![]() |
|
|
Acadêmicos do Samba: Vira, virou: Retratos da Mocidade Desfile campeão homenageou os dois grandes carnavalescos da escola, consagrou o terceiro e, ao contar sua história, deixou a pergunta que se renova: quem será o próximo? * Bruno Filippo No carnaval de 1990, a Mocidade entrou no túnel do tempo que ela construíra em quase três décadas e meia. O metaenredo Vira, Virou, a Mocidade chegou - contado por 4500 integrantes espalhados por 34 alas, 12 alegorias e 4 tripés – relembrava sua própria história. No começo do desfile, além de pierrôs, colombinas e arlequins - nostalgia carnavalesca de uma cidade que já não existia - as fantasias representavam o time de futebol do qual a escola nasceu. Ao abre-alas, com o símbolo da escola, seguiram-se o carro da favela de Vila Vintém e a escultura que retratava a bandeira da Mocidade. Os grandes carnavalescos da história da escola até aquele momento, Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto, foram lembrados, respectivamente, no segundo e no terceiro setores do desfile. Cada um mereceu três alegorias, que mostravam, por ordem, o estilo, a síntese de seus enredos e o título que eles conquistaram pela escola. Metade do desfile, portanto, homenageava os dois artistas. A lembrança era justa: ambos foram primordiais no processo de ascensão da Mocidade ao grupo de elite das grandes escolas. Mas Vira, Virou, a Mocidade chegou trazia, no próprio nome do enredo, a característica da escola - a capacidade de reinventar-se. Em momentos distintos, Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto reinventaram-na esteticamente. Nas viradas do carnaval, eles moldaram a identidade visual da escola, no que seriam seguidos pelo seu sucessor. Vira, virou. Arlindo Rodrigues chegou à Mocidade para preparar o carnaval de 74. A escola era conhecida pela excepcionalidade de sua bateria, mas isso não era suficiente para ameaçar a hegemonia das quatros grandes agremiações - Salgueiro, Mangueira, Portela e Império – que disputavam todos os anos a primeira colocação. Havia até uma piada segundo a qual a Mocidade era uma bateria cercada por uma escola de samba. A contratação do consagrado Arlindo Rodrigues foi uma estratégia da diretoria da escola – presidida por Osman Pereira Leite, com o apoio de Castor de Andrade - para torná-la mais competitiva, para mostrar às rivais que era uma escola não só de bateria, mas também de fantasia, de alegorias, de esmero no desfile. Arlindo compusera a equipe de profissionais do Salgueiro que, a partir do início dos anos 60, revolucionou a estética do carnaval carioca. Formado na Escola de Belas Artes e trabalhando no Theatro Municipal junto com Fernando Pamplona, Arlindo aplicava seus conhecimentos acadêmicos ao carnaval, misturando popular e erudito. Seus desfiles eram marcados pelo refinamento e pelo capricho. Nos enredos, primava por explorar a cultura popular brasileira, e foi assim em sua estréia na Mocidade, com Festa do Divino, que lhe valeu o quinto lugar. A colocação aparentemente modesta – afinal, não fora a primeira vez que estivera em tal posição – mascara um fato do submundo do carnaval. A Mocidade fez, em 74, um dos melhores desfiles de sua história. Seria campeã, não fosse um jurado do quesito fantasia, o qual conferiu à escola uma nota muito baixa, a mais baixa de toda a carreira de Arlindo Rodrigues: quatro. Paulo Vianna, que fazia parte da diretoria e também trabalhava como assessor da Riotur, descobriu que, na planilha em que os jurados escreviam as notas, alguém rasurara o documento, escrevendo o número quatro sobre o número sete. Paulo avisou a Osman, que preferiu o silêncio. Arlindo sabia combinar as cores com maestria; usava e abusava do branco, e de todas as suas variações, para fazer contraponto aos ornamentos barrocos que caracterizavam seu desenho. Cascatas de espelhos, filigranas, fitas, pompons - tudo isso eram marcas do carnavalescos. Mas Arlindo também sabia ousar: no enredo Mãe Menininha, de 76, pôs todos os integrantes da bateria para desfilar com a cabeça raspada, para que representassem filhos de santo. Fora um pedido da própria Mãe Menininha. A ousadia, que poucos anos depois seria considerada marca da escola, começou, em verdade, naquele ano. Em 1979, Arlindo resolveu refazer o enredo O Descobrimento do Brasil, que apresentara no Salgueiro em 1962, inspirado num espetáculo em que tinha trabalhado no Theatro Municipal. Abusando da cor branca, e com figurinos impecáveis, Arlindo contou a versão clássica do Descobrimento. Lendas de monstros marinhos, heróis portugueses, a riqueza das Índias Orientais - estava tudo lá, com uma riqueza de detalhes, com uma perfeição técnica, que o resultado foi o primeiro campeonato da Mocidade. A vitória finalmente viera, depois de cinco anos na escola - e foi seu canto de cisne. Valorizado pela conquista do título, foi chamado à missão de tornar grande outra escola em ascensão, a Imperatriz Leopoldinense. Vira, virou. A saída de Arlindo Rodrigues levou Fernando Pinto ao proscênio da escola. Proscênio é a palavra correta para falar