* Bruno Filippo
(Coluna Acadêmicos do Samba)
Fernando Pamplona representa o moderno e o tradicional no carnaval. Cenógrafo por formação, artista do Theatro Municipal, professor da Escola de Belas Artes, Pamplona formatou a estética atual das escolas de samba, ao misturar arte erudita e arte popular. Isso foi no início dos anos 60, no Salgueiro, onde formou, com Arlindo Rodrigues, uma geração basilar de carnavalescos.
Hoje, Pamplona é ex-carnavalesco há trinta anos. E afina, com diapasão, o coro dos descontentes. Para as novas gerações, ele é o comentarista ranzinza das transmissões TV, o crítico severo da degenerescência das escolas de samba, o saudosista que não compreende a evolução do carnaval. As críticas que profere atualmente são as mesmas que recebia quando estava no salgueiro. Era acusado de corromper a autêntica cultura popular.
Aos 81 anos, Pamplona diz que se cansou do carnaval. Mas bate palmas para sua mais recente estrela: Paulo Barros. Admira-o pela criatividade e pelo talento, mas o lado ranzinza não se furta a alfinetá-lo: "Ele não liga para a escola, aproveita-se dela para se promover." As semelhanças entre eles não são somente de estilo. Ambos são tachados de revolucionários; ambos, em épocas distintas, foram acusados de conspurcar o carnaval.
Nesta entrevista, concedida dentro de um táxi que o levava de Copacabana, bairro em que mora, até o Méier, onde seria entrevistado por estudantes universitários, Pamplona relembrou os antigos carnavais, criticou ferozmente as emissoras de televisão, atacou os enredos patrocinados e os sambas acelerados. Por fim, desabafou: "As minhas referências de carnaval não existem mais".
Fernando Pamplona é uma referência.
O que o srº acha de Paulo Barros?
Fernando Pamplona – Acho um grande artista. Ele deveria expor suas criações na Bienal de São Paulo, certamente seria premiado. Mas ele não liga para a escola, aproveita-se dela para se promover. Se eu fosse presidente de escola de samba, ele não seria meu carnavalesco.
Mas, do ponto de vista estético, Paulo Barros não é uma grande novidade?
Fernando Pamplona - Sim. Depois do Fernando Pinto, do Joãosinho Trinta, da Rosa Magalhães, do Max Lopes e do Renato Lage, o Paulo Barros foi a grande inovação do carnaval do rio, a única coisa boa que apareceu nos últimos tempos. Ele se renova constantemente. Mas repito: ele não serve à escola. Se a escola vier bem ou se vier mal, tanto faz, o que importa é que ele venha bem. Agora, ele não é original. Antes dele, outro carnavalesco fazia isso.
Quem?
Fernando Pamplona - Um artista extraordinário que faleceu muito cedo: Oswaldo Jardim. Na Unidos da Tijuca – não me lembro em que ano - ele começou a usar figuras humanas como elementos estéticos da alegoria. Uma vez eu o vi terminando um carro na armação, na Presidente Vargas, com galhos de árvores que ele arrancava na hora. Não lhe deram, em vida, o devido reconhecimento.
O estilo Paulo Barros se tornará um padrão?
Fernando Pamplona - Acho que não. É um estilo que morrerá com ele, e não contribui para uma escola de samba ser mais escola de samba. Ou seja: é uma marca pessoal.
Paulo Barros sofre severas críticas de alguns setores. No entanto, antes dele, reclamava-se muito de que o desfile estava-se tornando uma mesmice, clamava-se por novidades.
Fernando Pamplona – Esse negócio de novidade é muito relativo. Por que tem de haver novidades? Quando estava no Salgueiro, momentos antes de a escola desfilar na Presidente Vargas, um batalhão de repórteres começou a me perguntar qual seria a grande novidade que eu apresentaria naquele ano. Eu disse: “Nenhuma! O Salgueiro não vem com nenhuma novidade, desfilará do mesmo jeito que nos anos anteriores.” Para inovar, o artista tem de fazer bonito, ser original, como o Paulo Barros, ou então repetir, de maneira bela e bem-feita, o que já existe.
Por muito tempo o srº trabalhou como comentarista de carnaval em transmissão de TV. Primeiramente na TVE, depois na Manchete. A transmissão atual sofre severas críticas. O srº as endossa?
