Élcio Braga e Raphael Azevedo
Rio - Mangueira é madeira de dar em doido. A expressão deu inspiração ao samba ‘Jequitibá’, de Zé Ramos, em homenagem à escola que agüenta o tranco e sempre dá a volta por cima. Depois de uma série de cinco vice-campeonatos e um quarto lugar, a Verde-e-Rosa levantou os títulos do Carnaval de 1949 e 1950. Foi o momento da virada.
A Verde-e-Rosa completa 80 anos dia 28 e O DIA apresenta desde ontem série sobre a história da escola. Depois dos 20 primeiros heróicos anos, a agremiação ganha corpo e ainda mais respeito das adversárias.
Confira as fotos da Mangueira recente
Em 1948, a Mangueira inovou ao apresentar pela primeira vez o samba-enredo. A letra tratava do mesmo tema escolhido para o desfile: ‘Vale do São Francisco’, de Carlos Cachaça e Cartola.
Confira os 80 anos da Mangueira
Um racha em 1947 resultara em duas associações de escolas, a União e a Federação. No Carnaval de 1949, a prefeitura decidiu só aceitar inscrições da Federação. Venceu o Império Serrano. A Mangueira, da entidade rival, ficou com o título do outro desfile. Em 50, a escola passou à entidade reconhecida pelo governo e foi campeã. A união de todas as escolas aconteceu em 1952. Em 1954, a Verde-e-Rosa ganhou de novo.
Confira os desfiles recentes
Nos anos 50, a escola trouxe outra inovação. José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, que começara na bateria da agremiação e se tornara intérprete, usou aparelho de som para cantar. Até então era só no gogó. A harmonia se acertava com megafone. “Natal da Portela entrou escola adentro, esbaforido: ‘Que negócio é esse de Jamelão cantar mais alto do que os outros?’”, relata Hiram Araújo, do Centro de Memória do Carnaval, para quem o caso ocorreu no início dos anos 60.
Confira os personagens da escola
Em 1960, a Mangueira venceu com mais 4 escolas. Embora tenha ficado em primeiro, perdeu 15 pontos por atraso — o que até então não resultava em penalidade. O título chegou a ser dado ao Salgueiro. Mas os mangueirenses reclamaram e dividiram o caneco.
Emoção com Monteiro Lobato
Após o título de 61, a Mangueira protestaria muito contra a derrota em 62. Depois de brilhante apresentação com o enredo ‘Casa grande e senzala’, com samba de Zagaia, Leléo e Comprido, a escola, que se apresentara com o recorde de 3 mil componentes, deixou a Avenida sob gritos de ‘é campeã’. Mas ficou apenas com o 4º lugar. Muitos passaram a apontá-la como cafona e de não ter a mesma beleza das rivais, que já contavam com cenógrafos e figurinistas. Houve suspeitas de que uma jurada dera notas baixas à escola por não gostar da combinação verde e rosa.
Cinco anos depois, a Verde-e-Rosa voltou a pôr a mão na taça. Com ‘O mundo encantado de Monteiro Lobato’, um samba de Darci, Luiz, Batista, Hélio Turco e Jurandir, o desfile na Avenida Presidente Vargas comoveu o público. Mostrou a obra do escritor sem lançar mão do óbvio, como exibir nomes de livros e personagens.
UMA PASSISTA INIGUALÁVEL
Nininha Xoxoba era sensação na Verde-e-Rosa. Nas apresentações, conseguia a proeza de mexer alternadamente lados das nádegas. “Ela parava um lado e mexia o outro. Igual não havia”, conta Arlete Silva, a Tia Suluca, 80 anos, ao falar da amiga Sebastiana de Almeida.
E despontavam outras atrações, como Clementina de Jesus, que foi para o morro nos anos 40, e os compositores Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento. A bateria já era marcante. Lúcio Pato, China e Zé Crioulinho ajudaram a formar o coração da escola. “Já não havia batida de resposta. Os meninos aprenderam ao escutar as paradas nos quartéis daqui”, explica Guerra Peixe, do Centro de Memória.