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Acadêmicos do Samba: Menino, quem foi teu mestre? Bruno Filippo
Na enciclopédia livre da internet, a Wikipédia, na qual os verbetes podem ser atualizados constantemente por qualquer pessoa, o espaço destinado a Alberto Mussa é lacônico: Ainda não há referências ao que aconteceu na manhã do domingo 12 de outubro, quando foi anunciado o samba do Salgueiro para o carnaval de 2009. Mas é de imaginar que, em pouco tempo, seu verbete seja rapidamente acrescido daquelas discussões que, perpassando décadas a fio, reafirmam, à custa de repetição de uma idéia, a dicotomia entre “tradicionais’ e “modernos”. Beto Mussa foi a corruptela com que assinou – juntamente com quatro parceiros, entre eles um historiador, um arquiteto e dois garis – um dos quatro sambas-enredos finalistas. Era um samba-enredo diferente, à moda antiga, que os expertos, como se diz em espanhol, dizem não servir aos padrões atuais. A elaboração da letra, a beleza da melodia e a campanha favorável de sites e fóruns dedicados ao carnaval não lhe renderam sequer um voto dos que detinham o poder de definir a escolha.
Sua participação na disputa este ano serviu para reinseri-lo no universo ao qual sempre pertenceu, além de mexer com a sensibilidade de ouvidos exigentes. Autor de quatro livros, laureado com prêmios literários nacionais e internacionais, Alberto Mussa é formado em português e literatura – e, ao longo de seus quarenta e sete anos de vida, adquiriu intimidade tanto com os livros quanto com o carnaval. Na assinatura do samba, constam um historiador (Luis Antônio Simas), um arquiteto (Edgar Filho) e dois garis (Bené do Salgueiro e Gari Sorriso). Como foi feita a parceria? Alberto Mussa - Quando pensamos em fazer o samba, conversamos com o Gari Sorriso (Renato Luiz Lourenço, um gari que faz sucesso na Marquês de Sapucaí sambando com a vassoura na mão), que é muito amigo da irmã do Edgar. O Gari Sorriso nos falou do Bené do Salgueiro, que também é gari. Conversamos um dia, e agregamos força para concorrer. Como foi o processo de criação do samba? Quem fez o quê? Alberto Mussa - Risos... Isso é complicado! Fizemos um pacto desde o início: todo mundo fez tudo! Gargalhadas... Vocês, quando começaram a fazer o samba, pensaram no estilo clássico? Alberto Mussa - Não foi deliberado. Não nos reunimos e dissemos: “Olha, vamos recuperar o estilo clássico dos sambas-enredos”. Foi espontâneo, surgiu da leitura que fizemos do enredo. Se o enredo fosse sobre a história do circo, não há como fazer uma linha melódica que fizemos nesse samba. Fizemos uma leitura densa, grave da sinopse. Acho que o compositor, quando começa a fazer um samba, tem de pensar no aspecto visual do enredo. Quando saíram os protótipos do Renato Lage, nós acreditamos que tínhamos chance de ganhar. Eu pensei: “Esses protótipos só estão casando com o nosso samba.” Donde se conclui, pela sua fala, que o samba vencedor não combina com os protótipos do Salgueiro? Mas o próprio Renato Lage, pelo que saiu na imprensa, achava que o samba não servia para o desfile. Alberto Mussa - Temos de separar os aspectos aos quais devemos dar um tratamento mais sério, mais épico, mais denso. Falei do circo, que pede um samba mais leve. Mas se uma escola for falar de Zumbi dos Palmares, não há como fazer um baile carnavalesco na avenida, uma empolgação como aconteceu em “Peguei um Ita no Norte”. O samba de Luiz Carlos da Vila adequou-se à estética da Vila Isabel, e foi por isso que aconteceu aquele grande desfile. “Kizomba” é um samba antigo? De jeito nenhum! Isso não é ser antigo ou moderno, é uma questão de estética, é muito diferente. Renato Lage disse, na palestra aos compositores, que queria um samba com ar de ritual. O logotipo do enredo remete a uma espécie de ritual. É um logotipo denso, há pinturas pré-históricas. Quando perdemos de vista essa diferença, a capacidade de entender a adequação do samba ao enredo, caímos na padronização, empobrecemos o samba e o enredo. Outra coisa que se afirma, e da qual discordo, é que o compositor tem de fazer samba para a bateria. Eu nunca vi o compositor ter de fazer música para um determinado tipo de orquestra. É exatamente o contrário: o músico é que tem de explorar as potencialidades da música. Seria interessante, então, que os protótipos fossem divulgados antes? Alberto Mussa - Seria. Eu acho muito importante. Muita gente não vai concordar comigo. O enredo é a origem de tudo, é