18/2/2008 18:40:00

Artigo: A Beija-Flor, as escolas de samba e os ciclos da vida

'A supremacia da azul-e-branco de Nilópolis, como qualquer supremacia em todas as áreas em que há competição, leva a um desânimo, a uma monotonia, pois o resultado já é previsível'

Bruno Filippo
(Colunista do Dia na Folia)

Antes de a Beija-Flor entrar na Marquês de Sapucaí, fui acompanhá-la em sua concentração na Presidente Vargas. Quando começou o desfile, comentei com a amiga e colega Andréa Machado, no corredor de imprensa: “Vamos ter de aturar a Beija-Flor. Vai ser imbatível!”, ao que ela retesou o semblante, como que duvidando. A dúvida se dissipou rapidamente, à medida que as primeiras alas e alegorias passavam à nossa frente.

É o quinto título da Beija-Flor em seis carnavais. Foi uma vitória indiscutível. Toda unanimidade é burra, ensinou Nélson Rodrigues - mas, assim como no ano passado, poucas vezes se viu, em desfile de escola de samba, supremacia tão grande de uma agremiação. Ao amanhecer da terça-feira, um jornalista sentenciou: “Existem hoje os grupos de acesso, o Grupo Especial e a Beija-Flor”.

É exagero, claro. No entanto, a supremacia da escola de Nilópolis, como qualquer supremacia em todas as áreas em que há competição, leva a um desânimo, a uma monotonia, pois o resultado já é previsível. Daí também a má vontade para com ela, e a isso se soma a suspeita de manipulação do resultado do ano passado. Compreende-se, mas o carnaval muda - e muda muito rápido.

Quando comecei a acompanhar desfiles, a Beija-Flor não era campeã havia muitos anos, num jejum que só seria quebrado em 1998. O bicho-papão era a Imperatriz Leopoldinense, conhecida por seus desfiles técnicos. E isso não faz tanto tempo assim! A Viradouro corria por fora, tentando beliscar o primeiro lugar. (Consegui em 97) Antes, era a estrela da Mocidade brilhava intensamente.

A vida é marcada por ciclos, idas e vindas, decadência e ascensão, começo, fim e recomeço. É assim também com a história das escolas de samba. A Portela foi campeã sete vezes consecutivas, o que quase a elevou ao posto de hors-concours. Portela, Salgueiro, Império e Mangueira dominavam até 76, quando a hoje poderosa Beija-Flor, à época uma escola pequena da Baixada Fluminense, quebrou a supremacia das quatro grandes, abrindo alas para as emergentes Imperatriz e Mocidade.

Nenhuma supremacia dura para sempre. As escolas devem absorver aquilo que faz a Beija-Flor ser uma escola diferente: investimento em infra-estrutura, nos componentes que desfilam com garra e vontade, numa linha de samba-enredo que se encaixou no modelo próprio de desfile. É isso que nos leva a perceber que, para eles – como escreveu um comentarista -, tudo pareça ser tão fácil.

Bruno Filippo é Jornalista, sociólogo, professor

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'Kizomba' (Vila Isabel, 88)

'Liberdade, liberdade' (Imperatriz, 89)

'Ratos e Urubus'
(Beija-Flor, 89)

'Vira, Virou...a Mocidade chegou' (Mocidade, 90)

'Vou cair na gandaia', (Viradouro, 97)


 



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