal de sua importância). Foi Paulo Barros quem estabeleceu essa linguagem própria de que se está falando, foi ele quem encarnou, até mesmo no ego inflado, o artista contemporâneo que se sabe ou se pretende inovador e iconoclasta.

Duchamp foi - juntamente com Pablo Picasso - o artista mais importante do século XX. Influenciou decisivamente movimentos artísticos posteriores, como a pop arte, a arte sensorial, a arte conceitual. Seu legado, no entanto, está em crise neste limiar de novo século

Paulo Barros, quando deixou de ser novidade, passou a ser questionado. Nada parece indicar que, ao menos por ora, está deixando um legado. Sua contratação pela Vila Isabel está mais para a capitulação - denota um freio que lhe será dado - do que para possibilidades de continuar em sua iconoclastia. Será o carnaval, em sua linguagem, essencialmente conservador, ou seja, um carnaval que só aceita inovação dentre de certos padrões já estabelecidos?  

Deve-se pôr o debate nestes termos, patamares acima dos atuais.

* Bruno Fillipo é jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá

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'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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