* Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)
“Sou brasileiro”, responde Luiz Carlos Prestes Filho quando lhe pergunto o motivo por que se aproximou do carnaval. Por treze carnavais, dos nove aos 24 anos, o sétimo dos dez filhos do líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) passou na fria Rússia, exilado que sua família estava da ditadura militar. Estudou no Instituto Estatal de Cinema da União Soviética, onde se formou na cadeira de “Direção e produção de filmes televisão e cinema”.
De volta ao Brasil nos estertores da ditadura, em 83, Prestes Filhos, hoje com 48 anos, dedica-se a estudar a produção cultural à luz da teoria marxista. Fez isso há cinco anos, no trabalho “A cadeia produtiva da indústria da música”. Para este ano, prepara o lançamento de “A cadeia produtiva da indústria do carnaval”, trabalho que, juntamente com cinco outros pesquisadores, procura mapear todos os setores da economia envolvidos com o carnaval.
Professor da Universidade Cândido Mendes, assessor para desenvolvimento da indústria cultural da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do governo do Estado, Prestes Filho faz interessantes análises sobre os números do carnaval. De início, parecem análises resignadas, conformistas em relação à absorção da festa pela indústria cultural.
Do meio para fim, porém, faz jus ao sobrenome histórico: “A cadeia produtiva da economia do carnaval é, de certa maneira, O capital (obra culminante do filósofo alemão Karl Marx) do carnaval. É um trabalho que procura estudar as engrenagens do capitalismo no carnaval. Marx nunca deixou de ser revolucionário por estudar as engrenagens do capitalismo.”
Por que estudar o carnaval sob o prisma econômico?
Prestes Filho - O objetivo do estudo é mostrar que a cadeia produtiva do carnaval tem similaridades com a cadeia produtiva da indústria do petróleo, da indústria do gás, da indústria têxtil, da indústria naval. O carnaval existe, dentro do nosso sistema, para gerar grana, para fazer as pessoas ganharem dinheiro. Por isso ele está cada vez mais fortalecido. Se pensarmos o carnaval apenas como um momento de alegria, de entretenimento, de lazer, não vamos entender seu lado produtivo.
Qual o impacto econômico do carnaval do Rio para a cidade?
Prestes Filho - Estamos falando de 400 mil possibilidades de postos de trabalho, sendo 200 mil efetivos, e de mais de 700 milhões de anos injetados na economia do estado, isso ao longo do ano inteiro. A cadeia produtiva da indústria do carnaval envolve vários segmentos da economia: turismo, audiovisual, indústria fonográfica, indústria de bebidas, entretenimento, propriedade intelectual, direito de personalidade.
O que acha da idéia de fixar uma data para o carnaval?
Prestes Filho - Temos de realizar uma pesquisa profunda sobre o impacto dessa mudança do ponto de vista da tradição. No Brasil, temos uma relação muito importante com datas. Veja que em 1922 comemorávamos o centenário da Independência, e foi nesse ano que tivemos o levante do Forte de Copacabana, que é o marco do movimento tenentista que vai levar à Revolução de 30; foi nesse ano que aconteceu a Semana de Arte Moderna, que é um marco na cultura brasileira; e foi também em 22 que se criou o Partido Comunista Brasileiro. Mexer com uma tradição é algo muito sério, não podemos mudar por mudar. Temos de fazer uma pesquisa sobre o impacto emocional dessa mudança. Para sabermos o impacto do carnaval no início de fevereiro para a economia teríamos, como falei, de fazer uma pesquisa. Não podemos afirmar nada sem informação. É responsabilidade não só dos poderemos públicos, mas de instituições ligadas ao carnaval. Temos de parar de chutar, temos de trabalhar com dados concretos na mão, e não somente com a intuição.
Na última década, os enredos patrocinados passaram a dominar o carnaval. É um assunto polêmico, pois se costuma dizer que isso interfere diretamente no processo criativo do carnaval. O srº, como economista, como avalia essa relação?