dele. Pernambucano, sem formação formal em Belas Artes, Fernando fora integrante, nos anos 70, do famoso grupo de teatro Dzi Croquetes. Passara pelo Império Serrano, por onde conquistara o carnaval de 1972 contando a história de Carmem Miranda, e pela Mangueira, sem grandes brilhos - mas foi como carnavalesco da escola de Padre Miguel que ele ficou conhecido, tamanha sua identificação com a Mocidade. A arte de Fernando Pinto tinha clara inspiração nos movimentos artísticos dos anos 60 e 70, como a Pop Arte e o Tropicalismo. Seus enredos representavam o Brasil antropofágico, tropical, exuberante e exagerado. Em sua estréia, com o enredo Tropicália Maravilha, O Cravo brigava com a rosa por causa da Margarida gostosa, em 1980, Fernando abusou das cores verde e amarela e, como crítico irônico que era, criou uma ala de índios de patins. De volta à escola, em 83, fez Como era verde meu Xingu, considerado por Fernando Pamplona como um dos mais bem desenvolvidos de todos os tempos. Mas foram os enredos futuristas que marcariam seu trabalho na Mocidade - e, ao mesmo tempo, o visual e a identidade da escola a partir de meados dos anos 80. Em Ziriguidum 2001, de 85, Fernando Pinto apresentou pela primeira vez o espaço sideral. Desfilaram na avenida seres extraterrestres, naves espaciais, planetas, baianas vestidas de insetos espaciais e a bateria fantasiada de astronauta. Isso representou uma novidade nunca vista, e o impacto foi tão grande que o campeonato foi indiscutível. Em seus dois últimos carnavais, ele voltara a discutir o futuro. Em Tupinicópolis, de 87, especulava-se sobre o futuro do Brasil caso os índios tivessem permanecido donos da terra; e, no ano seguinte, com Beijim, Beijim, bye bye Brasil – que ele não viu ser concluído -, vislumbrava-se o futuro possível para o Brasil decorrente de uma possível Constituinte Independente de Padre Miguel. Era uma alusão à Constituição de 88, que seria promulgada meses depois do carnaval. Vira, virou. Voltemos ao desfile campeão de 1990. O último setor trazia uma interrogação: o que seria a Mocidade a partir dali. Um carro com ampulhetas, aludindo à passagem do tempo, outro com cabeças com pontos de interrogação, apontando novas possibilidades estéticas (clássico, afro, moderno, cubista etc). E, por fim, um carro representando a virada para a década de 90, um fecha-alas modernoso seguido de uma ala de aeróbica no samba. A resposta estava no próprio desfile, com o novo carnavalesco que assumia a escola: Renato Lage. Assistente de Fernando Pamplona, Renato trabalhara em cenografia de televisão, o que lhe dava clara percepção da comunicação áudio-visual. Com um desenho absolutamente limpo, foi logo rotulado como carnavalesco high tech, mas isso é uma visão simplista de seu estilo. Como se viu, já com Fernando Pinto a Mocidade apresentava-se futurista, e Renato somou sua visão a essa idéia, com recursos até então pouco usados (neon, materiais alternativos) e a constante utilização de luz como elemento cenográfico. Em todos os seus enredos, contudo, existe uma visão poética, como o feto dentro do globo terrestre no carnaval de 1991, ou o trenzinho caipira, do soberbo carnaval sobre Villa-Lobos. Assim como também é constante a crítica social, representado novamente no enredo de 1991, sobre a água, numa alegoria que representava a inflação, apresentada como a “liquidez do abacaxi”; ou no pastor com uma antena parabólica na cabeça, no desfile de 1995 sobre as religiões. No carnaval campeão de 1996, Renato Lage aplica todo o seu arsenal cenográfico e criativo para falar da dualidade do homem que é, ao mesmo tempo, produto da criação de um ser superior e criador de coisas que podem ser utilizadas para o bem e para o mal. Passando por aspectos religiosos, representados por Adão e Eva, até a produção de armas que podem aniquilar a vida humana, Renato transformou uma idéia hermética num divertido desfile didático, em que ficou muito claro o aspecto político e jocoso de seu trabalho. Vira, virou. Arlindo Rodrigues e Fernando Pinto morreram precocemente em 87. Pela originalidade, pelo talento, pela importância na evolução das escolas de samba e, principalmente, pelo que ainda poderiam criar, ambos fazem muita falta ao carnaval do Rio de Janeiro. Renato Lage, depois de treze carnavais e três títulos, desfez o casamento entre ele e a Mocidade, e hoje brilha noutro barracão. Desde que ele saiu, há seis carnavais, a Mocidade teve cinco carnavalescos - mas ainda está à procura de uma nova identidade. Que artista conseguirá essa proeza? Será Cid Carvalho, jovem como Fernando Pinto, que estréia em 2008 na Mocidade? A ampulheta e as interrogações do desfile de 90 estão novamente atuais. Está na hora de a Mocidade reinventar-se. Vira, virou? (Escrito em colaboração com o pesquisador Marcelo G. Pires, este texto originalmente publicado na Revista da Mocidade, em janeiro de 2007. Pequenas alterações foram feitas em relação ao original) * Bruno Filippo é jornalista e coordenador do Instituto do Carnaval da Estácio de Sá
|
|
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|