21/6/2008 17:54:00

Arlindo diz 'sou bom de jogo'

Pedro Landim


Rio - “Aqui eu compro de tudo. Dos artigos de minha religião a laticínios e carnes para o angu à baiana que fazemos lá em casa nas festas juninas. Sem falar nos brinquedos para a época de Cosme e Damião”, revela o compositor. E a pechincha citada no samba?

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“Eu pechincho até bala, mas não sou pão-duro. Sou bom de jogo”, ri Arlindo, despedindo-se dos fãs ao entrar na loja Orixás em Festa, de produtos religiosos, de umbanda e candomblé. Pelo celular, Babi faz uma encomenda.

Na conversa sobre datas festivas e pontos sagrados, Arlindo sugere a visita à Igreja de São Braz (detalhe que aparece na primeira página desta reportagem), onde sua mulher pagou promessa signifi cativa. “Foi uma época em que perdi a voz mas tudo acabou bem, os santos ajudaram”. Sem falar na capela de São José, igreja no alto do morro de onde se vê Madureira por inteiro, inspiração de ‘São José de Madureira’, samba irresistível de Zeca Pagodinho e Beto Sem Braço.

“Eles fizeram a parceria na casa onde eu morava no Morro do Fubá, em Cascadura, de onde se avistava a cruz lá no alto. Cheguei do trabalho e a música estava pronta. Não entrei por pouco”, conta Arlindo.

Seria mais uma de suas obras que já nascem clássicas e eternas, a exemplo de ‘Meu Lugar’. Um samba moderno, alguém dirá. Ou tradicional, virá outro palpite. Depois de 15 anos sem gravar um disco cantando músicas suas e inéditas, o artista mostra que é tudo isso, na melodia que passeia com a letra pelo bairro, em andamento crescente, até explodir no refrão cantado em coro.

“Chorei quando ouvi a música pela primeira vez”, contou o rapper Marcelo D2, nascido em Madureira, durante a roda de samba realizada na Rua Mano Décio (outro fundador do Império Serrano), um dos pontos do bairro escolhidos para a gravação do clipe de ‘Meu Lugar’.

E Arlindo se despede, gesto que na região signifi ca ‘até breve’. Como diz a letra da canção, o difícil é saber terminar. “A gente chega aqui e parece que tem uma mandinga. Na hora de ir embora tem sempre um ‘peraí’, um ‘bebe mais uma’, e aí rola um pagode na porta, uma festa na quadra. É uma desculpa sincera para chegar tarde: ‘eu estava em Madureira, amor’.”

MEU LUGAR

O meu lugar/ é caminho de Ogum e Iansã/
lá tem samba até de manhã/ uma ginga
em cada andar/ O meu lugar/ é cercado
de luta e suor/ esperança num mundo
melhor/ e cerveja pra comemorar/ O meu
lugar/ tem seus mitos e seres de luz/ é
bem perto de Oswaldo Cruz/ Cascadura,
Vaz Lobo, Irajá/ O meu lugar/ é sorriso é
paz e prazer/ o seu nome é doce dizer/ Madureira,
lá, laiá/ Ah que lugar/ a saudade me
faz relembrar/ os amores que eu tive por lá/
é difícil esquecer/ Doce lugar/ que é eterno
no meu coração/ e aos poetas traz inspiração/
pra cantar e escrever/ Ah meu lugar/
quem não viu a Tia Eulália dançar/ Vó Maria
o terreiro benzer/ e ainda tem jongo à luz do
luar/ Ah que lugar/ tenho coisas pra gente
dizer/ o difícil é saber terminar/ Madureira,
lá, laiá/ Madureira, lá, laiá/ Em cada esquina
um pagode um bar/ em Madureira/ Império
e Portela também são de lá/ Em Madureira/
E no Mercadão você pode comprar/ por
uma pechincha você vai levar/ um dengo,
um sonho pra quem
sonhar/ Em Madureira/
E quem se habilita
até pode chegar/ tem
jogo de ronda, caipira
e bilhar/ buraco sueca
pro tempo passar/
Em Madureira/ E
uma fezinha até posso
fazer/ no grupo,
dezena, centena e
milhar/ pelos setes lados
eu vou te cercar/
Em Madureira.

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