Prestes Filho - Nós estamos num país capitalista. Se alguém cria uma fábrica de botões, tem de vender botões para o mercado, o que obriga o proprietário a saber quantos botões pôr no mercado. Existe um planejamento. O problema do patrocínio nas escolas de samba é o mesmo do patrocínio do futebol, por exemplo. Ao longo de nosso estudo, não conseguimos visualizar uma política de patrocínios definida para a área do carnaval. Mas nós não podemos olhar para o carnaval de hoje como se estivéssemos na década de 30 ou na década de 70.
E a interferência direta na criação?
Prestes Filho - Essa é uma discussão que está dentro da produção audiovisual. Os diretores de cinema dizem: “Poxa, estamos recebendo patrocínio da Columbia Pictures, uma empresa americana, e eles estão querendo ditar o padrão do filme.” Nós estamos num país capitalista, repito, onde quem tem dinheiro manda. Não é TV Globo que produz suas novelas? Ela produz o que ela quiser. As emissoras de televisão fazem pesquisas para saber a que tipo de novela o público quer assistir. Se os custos com determinado tipo de novela forem muitos caros, as televisões vão compensar isso com os patrocinadores que tiverem a fim de bancá-la. O que funciona é a economia de mercado. O Estado pode regulamentar, com o objetivo de impor certo equilíbrio, mas o capital é quem manda, e não poderia ser diferente no carnaval.
Isso não é maléfico sob o ponto de vista cultural?
Prestes Filho - Muitas vezes Michelangelo e Leonardo da Vinci fizeram exatamente aquilo que o mecenas mandavam. Dostoiévski publicou vários de seus livros em capítulos que foram escritos às pressas e de acordo com que o editor mandava escrever. Shakespeare era um dramaturgo que escrevia peças para ganhar muito dinheiro, sim, inclusive emprestava dinheiro a juros altos, ele era um bom capitalista. A história das artes está repleta desses exemplos. Se Shakespeare, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Dostoiévski fizeram isso, por que haveria de ser diferente com as escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro? O que elas têm de “bonitinho” que não podem se enquadrar na economia de mercado, que às vezes é muito mais violenta do que o mecenas e o senhor feudal? Existe certo exagero nessa crítica.
Mas a injeção de dinheiro público sem a contrapartida direta – o governo do Estado do Rio, por exemplo, doou R$5 milhões para as escolas do Grupo Especial - não contradiz os preceitos do capitalismo?
Prestes Filho - A vida é um rua de mão dupla, às vezes vai, às vezes vem. Nós estamos no meio de um processo, temos de acompanhá-lo. Não podemos somente ter uma visão negativa disso. É preciso entender o carnaval como um grande segmento de desenvolvimento econômico do estado do Brasil.
Quais são os pontos deficientes do processo produtivo?
Prestes Filho - O carnaval tem de melhorar sua gestão, tem de abraçar as legislações trabalhistas, qualificar a mão-de-obra. Já temos o Sambódromo, a Cidade do Samba, mas a infra-estrutura precisa melhorar mais, seja nos barracões, seja nas quadras. Qualquer pessoa que freqüente quadras de escolas de samba sabe que é preciso melhorá-las. Pesquisas qualitativas constantes devem ser feitas.
A modernização do carnaval por intermédio de sua inserção na economia de mercado não eliminou formas arcaicas de comando e de organização. Um paradoxo, não?
Prestes Filho - Será que o nosso Congresso Nacional ainda não se mistura a formas arcaicas? Será que a Federação das Indústrias e a Federação do Comércio também não se misturam a formas arcaicas? O carnaval é um reflexo da sociedade brasileira, não está à parte, é a cara do Brasil atual.
O srº acha que houve retrocesso na imagem do carnaval devido aos fatos dos últimos meses?