o que vai determinar o estilo da escola, o estilo do samba. As pessoas ficam presas a afirmações do tipo: “O samba tem a cara da escola tal”, como se a “cara” da escola não fosse determinada pelas circunstâncias do enredo. Didi fazia sambas no Salgueiro com uma característica; quando passou a compor para a União da Ilha de Maria Augusta, mudou o estilo, para se adaptar à concepção da carnavalesca, leve e solta. As torcidas organizadas que comparecem às quadras são prejudiciais à escolha do samba-enredo? Alberto Mussa - Eu acho prejudiciais, porque excluem das disputas os compositores que não têm recursos para bancar essas despesas. Ou esses compositores não concorrem, ou são obrigados a se aliar a outras pessoas que não compõem, mas se comprometem a arcar com as despesas. Mas admito que é um processo quase irreversível. Torcida com bandeira, com adereços, faz parte do espetáculo, anima a quadra. Nós fizemos a mesma coisa. No início, levávamos a torcida sem bandeira. Depois, também passamos a levar bandeira. O ideal seria que a escola proibisse a presença de torcida organizada. Se uma direção quiser uma disputa de samba, terá de proibir essa prática, que torna o evento artificial, pois aquelas pessoas não estão dançando e cantando porque a obra é boa, e sim porque estão recebendo dinheiro, ou outros tipos de favores, para isso. A mobilização em prol do samba foi muito grande na internet. Mas essa mobilização não se refletiu na escolha do samba, uma vez que vocês não receberam sequer um voto. A influência do mundo virtual não chegou ao mundo do samba real? Alberto Mussa - No caso do mundo virtual, as pessoas, em geral, são admiradoras de samba, não necessariamente são pessoas envolvidas com a escola de samba. Estão ouvindo o samba abstratamente, acharam que o samba fazia um resgate do passado. O Nei Lopes mandou um e-mail elogiando muito nosso samba, assim como outras pessoas que não estão mais envolvidas com o dia-a-dia das escolas de samba. É uma apreciação diferente de quem está na escola. As variáveis, nesse caso, são outras. Há pessoas que só pensam no desfile, e acham – no que têm todo o direito de fazer – que nosso samba não servia ao desfile. A matemática da final é diferente dos outros cortes. Antes da final, os sambas são cortados; na final, o samba é escolhido. É bem diferente. Não fomos cortados, mas também não fomos escolhidos. Por que não foi cortado? Porque alguém ali gostava do samba. E por que não foi escolhido? Porque outros fatores, que não necessariamente a qualidade da obra, influenciaram o julgamento. Quais fatores? Vários! Lembro que me disseram: “Vocês chegaram agora na escola, não podem ganhar samba logo de cara.” É bom deixar claro que o samba do Moisés foi legitimamente escolhido, a escola queria o samba. Já freqüentei finais de samba de 77 a 83, já briguei, já chefiei torcida, e com base nessa experiência lhe digo: dificilmente um samba que não é do agrado da escola é escolhido. A escola não queria o nosso samba. Falei isso com os meus parceiros. Tenho certeza de que, se fôssemos escolhidos, seríamos solenemente vaiados na quadra. O samba-enredo é um gênero decadente, como alguns críticos dizem? Alberto Mussa - Eu adoro samba-enredo. Tenho uma estante com toda a coleção de LPs e CDs de samba-enredo, ouço-os com freqüência durante todo o ano..A música está associada ao gênero lírico na poesia. A letra de música inglesa, americana é essencialmente lírica. O Rio de Janeiro é o único lugar do mundo contemporâneo no século XX que desenvolveu uma épica musical, que é o samba-enredo. Mesmo com as transformações do gênero, o estilo épico-narrativo não mudou. Daí a importância e a singularidade do nosso carnaval. Não acho que seja decadente: existem sambas bons e sambas ruins. O enredo do Salgueiro foi criticado por ser considerado um tema, não necessariamente um enredo. O que acha da crítica? Alberto Mussa - Esses temas sempre existiram na história dos enredos de escolas de samba, desde a década de 40. O enredo do Salgueiro de 66, “Amores célebres”, era um tema: fala de quatro amores da história do Brasil. “Os cinco bailes da história do Rio” também é um tema: não há história com começo, meio e fim. Assim como “O Vale do São Francisco”, samba de Cartola e Carlos Cachaça, e tantos e tantos outros. Falar sobre o tambor é um tema? É um tema, mas qual é o problema? Como era sua relação com Didi? Alberto Mussa - Didi, cujo nome era Gustavo Adolfo Baeta Neves, era