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Acadêmicos do Samba: O Carnaval de Niemeyer Construção do Sambódromo sintetiza a obra do centenário arquiteto Bruno Filippo Projetou museus, monumentos, memoriais, prédios e sedes imponentes e, mesmo mantendo-se fiel ao ateísmo que resiste à velhice, igrejas e mesquitas. Se morresse aos trinta e três anos, a idade de Cristo, já teria escrito seu nome na história da arquitetura moderna, com seu primeiro trabalho individual, o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, encomenda que lhe fora feita pelo prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek. Mas, aos cem anos, Oscar Niemeyer erigiu um monumento à sua própria vida, cujos alicerces ele faz questão de manter sólidos e intactos, indiferentes aos vendavais que sopram em sentido contrário. É dessas figuras que, quanto mais se fala delas, mais se quer conhecê-las, como se sua vida fosse um manancial inesgotável de obras e idéias, e de fato o é, em se tratando de Niemeyer. Os rastros de seu centenário estão em várias partes do mundo. No Rio de Janeiro, entre outras obras que poucos sabem ser de sua autoria, ele fincou o Sambódromo, o único cartão-postal totalmente artificial de uma cidade abençoada pela natureza e maltratada pelos homens. Em seus quase vinte e quatro anos de existência, a Passarela dos Desfiles Professor Darcy Ribeiro, nome pomposo e oficial para os populares Sambódromo e Marquês de Sapucaí, sintetiza, no contexto do carnaval carioca, a arquitetura de Oscar Niemeyer, bem como as críticas a que se acostumou a receber. Quando recebeu a incumbência de projetar um local definitivo para o desfile das escolas de samba, Niemeyer estava realizando o sonho de alguém que anda desaparecido das crônicas carnavalescas: Amaury Jório, ex-presidente da Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Ainda no início dos anos 70, quando não se falava em superescolas de samba e em superalegorias, Amaury já batalhava por um lugar fixo na qual elas se apresentariam. Até 61, uma simples corda separava o público que se aglomerava nas calçadas da Avenida Rio Branco dos componentes das agremiações. No ano seguinte, instalaram-se arquibancadas para parte do público em frente à Biblioteca Nacional. Em 63, o desfile passou a ser realizado na Avenida Presidente Vargas, na altura da Candelária, com arquibancadas armadas, para cujo acesso se cobravam ingressos. As conseqüências dessa mudança foram, em essência, duas: o vislumbre do carnaval como um espetáculo capaz de gerar receita (e portanto lucrativo, desde que bem administrado); e, ao verticalizar a visão do público, acomodando-o em níveis acima do das escolas, as arquibancadas transformaram, lentamente, o desfile em espetáculo, algo para ser visto e admirado. Por essa época, o Brasil era um país dividido pelo maniqueísmo político e ideológico. Auto-exilado em Paris a partir de 64, Niemeyer via ruir o sonho de progresso e transformação político-social que seus traços passaram a representar. Rejeitando o ângulo reto das construções e abraçando a curva livre e sinuosa, que recobre seus projetos de plasticidade impactante, Niemeyer levou, para a arquitetura, o símbolo da identidade nacional, o Brasil brejeiro, sensual, erótico e feminino – mas ao mesmo tempo arrojado e moderno, conforme alardeava a euforia desenvolvimentista de Juscelino, de que ele fora um dos mais notáveis representantes. Ao retornar ao Brasil, no início dos anos 80, Niemeyer encontrou o país novamente em estado de euforia com a distensão lenta e gradual que, em Figueiredo, permitiu a volta dos exilados políticos e a eleição para governadores, em 1982. Leonel Brizola, um ex-exilado, antípoda do regime militar, elegeu-se governador do Rio de Janeiro, tendo como vice o antropólogo Darcy Ribeiro. Politicamente, a década de 80 foi intensa, esperançosa; economicamente, desastrosa; culturalmente, pobre. Mas isso só se saberia depois. Naqueles idos de 1983, Brizola e Darcy simbolizavam a resistência à ditadura que dava os últimos suspiros, os sonhos que foram perdidos duas décadas antes. E Oscar Niemeyer era o arquiteto desse momento; a ele coube projetar as duas grandes marcas do novo governo: os CIEPs e o Sambódromo. O desfile das escolas de samba cumpria uma trajetória ascendente. Havia pouco mais de um ano que o Império Serrano cantara o verso “Superescolas de samba S.A/Superalegorias/Escondendo gente bamba/Que covardia.” Da Candelária passara à Avenida Antônio Carlos, depois novamente à Presidente Vargas, mas na altura do Mangue, para chegar finalmente à Rua Marquês de Sapucaí. A montagem e desmontagem das arquibancadas era alvo constante de denúncias de corrupção, e representava um problema para o trânsito, pois as estruturas metálicas começavam a ser armadas com muita antecedência, de modo que em apenas poucos meses do ano a cidade via-se livre delas. Começava-se a discutir com seriedade o sonho de Amaury Jório. Foi então que, somando-se a isso, estourou uma grave crise entre as escolas e o poder público por causa das subvenções, que não eram corrigidas de acordo com a inflação. O cenário econômico era catastrófico para os países da América Latina:endividamento externo, hiperinflação, deterioração das condições de vida, conflitos sociais. Darcy Ribeiro propôs a construção de um lugar fixo, em troca do qual o governo não mais as subvencionaria, entregando-lhes a administração do desfile. O povo, que segundo a crônica carnavalesca estava afastado do carnaval, seria um dos principais beneficiados da obra, como contou, à época, o arquiteto Sabino Barroso, integrante da equipe de Niemeyer: “A idéia principal do projeto, a sua inovação maior, é a importância que ele dá à participação do povo, que foi alijado da passarela e só teria acesso para ver o carnaval pagando preços absurdos. Agora, toda população mais pobre terá possibilidade de assistir ao carnaval como espectadora. Oscar partiu de um projeto muito idealizado em que, suspendendo as arquibancadas, poderá dar por baixo acesso a uma massa bastante grande para ver o desfile”. Lidas hoje, essas palavras soam ingênuas – e provocam risos. Um ano depois de inaugurado, o setor localizado abaixo das arquibancadas deu lugar às antigas mesas e às frisas, caras e elitizadas, como os camarotes. O acesso das camadas mais populares está restrito aos piores lugares, como as arquibancadas da Praça da Apoteose, delirante criação de Darcy Ribeiro. O resto da história é mais do que sabido: o Sambódromo deu nova dimensão aos desfiles, fez com que a Liga Independente das Escolas de Samba fosse criada, injetou profissionalismo na festa popular. Modernizou o carnaval, mas não escapou ao rótulo que persegue Niemeyer: a falta de funcionalidade de suas obras. Quantas vezes ouvimos que se trata de uma obra que esfriou o carnaval? Que separou o público dos componentes? Que o açodamento e a vaidade dos mandatários impediram que pessoas do carnaval fossem ouvidas? Que outro lugar deveria ser encontrado para o desfile das escolas de samba? É improvável que isso aconteça. Para as novas gerações, é impossível imaginar o carnaval carioca sem associá-lo ao Sambódromo, embora este ainda não tenha chegado à crise dos vinte e cinco anos. O Rio de Janeiro sem Sambódromo - como algumas fotos que ilustram esta coluna – é, mesmo colorido, tão preto e branco quanto os registros de Marc Ferrez e Augusto Malta.
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