06/01/2009 00:19:00

Artigo: 'A Evolução das Escolas de Samba do Rio de Janeiro'

Jaime Cezário resume palestra feita para a Secretaria Extraordinária de Promoção, Defesa, Desenvolvimento e Revitalização do Patrimônio durante evento que marcou o tombamento das escolas de samba

Jaime Cezário
(Colunista do Dia na Folia)

Jaime Cezário celebra a realização do evento. Divulgação


No início de dezembro, foi realizado na Secretaria Extraordinária de Promoção, Defesa, Desenvolvimento e Revitalização do Patrimônio e da Memória Histórico Cultural da Cidade do Rio de Janeiro um ciclo de palestras sobre "A Evolução das Escolas de Samba do Rio de Janeiro". O evento celebrou o tombamento das escolas de samba que desfilam na Cidade do Rio de janeiro como Patrimônio Imaterial. Foram entregues placas comemorativas aos dirigentes das três organizações que hoje comandam o carnaval das escolas de samba: LIESA, LESGA e AESCRJ.
 
A pedido da Secretaria, redigi o trabalho intitulado “A Evolução das Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, que faz parte do ato do tombamento e será colocado no site da Secretaria. Em breve, será publicado num livro importante para todo aquele que quer entender melhor o “universo das escolas de samba”.

Gostaria de resumir, nesta coluna, a palestra que proferi no evento, a qual versou exatamente sobre o trabalho. Mas, antes, quero dizer que minhas reflexões foram estimuladas e enriquecidas pelos colegas professores e pelos alunos do Instituto do Carnaval, da Universidade Estácio de Sá, de cujo corpo docente tenho a honra de fazer parte.

A pesquisa faz uma viagem pelas histórias das manifestações carnavalescas de nossa cidade, buscando entender e explicar quais os principais fatores responsáveis pelo surgimento das escolas de samba.

A escola de samba é produto da alma carioca. Um povo que soube superar as dificuldades e transformar em fantasia a realidade dos morros e das favelas. Ao longo do desenvolvimento da festa carnavalesca, observa-se uma divisão: a classe dominante começa a trazer modismos europeus para civilizar os festejos carnavalescos. Assim, os bailes de máscaras, as batalhas de confetes e flores, os corsos e as grandes sociedades vão formatar a estética desse carnaval classista.

Por outro lado, uma população pobre, de predominância negra e influenciada pelas suas heranças rítmicas africanas, vai ter identificação com as manifestações mais arruaceiras, como o entrudo, que depois vai se transformar em outras formas de manifestações igualmente tidas como violentas, como os cordões e os blocos. No entanto, se no plano ideológico a classe dominante condenará o carnaval popular, tido como bárbaro, na prática o que a história registra é que muitos de seus membros imitavam as brincadeiras e a violência do carnaval popular.

Com a chegada dos negros baianos, na segunda metade do século XIX no Rio de Janeiro, localizando-se numa região que engloba desde o Bairro da Saúde (Pedra do Sal) até o bairro do Estácio, incluindo a Praça XI, a mentalidade passa por transformações. Uma parte desse grupo de negros baianos irá se identificar com uma manifestação folclórica trazida pelos portugueses de nome “Racho de Reis” que, depois, adaptada e transformada, será chamada de “Ranchos Carnavalescos”.

Jaime Cezário celebra a realização do evento ao lado do presidente da Liesa, Jorge Castanheira, e do diretor cultura, Hiram Araújo. Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os ranchos ganham notoriedade com essa identificação dos negros. Seria adaptado  numa espécie de cortejo aos Reis do Congo e muitos da população mais pobre começam a se organizar em grupos para fazerem desfiles pela cidade no período do carnaval. Como esta manifestação era tida como civilizada pelas autoridades da época, seus membros conseguem autorização para desfilarem pelas ruas da cidade sem ter problemas com as perseguições da polícia.

No início do século XX, surge o “samba” no Rio de Janeiro. Com o samba e a interferência das famosas “tias”, cujo maior destaque é a Tia Ciata, a mentalidade desse grupo começa a ser mudada. Começam a querer formar um bloco diferente para terem aceitação social e permissão da policia para desfilar pelas ruas da cidade, assim como seus irmãos dos ranchos. 

Esse novo posicionamento faz com que um grupo do bairro do Estácio, liderados por Ismael Silva, crie a primeira “escola de samba”, quer dizer, o primeiro bloco carnavalesco a se utilizar deste termo. Esse bloco chamava-se “Deixa falar”, e seu estilo de samba muda o ritmo da batida da bateria  para o famoso “bumbum paticumbum prucurundum”, estruturando aquilo que seria o primeiro esboço de uma primitiva escola de samba carioca.

