12/12/2008 09:27:00

Acadêmicos do Samba: Uma jovem voz do samba

Bruno Filippo apresenta Joana Rychter, uma das novas vozes do samba carioca. Aos 23 anos, ela é vocalista do conjunto 'Falassério'. Confira entrevista com a cantora e ouça uma das música de seu primeiro CD

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)

Foto: Divulgação


Compositor, produtor e escritor, Hermínio Bello de Carvalho sabe farejar talentos e identificar tendências. No início da década, reuniu jovens sambistas e instrumentistas que se formava na Lapa, uniu-os a veteranos consagrados como Roberto Silva e Cristina Buarque e concebeu, para eles, o CD e o espetáculo “O samba é minha nobreza”, que ficou dois meses em cartaz no Cine Odeon, no Centro.  

A junção da nova com a antiga geração não se prestava àquelas demagógicas homenagens que os artistas novos costumam prestar aos veteranos que não desfrutam mais das glórias de outrora.

Consistia, isso sim, no que havia de essencial naqueles jovens de classe média de vinte e poucos anos que cantavam e tocavam um repertório das décadas de 30 a 60: a admiração por uma época que não viveram, por músicas que não marcaram sua infância e por personagens que não ocupam o imaginário simbólico da juventude. Coube-lhes reacender, no bairro, a vida boêmia que a consagrou nas décadas de 30 e 40. 

Essa admiração traduz-se num extremo respeito estético às músicas que lhe fizeram a cabeça. Não, eles não queriam recriar os clássicos à luz de uma suposta modernidade musical que, além de empobrecê-los musicalmente, transmite a falsa impressão de  que o novo é necessariamente melhor do que o velho. O programa “Som Brasil”, que a Rede Globo exibe em homenagem aos grandes de nossa música, às vezes deixa isso bem claro. 

Quase sete anos depois de “O samba é minha nobreza”, juntam a seus jovens protagonistas -  Mariana Bernardes, Pedro Miranda, Pedro Paulo Malta, Pedro Aragão, Bernardo Dantas, João Callado, Nilze Carvalho e Tereza Cristina, esta apenas no CD – vozes que se propagam a mesma onda sonora. Vozes que cantam o samba com harmonia de samba, respeitam sua melodia, descobrem-lhes as riquezas que estão escondidas. 

Uma dessas vozes é a de Joana Rychter, 23 anos, vocalista do conjunto “Falassério”. Esta menina de sorriso tímido, que em breve se formará em Relações Públicas e chegou a estudar Pedagogia, nasceu numa família judia de classe média – e descobriu o samba há apenas três anos, motivada por colegas de faculdade. Há pouco, gravou um CD de demonstração com três músicas (uma das quais está servindo de trilha sonora para esta coluna), com o que espera expandir sua carreira artística.

Hoje, divide-se entre os palcos e o tradicional Colégio Liessin, onde trabalha na equipe de coordenação pedagógica. Nesta entrevista, ela confessa que, no início, sua família estranhou seu interesse pelo samba – mas esse estranhamento diminui à medida que sua inserção nesse outro universo torna-se mais profunda. 

A história de Joana Rychter, e a dos jovens sambistas de sua geração, é o exemplo da capacidade de integração social do samba. Sem isso, o Brasil jamais poderia arrogar-se o país do samba e do carnaval.    


Como começou a cantar?

Joana Rychter - Fiz quatro anos de aula de canto no Centro Cultural Antonio Adolfo com a Luiza e a Carol Saboya; fiz parte do coral da faculdade (Faculdades Integradas Hélio Alonso), regida pelo maestro Sergio Sansão; fiz muitas aulas de canto com o professor Marcelo Rodolfo e preparo vocal com o professor Chico Donadoni.
 
Como foi sua aproximação  com  o samba? 

Joana Rychter - Eu sentia que não estava realizada ao cantar. Ainda faltava alguma coisa. Quando voltei de Israel, em 2005, o samba estava com um espaço maior aqui no Rio, uma moda. Acabou surgindo a oportunidade de conhecer algumas rodas, acabei me encantando!

Como se tornou vocalista do grupo Falassério?

Joana Rychter - Em 2005, o Paulo Thiago (conhecido como Pt), amigo da Facha e o violonista do Falassério, me chamou para fazer participação especial com eles na Casa Rosa. Nas férias, o vocalista foi viajar e eu acabei assumindo oficialmente o vocal do grupo em 2006
 
Você tinha o hábito de ouvir samba antes de começar a cantar?

Joana Rychter - Na minha casa sempre se ouviu muita musica brasileira, Chico Buarque, Caetano... Eu gostava muito de Marisa Monte também. Mas fui descobrir bem depois que aquelas músicas que eu cantava era do Paulinho da Viola ou da Velha Guarda da Portela. 
 
Quem são seus ídolos no samba?

Joana Rychter - Sou maravilhada com Dona Ivone Lara, Elza Soares, Beth Carvalho, Elba Ramalho, Zeca, Elton Medeiros, João Nogueira, Roberto Ribeiro, Luiz Carlos da Vila... Caramba, é muita gente! Eu vou conhecendo e me apaixonando. E também tem o pessoal que é novo, mas que já admiro e me espelho como o Moises Marques, Roberta Sá.
 
Em que cantora você pensa quando está empunhando um microfone?

Joana Rychter - Numa mistureba, acho que essa é a graça! A gente aprende vendo essas super cantoras e acaba fazendo um estilo nosso!

Você compõe?

Joana Rychter - Estou começando. Ainda sou um pouco tímida, mas já assinei algumas, ando brincando e aprendendo...
 
Você tem alguma ligação com escola de samba? Gosta de carnaval?

Joana Rychter - Amo carnaval! Nos últimos anos tenho amado os blocos! Não tenho ligação com escolas de samba, mas gosto de ir às quadras. Confesso ter uma simpatia pela Portela. É a quadra de que mais gosto, a velha guarda que mais escuto. Mas, no desfile do carnaval, gosto de ver aquela bagunça e aquela beleza, não torço pra ninguém!
 
Quais os lugares (casas de show, rodas etc) de samba que  freqüenta? Onde se  apresenta?

Joana Rychter - Gosto muito da roda do Moacyr Luz (segundas no Renascença e sextas no Samba Luzia), do Beco do Rato, da roda do Negão da Abolição no Guanabara, do terreiro do Galo, da Pedra do Sal, da roda da Tia Doca, do Bom Sujeito...Já me apresentei no Bar da Ladeira, Casa Rosa, Centro Cultural Memórias do Rio, Samba do Horto no clube dos macacos, Mofo, Teatro Rival, no FalaBeça, Eclético, Bom Sujeito, Lapa 40º, Teatro Odisséia. São temporadas.

Você é de família judia. Alguém se opôs (ou ainda se opõe) à sua carreira artística? Sofreu algum tipo de preconceito por cantar samba e por freqüentar roda de samba? 

Joana Rychter - Sou judia, minha família não é religiosa nem muito tradicional, mas participo da comunidade judaica. Minha família não se opõe nem tem preconceito em relação à minha carreira, apenas se preocupam não só com a extrema dificuldade do meio artístico, mas também com a idéia de eu freqüentar lugares que não são de costume do meio social em que cresci. Mas é uma questão de costume mesmo. Na primeira vez que falei que ia para uma roda no subúrbio, a reação foi estranha, mas hoje já estão se acostumando com a idéia. 


* Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval

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