17/11/2008 10:12:00

Artigo: A casa de Ilda e de Hilton, a casa do samba

Luis Carlos Magalhães
(Colunista do Dia na Folia)


O cenário é inconfundível, único. 

Qualquer foto, obtida de qualquer ângulo, identificará aquele terreiro.

Os ‘posters’ na parede, uns de Floriano Carvalho, outros de Melo Menezes, a bandeirola da Portela bem acima dos músicos, a bandeira de Cuba, do MST... tudo indica aquele terreiro.

Um pandeiro amarelo ao alto adverte a eventuais e muitíssimo raros brigões: respeito: casa de samba.

Ao lado, um outro aviso deixa bem claro quem manda naquele terreiro: É Paulo Benjamin de Oliveira.

Serginho Procópio, Tantinho e Délcio Carvalho. Foto: Cíntia Pitz

Terreiro, sim, porque não há ali um palco, não há muros de quadras, não há galpões,  nem portas nem janelas...

Naquelas paredes, já envelhecidos, rostos de velhos sambistas, alguns já mortos. Todos presentes naquele lugar que representa tanto uma realidade do mundo do samba. A realidade não do show business, do sucesso das gravadoras, dos programas de rádio e de TV.

O Candongueiro, como tantas outras rodas da cidade, tem seu universo próprio.

Tanto tem artista com lugar cativo como outros que lá nunca pisaram. E jamais pisarão. 

Todo mundo que está naquela parede já esteve lá. Acho que o mais antigo foi Aniceto, partideiro lendário do Império Serrano.

Na minha cabeça, a cena inesquecível de João Nogueira emocionadíssimo cantando Sabiá, ou melhor ‘Um ser de luz’.

Será difícil surgir um dia uma canção de amor, de dor, um samba ‘post mortem’ tão emocionante, tão direto, eloqüente e emocionado quanto Sabiá. Um primor, obra prima, realização inigualável de João e Paulo César Pinheiro, este ex- marido de Clara Nunes.

Dos dezoito anos do Candongueiro freqüentei dez, talvez pouco menos. Casamento, trabalho fora do Rio, filhos pequenos...

De tantas emoções, Ivone Lara, Velha Guarda da Portela, seu Argemiro, seu Jair, nada como escolher uma, quem sabe a maior de todas, para registrar data tão importante.

Foto: Cíntia PitzFoi numa daquelas noites de sábado.

João já estava lesionado pelo derrame que logo depois o levaria.

Naquela noite João cantou muito, bem mais do que seu compromisso profissional impunha. Não sei se cantou uma outra vez mais em público, não sei, acho que não.

Naquela noite parece que todos nós sabíamos... parece que João também sabia...

Ninguém que estava ali poderá esquecer.

Vieram os primeiros acordes, e João mandou:

UM DIA ...
UM SER DE LUZ NASCEU
NUMA CIDADE DO INTERIOR

Quase todo mundo cantou:

(...) SE TRANSFORMOU NUM SABIÁ.

E seguiu, mais tocado ainda:

SUA VOZ ENTÃO,
A SE ESPALHAR
CORRIA CHÃO, CRUZAVA O MAR,
LEVADA PELO AR.
ONDE CHEGAVA ESPANTAVA A DOR
COM A FORÇA DO SEU CANTAR.

E baixou adiante:

MAS ACONTECEU UM DIA ...

Já nem precisava mais cantar, mas cantava. 

FOI QUE O MENINO DEUS CHAMOU

E o Candongueiro todo, inteiro, geral:

E ELA SE FOI A CANTAR
PARA ALÈM DO LUAR
ONDE MORAM AS ESTRÊLAS

João calado:

E A GENTE FICA A LEMBRAR
VENDO O CÉU CLAREAR
NA ESPERANÇA DE VÊ-LA,
SABIÁ.

E João se animou. E cantou bem alto:

SABIÁ
QUE FALTA FAZ TUA ALEGRIA
SEM VOCÊ
MEU CANTO É SÓ
MELANCOLIA.

No final, alçando a voz, João surpreendia a todos ao conseguir mover, com imenso esforço, sua mão direita, como numa prece, em direção ao céu.; ao céu do Candongueiro que naquele momento mágico fazia ecoar a voz de todos nós ali como a se despedir dela, Clara, e dele, João Nogueira: 

CANTA MEU SABIÁ.
VOA MEU SABIÁ
ADEUS MEU SABIÁ...
ATÉ UM DIA ...
 

 
* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval

* E-mail: lcciata@hotmail.com

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