Fernando Pamplona - A qualidade da transmissão depende de quem a comanda, não é culpa necessariamente da emissora. Na Globo o diretor é o Aluísio Legey. Quer saber o que eu acho dele? Uma m...! Não há linearidade, mostra-se o início do desfile, depois o fim, aí volta-se para o meio. Existe, também, o padrão da emissora, que mostra gente bonita, artista, entrevista nos camarotes. Lembro-me de que a Glória Maria foi para a concentração com uma relação de pessoas famosas que ela tinha de entrevistar.
Mas isso acontecia também na Manchete.
Fernando Pamplona - Na Manchete também tive esse problema. Eu estava analisando uma alegoria e a imagem mostrava bundas, peitos, coxas. Aí eu esculhambei no ar o Maurício Sherman (diretor de TV), meu amigo de infância, que era o diretor da transmissão. Falei: “Estou analisando o desfile e o diretor folgado está mostrando mulher pelada! Estamos aqui à toa.” Foi um Deus nos acuda (risos). Uma vez, eu estava reunido com o Adolpho Bloch, (falecido empresário de comunicações, proprietário da “TV Manchete” e da “Bloch Editores”) e com o Jaquito (Pedro Jack Kapeller, sobrinho de Adolpho e vice-presidente do Bloch Editores) para acertar a transmissão do carnaval. Disse-lhes que eu queria repetir a experiência do início dos anos 80 na TVE, quando fizemos uma transmissão mostrando o povo, não os artistas. Aí o Jaquito disse que a Manchete só mostrava coisa bonita, não mostrava negro feio. Respondi dizendo que, se eu fizesse um documentário sobre sinagogas, eu pediria para não mostrar judeus (risos). (Adolfo Bloch era judeu, assim como Jaquito) Então o Adolfo Bloc disse, em tom irônico: “Jaquito, você poderia dormir sem essa, seu burro!” (gargalhadas). Jaquito era uma grande figura.
O srº tem saudades do carnaval antigo?
Fernando Pamplona – Comecei a assistir a desfile de escola de samba nos anos 50. Foi um tipo de desfile que me marcou, que me fez me envolver com o carnaval. Mas, naquela época, já não era o tipo de desfile que o Ismael Silva presenciara, por exemplo. Então, o Ismael talvez achasse ruim o desfile dos anos 50, da mesma forma que um jovem hoje deve achar muito ruim o carnaval de 30 anos atrás. Não é que eu tenha saudades. É que o meu tempo foi outro, o meu modelo, as minhas referências de carnaval não existem mais
Então, falando de coisas modernas: o que acha dos enredos patrocinados?
Fernando Pamplona – Terríveis, uma das coisas piores que aconteceram nas escolas de samba. É uma interferência nociva no trabalho do artista. Quem se salva, porque é muito inteligente e criativa, é a Rosa Magalhães, que dá um jeito de mascarar o patrocínio. Muita gente não se lembra, mas quem começou com isso foi Joãosinho Trinta em 86, com o enredo sobre a história do futebol. O carro abre-alas era uma bola da Adidas, com o desenho da Adidas, só não havia o nome da empresa.
E dos sambas-enredos?
Fernando Pamplona – Um gênero decadente. Os sambas estão muito acelerados, mais acelerados do que o frevo. Acabaram com o compasso do samba.
Mas o srº ajudou a consolidar esse tipo de samba acelerado, ao escolher, no Salgueiro em 71, o samba do Zuzuca, que ficou conhecido como Pega no Ganzê, pega no ganzá.
Fernando Pamplona – Isso nem samba é! Quem escolheu foi o povo, que cantava esse samba nas ruas antes de ele ser escolhido. Não era o meu preferido. Gostava mais do samba do Bala, que era cantado pelo Laíla. Mas a comissão – formada por mim, pelo Arlindo Rodrigues e pelo Haroldo Costa – não teve como não aclamar o samba do Zuzuca.
O srº arrepende-se da escolha?
Fernando Pamplona – Arrependo-me. Se pudesse voltar no tempo, teria escolhido o samba do Bala. Era lindíssimo.
* Bruno Filippo é Jornalista, sociólogo e coordenador do Instituto do Carnaval