irmã de minha mãe. Sempre fui muito próximo dele, jogávamos bola juntos. Sou flamenguista e salgueirense por causa dele. Pouca gente sabe, mas Didi era salgueirense, não era torcedor da União da Ilha. Chegou a ganhar quatro sambas no Salgueiro, mas só assinou um, o de 87, “E por que não?”, no ano em que ele morreu. Quais os três que ele não assinou? Alberto Mussa - Traços e troços”, de 83; “História da liberdade do Brasil”, de 67; “Dona Beija”, de 68, em minha opinião o samba mais bonito de Didi. Em 67 e 68 ele compôs junto com Aurinho da Ilha. Em 83, ele concorreu também na União da Ilha, mas assinando o samba, por isso o nome dele não aparece no do Salgueiro. O Peixinho, presidente da Ilha na época, cortou o samba porque sabia que Didi estava em outra escola. Ele não assinava os sambas devido a pressões familiares? Essa é a história que contam. Alberto Mussa - Nos anos 60, até o início dos anos 70, sim. Didi, na época, era procurador da República. Minha avó não gostava de samba, de cultura popular, tinha posições elitistas. Aurinho da Ilha aparece como único autor. Além disso, ele foi casado com uma mulher muito sofisticada. Depois que se separou dessa mulher, ele passou a assinar os sambas, lá pelo fim dos anos 70. Todos afirmam que “O amanhã”, de 78, é dele, embora esteja em nome de outra pessoa. No entanto, uma fonte me disse que você é parceiro dele nesse samba que entrou para a história. Alberto Mussa - Risos... É verdade. Ele me mostrou a sinopse de “O amanhã”, e aí esbocei um samba que era assim: “Eu recordo quando era menino/Procurei/Astros pra saber do meu destino/E sempre perguntei/Como será o amanhã?/Como saber se vou ter sorte ou azar?” E por aí vai, não lembro o resto. Didi gostou muito da melodia, aperfeiçoou-a, modificou a letra, incluiu bossas. Foi Didi quem o aproximou do samba? Alberto Mussa - Minha mãe adorava samba, ela só escutava rádio que tocava samba, e eu escutava junto com ela. O samba do Martinho da Vila em 72 me chamou muito a atenção. Passei a comprar o LP das escolas de samba com o dinheiro da mesada; e, depois, passei a querer fazer samba. Assisto aos desfiles do Grupo Especial e dos grupos de acesso, in loco, desde 1975 Quando comecei a querer fazer samba, Didi me estimulou muito. Eu era o único sobrinho que gostava de samba, não gostava de rock, nunca tive influência americana. No Colégio São José, onde estudava, eu me sentia diferente dos colegas, daí surgiu a amizade com o Edgar, que era colega de colégio. Nós discutíamos sobre carnaval, sobre resultado de desfile. Como foi sua formação cultural? Alberto Mussa - Nunca vivi a separação entre o popular e o erudito. Do lado da minha mãe e do meu tio, aprendi a gostar de samba, meu gosto musical foi moldado pelo samba. Fui capoeirista, toquei atabaque em terreiro de umbanda e candomblé – fui ogã, hoje sou babalaô -, tive um conjunto de samba no Andaraí, larguei a faculdade de matemática para ser músico percussionista. O fato de o enredo do Salgueiro ser sobre o tambor me ajudou a voltar a compor. Se fosse um enredo sobre Paracambi (risos), acho que me faltaria inspiração. Do lado do meu pai, que é de origem árabe, foi um pouco diferente. Ele lia muito, sempre gostou muito de literatura. Nossa casa era cheia de livros. E eu, desde garoto, sempre li muito: Machado de Assis, Camões, Eça de Queiroz. Gostei tanto de samba-enredo e Martinho da Vila quanto de Castro Alves e Machado. Você chegou a trabalhar como dicionarista, na equipe de Antônio Houaiss. Como foi essa experiência? Alberto Mussa - O escritor Alberto Mussa nasce em 94. Escrevi um conto, achei que ficou bom. O Antônio Houaiss me ajudou muito, escreveu o prefácio de meu primeiro livro, “Elegbara’ publicado em 1997. Depois publiquei ‘O trono da rainha Jinga”, em 99; “O enigma de Qaf’, em 2004; e, há dois anos, “O movimento pendular”. Restou alguma mágoa da disputa de samba? Alberto Mussa - Fiquei triste com duas coisas: não tivemos apoio da Velha-Guarda e da Ala das Baianas. Não recebemos desses setores tradicionais um voto sequer. São pessoas veteranas, que se formaram na escola dos sambas-enredos tradicionais, e não reconheceram nosso trabalho. Mas o que me deixou, a mim e a meus parceiros, magoado foi a declaração de Renato Lage de que nosso estilo de fazer samba não serve para o desfile. Com isso, ele praticamente nos alijou das disputas na escola, pelo menos enquanto ele estiver lá.
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