Prestes Filho - Não houve retrocesso. A imagem melhorou muito nas últimas décadas. A verdade é que tem de sempre prevalecer, a verdade é que vai levar à solução dos problemas. Os fatos estão aí, estão sendo divulgados.
Como foi o tempo em que você viveu na Rússia?
Prestes Filho - Fui para Moscou como parte da bagagem dos meus pais, que tiveram que sair do país por conta do golpe militar fascista brasileiro de 1964. Muitas crianças eram presas e violentadas para que os pais se entregassem. Então a decisão da direção do Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi a de que a família Prestes deveria morar na União Soviética. Cheguei lá em 1970, aos nove anos de idade, e voltei para o Brasil em 1983, aos 24 anos. Foi lá que me graduei.
Como se aproximou do carnaval?
Prestes Filho - Sou brasileiro... o carnaval está dentro de mim!
Torce por alguma escola?
Prestes Filho - Tenho muita admiração pela Portela e pela Grande Rio. Escolas que tiveram a coragem de homenagear meu pai com sambas maravilhosos. A Portela fez isso em 1946, com a letra e música do Paulo da Portela. A Grande Rio em 1998, no centenário do Velho, com um desfile bem humorado.
Como o filho de um histórico líder comunista vê o capitalismo no carnaval?
Prestes Filho - A cadeia produtiva da economia do carnaval é, de certa maneira, O capital do carnaval. É um trabalho que procura estudar as engrenagens do capitalismo no carnaval. Marx nunca deixou de ser revolucionário por estudar as engrenagens do capitalismo. Não defendo o capitalismo, mas no atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas, nós temos de entender suas engrenagens: de um lado o ser humano, de outro o dinheiro. Eu proponho mudanças, mas essa mudança só virá com a mudança do sistema político-econômico. E, para mudar um sistema, você tem de conhecê-lo.
Trata-se, então, de uma análise marxista do carnaval?
Prestes Filho - Sim. Sou marxista por formação. Se você não ler "O capital" de Marx, não vai entender o funcionamento do sistema capitalista. A mudança no carnaval só se dará com a mudança do Brasil. Se você não entende o capitalismo, acha que pode reformá-lo, que dentro dele há solução. No capitalismo não há solução.
O srº exerce alguma militância política?
Prestes Filho - Não estou militando em nenhum partido político. Hoje, eu busco entender a realidade do Brasil para, pelo menos, tentar amenizar o sofrimento das pessoas. O meu pai tem sua história, e tenho a minha história. Acho que o trabalho que eu faço é muito importante para entender onde nós estamos. O movimento revolucionário internacional vive um momento de crise muito grande. Ficou defasado, sem entender as mudanças que estavam acontecendo no mundo, sobretudo depois da dissolução da União Soviética.
Como imagina um carnaval diferente do atual?
Prestes Filho - Um poeta russo chamado Nicolai Rubtsov cunhou a seguinte frase: “Que desastre apocalíptico pode acontecer se há tanta gente envolvida?”. Aconteça o que acontecer, haverá carnaval, as escolas do Grupo Especial vão desfilar, as do acesso também. Temos de pegar essa realidade e trabalhar em cima dela. Uma vez, meu pai foi fazer uma palestra numa cidade e, quando ele chegou, alguns companheiros de partido lhe disseram: “Camarada, aqui ninguém estuda, ninguém lê, é difícil trabalhar com eles, é melhor desisti.” E ele respondeu: “O nosso povo é este, não é?. Então vocês querem fazer o quê? Inventar um outro povo? Não posso esperar cem, duzentos anos para encontrar um povo melhor. É com esse povo que eu vou dialogar.” A mesma coisa eu digo: o povo do carnaval é este, não é? Então vamos dialogar com ele, vamos estudar sua realidade, tentar melhorá-la a partir do que é real e concreto. Ficar idealizando não adianta nada.
Jornalista, sociólogo, professor do Instituto do Carnaval