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Acadêmicos do Samba: 'Mais uma vez, Luma' Colunista Bruno Filippo aborda o assunto mais 'quente' dos últimos tempos no mundo do samba Bruno Filippo Conheci Luma de Oliveira há 12 anos, quando fui entrevistar seu então marido, o empresário Eike Batista, um dos homens mais ricos do Brasil. Coberta do pescoço aos pés, sem fendas, decotes e coleiras e – creio – com calcinha, ela me recebeu com simpatia, pediu-me para aguardar um pouco, pois Eike ainda não chegara, atrasado que estava de uma reunião. Obedecendo a seus imperativos, sentei-me, tentei parecer à vontade, aceitei o copo d`água, mas recusei o café. Era visível meu constrangimento, não esperava estar frente a frente com a mulher que alimentou a fantasia dos jovens da minha geração e das seguintes. Emudeci enquanto procurava as palavras certas, mesmo que, depois de aparentemente encontrá-las, eu pronunciasse o que me pareciam ser apenas palavras vãs, com o intuito de puxar assunto. E aí, Luma, como está o carnaval? Só depois, horas depois, já em outro ambiente, percebei que pergunta não fazia muito sentido: estávamos bem distantes do carnaval, não se falava no assunto, não havia os sites, como O Dia na Folia, dedicados à cobertura diária dos bastidores das escolas de samba. Poucos programas de rádio, exceto o de Tárcio Santos e o de Arlênio Lívio, ambos na Rádio Nacional, abriam espaço para os bastidores do carnaval. Ela também percebera, mas de imediato, a ingenuidade da pergunta, tanto que sua resposta não foi a que eu imaginara, nem a que a pergunta sugeria. Seguiu-se um rápido diálogo, que foi encerrado com a chegada de Eike Batista, quando então o assunto, de carnaval, transmudou-se para o universo árido da economia. Confesso que gostaria que ele se mantivesse atrasado; mas, como estava lá por causa dele, só me restou reter os principais momentos do diálogo, que são estes: Você sabe que eu sou apaixonada por carnaval desde criança? Me encantava com as imagens de Arlequim, de Pierrô, de Colombina, pedia à minha mãe para comprar livros sobre carnaval, gosto de seu universo, das pessoas, de sua plástica. O carnaval já estava em minha vida muito antes de eu me tornar modelo e começar a desfilar como rainha de bateria. Conheço carnaval muito mais do que todos pensam. Não preciso do carnaval, sou uma pessoa bem sucedida, desfilo e apareço porque gosto, e gosto muito. Mas o carnaval lhe dá visibilidade, não? Dá, mas não preciso disso para viver. Faço isso porque gosto de carnaval, porque gosto de desfilar. Então o que você pode fazer para mostrar às pessoas que realmente entende de carnaval? Quero me envolver com o processo de produção e criação do carnaval. Ainda serei dirigente de escola de samba, você vai ver. ****** O anúncio de sua candidatura à presidência da Viradouro sacudiu o mundo do samba, e só a possibilidade de que mulher bonita, modelo - que no carnaval, como todas as outras beldades que desfilam, sempre cumpriu o papel de símbolo sexual de consumo rápido – assuma o comando de uma escola de samba já é, em si, um fato sociológico da maior relevância. Ao intentar invadir um terreno que, malgrado algumas exceções, é por excelência masculino, Luma de Oliveira assume a responsabilidade de mostrar que não é só um corpo bonito sempre à espera de fotógrafos e cinegrafistas; e de que, de fato, entende de carnaval, como me revelou há mais de uma década e voltou a fazer na entrevista coletiva da última quarta-feira, e terá peito - em sentido metafórico - para impor-se num universo machista. Seu discurso, do ponto de vista simbólico, foi perfeito: apelou à comunidade, às raízes da escola. Criticou o que considera “falta de chão” da Viradouro, e enfatizou que fora convidada por um grupo chamado Raízes da Viradouro. Prometeu repatriar antigos componentes, como Dominguinhos do Estácio, e manter Paulo Barros. Com isso, aliou tradição à modernidade, que ela, como beldade que por anos ocupou um cargo sempre muito questionado, e Paulo Barros, como inovador da estética carnavalesca, representam. Luma de Oliveira sabe promover-se como poucas. De boba ou burra, nada tem. Se encarou esta empreitada, é porque sabe dos riscos. Aproveitou-se do carnaval, sem dúvida; acumula, em vinte anos de passarela, histórias boas e outras lamentáveis. É rica, famosa, não precisa dos aborrecimentos – nem das benesses - do cargo de presidente de uma grande escola de samba. Será uma boa presidente? Não se sabe. Politicamente, não se sabe nem se sua candidatura tem densidade entre os componentes da Viradouro com direito a voto. Mais uma vez, ela se aproveitou do carnaval para aparecer. Desta vez, no entanto, para provar que o carnaval pode se aproveitar dela.
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