Nesse momento, em 1928, um grande passo é dado para a modificação total da festa que conhecemos como carnaval. Influenciados pela turma do Estácio, a turma de Oswaldo Cruz, liderada por Paulo da Portela, e a turma da Mangueira, liderada por Cartola, vão traduzir esta idéia inicial naquilo que se transformará no maior espetáculo audiovisual do planeta: o desfile das Escolas de Samba Carioca.

As Escolas de Samba evoluíram, começaram a eclipsar as demais manifestações impostas e em muito pouco tempo se tornaram a coqueluche de uma cidade, para não dizer de um país. Com a modernidade, foi a única manifestação folclórica carnavalesca que soube acompanhar as transformações ocorridas ao longo da história, se organizou, foi oficialmente reconhecida pelos governantes e veneradas pela população.

Na década de 60, as escolas de samba, através da figura do  carnavalesco, levantam a bandeira dos “heróis brasileiros marginalizados pela história oficial” e que a grande maioria da população desconhecia. Nomes como os de Zumbi dos Palmares, Chica da Silva, Chico Rei, Dona Beija, Aleijadinho e outros, passam para o conhecimento popular, começamos a partir de então, a descobrir e se orgulhar de nossos heróis populares e de nossa herança afro-brasileira.

As classes médias e altas nesse momento se curvaram à força dessa manifestação, oriunda das favelas e subúrbios, criada por pretos, pobres e favelados. Todos vão querer participar e assistir esta festa. As escolas de samba conseguem derrubar todas as diferenças de classes sociais, credo e cor, todos passam a ser movido por uma única motivação: o amor às escolas de samba.

O desfile das escolas de samba cresceu de forma extraordinária, tornando a Cidade do Rio de Janeiro nos dias de Carnaval o centro de atenção mundial. A cidade passou a ser sinônimo de carnaval e o carioca sinônimo de carnavalesco para o mundo inteiro.

A festa hoje se tornou um espetáculo a nível sem igual no mundo, ganhou uma passarela fixa para suas apresentações, a Marques de Sapucaí, um Instituto do Carnaval e uma Cidade do Samba. A profissionalização do espetáculo gera emprego e renda para inúmeras famílias e a Cidade do Rio de Janeiro no período carnavalesco fatura milhões em turismo

Ao chegarmos ao final do percurso do caminho construído por esta instituição  nascida e criada na Cidade do Rio de Janeiro, denominada “Escola de Samba”, um sentimento de orgulho nos toma a alma. Lembrar que tudo isso se iniciou com o entrudo trazido pelos portugueses no século XVIII e que acabou caindo no agrado das classes mais pobres e populares desta cidade se transformando num verdadeiro pandemônio festivo, onde muitos chamavam este momento da festa carnavalesca como “incivilizados e bestiais” e por isso, eram combatidos ardorosamente pelas classes dominantes e a polícia não dava trégua para ver finalizado este tipo de manifestação popular .

Imaginar que desta célula combinada a muitos outros fatores sociais e étnicos que somente a capital do Império e depois República, poderiam estabelecer é realmente fascinante. O carnaval popular do Rio de Janeiro estrutura o caminho para que a festa carnavalesca da Cidade do Rio de Janeiro se torne a maior expressão da alma brasileira, realizando uma festa múltipla que é o Carnaval, que sintetiza um país plural, produto da reunião de muitas diferenças. O Carnaval representa a síntese do Brasil, representante legítimo da identidade nacional numa espécie de resumo da genuína cultura brasileira de raiz popular.

As Escolas de Samba do Rio de Janeiro é motivo de orgulho para todo cidadão e precisa ser realmente preservada como Patrimônio Imaterial desta Cidade Maravilhosa. Nesse sentido a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através da Secretaria Extraordinária de Promoção, Defesa, Desenvolvimento e Revitalização do Patrimônio e da Memória Histórico Cultural da Cidade do Rio de Janeiro, declara Patrimônio Cultural Carioca as Escolas de Samba que desfilam na Cidade do Rio de Janeiro decreto nº 28980 de 31 de janeiro de 2008.

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E por falar em Instituto do Carnaval, vou ministrar, neste mês de janeiro, o curso de férias "Desenvolvimento de Enredo", no qual mostrarei aos alunos as principais técnicas desse trabalho tão importante e fundamental para o carnaval. 

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