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Acadêmicos do Samba: Noite feliz ou uma noite de paz? Colunista Bruno Filippo recorre a duas músicas – uma famosa canção natalina e um samba-canção de Dolores Duran, para deixar sua mensagem de Natal Bruno Filippo
Uma das músicas natalinas mais tocadas no mundo é, na versão brasileira, chamada de “Noite Feliz”. Há centenas de versões, em vários idiomas, criadas a partir da melodia original. No Brasil, a mais conhecida é esta: Noite feliz, noite feliz! Foi pensando nessa noite, no momento em que Ele nasceu, que a música foi composta pelo padre Joseph Morh e pelo pianista Franz Gruber, que musicou os versos de Morh. Mas isso foi há muitos anos: no início do século 19, em Oberndorf, pequena cidade dos Alpes Autríacos, um dos lugares mais lindos do mundo. Hoje, essa canção está no nosso inconsciente coletivo; e, em Oberndorf, uma capela, para homenagear os moradores mais ilustres de sua história, registra em seus vitrais as feições de Joseph Morh e Franz Gruber. Não obstante sua melodia triste, “Noite Feliz” é cantada menos como um convite do que como uma intimação à felicidade a que todos devem aderir porque é Natal. Não importa seu estado de espírito durante todo o ano. Importa que se deixe o espírito natalino impregná-lo. É triste, mas é verdadeiro: a aspiração a uma noite feliz não será uma realidade para todos. Nesses momentos, paradoxalmente, as tristezas, as angústias, as frustrações costumam aflorar em muitos que, oprimidos pela obrigação de serem felizes, fingem a felicidade. Não estou inventando uma teoria, nem sendo um estraga-prazeres da tradição natalina, nem mesmo um apóstolo do pessimismo: as tristezas natalinas são tão cantadas em verso e prosa quanto sua felicidade. Há um samba-canção chamado “Noite de paz”, de Dolores Duran – compositora que soube traduzir em letras e melodias o sentimento de melancolia –, que, mesmo não sendo uma canção natalina, e sim uma canção dor-de-cotovelo, permite um contraponto à “Noite feliz”. (No vídeo que ilustra esta coluna, a subestimada cantora Vânia Bastos a interpreta num show realizado recentemente, em São Paulo) Em seus versos, pede-se: Dá-me, Senhor Pelo nome, ambas se complementam, pois felicidade e paz são sentimentos que, em nossa maneira de pensar, advêm da mesma fonte. No entanto, a paz de Dolores Duran, quer dizer, a paz a que aspira, que pede ao Senhor, é a paz de uma noite simples, sem festas, sem rituais; uma noite de descanso da mente e das dores da mente, sem esperança e sem sonho nenhum. É a paz dos infelizes, dos sofredores. É a paz que se destina a quem, ao deitar-se, sonha, espera – em vão. Por isso, o que há de mais puro e mais sincero pode ser trocado por essa paz que, à noite, não fará lembrar a esperança e os sonhos. Aqueles que fingem felicidade na noite de Natal não terão uma noite de paz. Esses, após a ceia, após os cumprimentos, após dar e receber presentes, vão deitar-se envoltos na paz dos infelizes. Na solidão de suas consciências, clamarão por uma noite bem comum. Ainda que seja para sonhar, para ter esperança. Ainda que seja para que possam ter, no ano seguinte, uma noite feliz. * * * Independentemente do que desejam nesta época – uma noite feliz ou uma noite de paz -, deixo a vocês, caros leitores, votos de feliz Natal.
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